O uso indiscriminado dos agrotóxicos no Brasil

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Dá medo de se alimentar no Brasil depois de ler os dados do relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) denominado “Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA)”. Em 15 das 20 culturas analisadas foram encontrados, de forma irregular, ingredientes ativos em processo de reavaliação toxicológica junto à Anvisa, devido aos efeitos negativos desses agrotóxicos para a saúde humana. “Encontramos agrotóxicos, que estamos reavaliando, em culturas para os quais não estão autorizados, o que aumenta o risco tanto para a saúde dos trabalhadores rurais como dos consumidores”, afirma o diretor da Anvisa, Dirceu Barbano.

Nesta situação, chama a atenção a grande quantidade de amostras de pepino e pimentão contaminadas com endossulfan, de cebola e cenoura contaminados com acefato e pimentão, tomate, alface e cebola contaminados com metamidofós. Além de serem proibidas em vários países do mundo, essas três substâncias já começaram a ser reavaliadas pela Anvisa e tiveram indicação de banimento do Brasil.

De acordo com o diretor da Anvisa, “são ingredientes ativos com elevado grau de toxicidade aguda comprovada e que causam problemas neurológicos, reprodutivos, de desregulação hormonal e até câncer”. “Apesar de serem proibidos em vários locais do mundo, como União Européia e Estados Unidos, há pressões do setor agrícola para manter esses três produtos no Brasil, mesmo após serem retirados de forma voluntária em outros países”, pondera Barbano.

A Anvisa realiza a reavaliação toxicológica de ingredientes ativos de agrotóxicos sempre que existe algum alerta nacional ou internacional sobre o perigo dessas substâncias para a saúde humana.  Em 2008, a Agência colocou em reavaliação 14 ingredientes ativos de agrotóxicos, dentre eles o endossulfan, o acefato e o metamidofós.

Juntos, esses 14 ingredientes representam 1,4 % das 431 moléculas autorizadas para serem utilizadas como agrotóxicos no Brasil. Entretanto, uma séria de decisões judiciais, também em 2008, impediram, por quase um ano, a Anvisa de realizar a reavaliação desses ingredientes.  Mas, a Anvisa consegui concluir a reavaliação de apenas uma molécula: a cihexatina. O resultado da reavaliação prevê que essa substância seja retirada do mercado brasileiro até 2011. “Todos os citricultores que exportam suco de laranja já não utilizam mais a cihexatina, pois nenhum país importador, como Canadá, Estados Unidos, Japão e União Européia, aceita resíduos dessa substância nos alimentos”, diz o gerente de toxicologia da Anvisa, Luiz Cláudio Meirelles.

Para outras cinco substâncias, a Anvisa já publicou as Consulta Públicas e está na fase final da reavaliação. Nesses casos, houve quatro recomendações de banimento (acefato, metamidofós, endossulfan e triclorfom) e uma indicação de permanência do produto com severas restrições nas indicações de uso (fosmete).

Outra irregularidade apontada pela PARA foi a presença, em 2,7% das amostras dos alimentos coletadas, de resíduos de agrotóxicos acima dos permitidos. “Esses resíduos evidenciam a utilização de agrotóxicos em desacordo com as informações presentes no rótulo e bula do produto, ou seja, indicação do número de aplicações, quantidade de ingrediente ativo por hectare e intervalo de segurança”, explica Meirelles.

Tiveram amostras, ainda, que apresentaram as duas irregularidades: resíduos de agrotóxicos acima do permitido e ingredientes ativos não autorizados para aquela cultura. No balanço geral, das 3.130 amostras coletadas, 29% apresentaram algum tipo de irregularidade. Os casos mais problemáticos foram os do pimentão (80% das amostras insatisfatórias), uva (56,4% das amostras insatisfatórias), pepino (54,8% das amostras insatisfatórias), e morango (50,8% das amostras insatisfatórias). Já a cultura que apresentou melhor resultado foi a da batata com irregularidades em apenas 1,2% das amostras analisadas.

Para reduzir o consumo de agrotóxico em alimentos, o consumidor deve optar por produtos com origem identificada. Essa identificação aumenta o comprometimento dos produtores em relação à qualidade dos alimentos, com adoção de boas práticas agrícolas. É importante, ainda, que a população escolha alimentos da época ou produzidos por métodos de produção integrada (que a princípio recebem carga menor de agrotóxicos). Alimentos orgânicos também são uma boa opção, pois não utilizam produtos químicos para serem produzidos.

