Luiz Alfredo Falcão Bauer: o verdadeiro guru brasileiro da qualidade

luiz-alfredo-falcao-bauer

O engenheiro Luiz Alfredo Falcão Bauer ((1921-1996) sempre pautou sua vida pela polêmica. Reconhecido nacional e internacionalmente como parte da história da construção brasileira, buscou continuamente a divulgação da qualidade e do controle tecnológico, não somente em obras, como também nas áreas de indústrias e serviços.

Depois de fundar a Falcão Bauer Centro Tecnológico de Controle da Qualidade, que foi primeiro laboratório acreditado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade  Industrial (Inmetro), em 1983, vislumbrou o futuro das certificações no Brasil baseado nas experiências estrangeiras, principalmente da Europa e EUA, iniciou entendimentos com o Inmetro no final da década de 80 para realizar um dos seus sonhos: fundar uma certificadora essencialmente nacional acreditada. No Brasil, havia um grande movimento para o estabelecimento de programas de qualidade principalmente nas empresas privadas internacionais e nacionais de grande porte. A norma NBR ISO 9001:1987 já estava em vigor e, aliada aos programas de Qualidade Total trazidos pelos japoneses, iniciou-se um movimento para qualificação e certificação de profissionais. Na época multiplicaram-se os seminários internacionais da qualidade, com os maiores gurus no assunto. Em 1992, o Instituto Falcão Bauer da Qualidade (IFBQ) obteve a acreditação Organismo de Certificação de Produtos (OCP) recebendo o número de OCP 003. Ao longo da década de 90, o IFBQ conseguiu acreditação para certificação voluntária e compulsória de diversos produtos. Em seguida foi concedida ao IFBQ a nomeação como Organismo Designado (OD) e Organismo de Verificação de Desempenho (OVD).     Finalmente o IFBQ obteve acreditação como Organismo de Certificação de Sistema de Gestão da Qualidade – NBR ISO 9001:2000 (OCS), e como Organismo de Certificação de Sistema de Gestão Ambiental – NBR ISO 14001 (OCA).

Especialista em concreto, Bauer acreditava que, em geral, as doenças no concreto não ocorrem separadamente, pois uma trinca, causada pela doença de expansão, pode deixar que a água alcance a armadura. Então, a ferrugem aparece, como um segundo mal. Para o diagnóstico, ele contava com um arsenal de quase 50 exames. Corantes tingem de verde a área do material que perdeu resistência, por causa da maresia, por exemplo, usava até o ultra-som, como os médicos, para avaliar a localização e o tamanho dos danos. Felizmente, segundo ele dizia, não faltavam as terapias, que vão de revestimentos especiais a técnicas como os jatos de areia para retirar a ferrugem. Isso resolve boa parte dos casos. Mas o fundamental é melhorar a qualidade das obras, para que não adoeçam tanto e tão cedo.

O importante, para o engenheiro, tanto quanto investir em novas tecnologias, era apostar no treinamento e na formação dos operários. “Afinal, são eles que empunham as ferramentas no dia-a-dia e possuem a real dimensão das vantagens e desvantagens de cada uma delas. O encantamento dos construtores com os equipamentos estrangeiros e o seu proporcional desencanto com a baixa qualidade da mão-de-obra nacional costumam inverter a ordem natural das coisas. Tal panorama, no entanto, vem se alterando aos poucos. Os empresários parecem estar descobrindo que a troca de know-how entre as construtoras é extremamente sadia para o desenvolvimento do setor. Descobrir que a mesma receita também vale para os operários não deve tardar. Caso contrário, todo o investimento em tecnologia será em vão”, afirmava.

E quais os fundamentos para se adotar uma nova ferramenta? Conhecer tecnicamente o produto e suas diferentes possibilidades de utilização; aferir a qualidade dos serviços após a introdução da nova ferramenta, já que o desempenho deve ser, no mínimo, similar ao antigo equipamento para justificar o investimento; medir a produtividade/eficiência, pois se a ferramenta não agregar maior produtividade ao serviço deve ser dispensada; analisar a relação custo/durabilidade: quanto maior for a vida útil do equipamento, maior será o período de amortização do investimento realizado; analisar os custos de manutenção e o consumo de energia do equipamento, incluindo a própria força de trabalho da mão de obra ao longo do tempo. “As novidades vindas do exterior são atraentes, mas é preciso escolher o equipamento certo, treinar a mão