Os procedimentos de lavagem e retirada de cascas e folhas externas de verduras ajudam na redução dos resíduos de agrotóxicos presentes apenas nas superfícies dos alimentos. “Os supermercados também tem um papel fundamental nesse processo, no sentido de rastrear, identificar e só comprar produtos de fornecedores que efetivamente adotem boas práticas agrícolas na produção de alimentos”, afirma o gerente da Anvisa.

O objetivo do PARA, criado em 2001, é garantir a segurança alimentar do trabalhador brasileiro e a saúde do trabalhador rural. Em 2009, o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos da Anvisa monitorou 20 culturas em 26 estados do Brasil. Apenas Alagoas não participou do PARA em 2009. O Programa funciona a partir de amostras coletadas pelas vigilâncias sanitárias dos estados e municípios em supermercados. No último ano, as amostras foram enviadas para análise aos seguintes laboratórios: Instituto Octávio Magalhães (IOM/FUNED/MG), Laboratório Central do Paraná (LACEN/PR) e para um laboratório contratado, nos quais foram investigadas até 234 diferentes agrotóxicos em cada uma das amostras.

O relatório está disponível no link http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/d214350042f576d489399f536d6308db/RELAT%C3%93RIO+DO+PARA+2009.pdf?MOD=AJPERES

 Resultados 2009

Produto

Nº de amostras Analisadas NA > LMR >LMR e NA Total de Insatisfatórios
(1) (2) (3) (1+2+3)
% % % %
Abacaxi 145 41 28,3% 15 10,3% 8 5,5% 64 44,1%
Alface 138 52 37,7% 0 0,0% 1 0,7% 53 38,4%
Arroz 162 43 26,5% 0 0,0% 1 0,6% 44 27,2%
Banana 170 3 1,8% 3 1,8% 0 0,0% 6 3,5%
Batata 165 2 1,2% 0 0,0% 0 0,0% 2 1,2%
Beterraba 172 55 32,0% 0 0,0% 0 0,0% 55 32,0%
Cebola 160 26 16,3% 0 0,0% 0 0,0% 26 16,3%
Cenoura 165 41 24,8% 0 0,0% 0 0,0% 41 24,8%
Couve 129 42 32,6% 8 6,2% 7 5,4% 57 44,2%
Feijão 164 3 1,8% 2 1,2% 0 0,0% 5 3,0%
Laranja 146 14 9,6% 1 0,7% 0 0,0% 15 10,3%
Maçã 170 6 3,5% 3 1,8% 0 0,0% 9 5,3%
Mamão 170 36 21,2% 22 12,9% 8 4,7% 66 38,8%
Manga 160 12 7,5% 1 0,6% 0 0,0% 13 8,1%
Morango 128 49 38,3% 11 8,6% 5 3,9% 65 50,8%
Pepino 146 75 51,4% 3 2,1% 2 1,4% 80 54,8%
Pimentão 165 107 64,8% 5 3,0% 20 12,1% 132 80,0%
Repolho 166 34 20,5% 0 0,0% 0 0,0% 34 20,5%
Tomate 144 45 31,3% 0 0,0% 2 1,4% 47 32,6%
Uva 165 58 35,2% 14 8,5% 21 12,7% 93 56,4%
Total 3130 744 23,8% 88 2,8% 75 2,4% 908 29,0%

(1) NA = Não autorizado para a cultura; (2) > LMR = Acima do Limite Máximo de Resíduo; (3) >LMR e NA = Acima do LMR e Não autorizado para a cultura; (1+2+3) =  Somatório de todos os resultados insatisfatórios

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Uma resposta

  1. Prezados senhores,

    O assunto agrotóxicos é de muito tempo atrás, mas nunca foi realmente discutido em nenhum forum nacional. As análises físico-químicas que permitem deteminar os conteúdos destas substâncias foi desenvolvida há pouco tempo (devido às quantidades muito pequenas que existiam e que os equipamentos, geralmente, não conseguiam detectar). Ainda hoje, o custo de uma análise deste tipo é inviável para o consumidor e aqueles que produzem e vendem os alimentos não têm interesse em executá-las.
    Carlos Alberto Aguilera

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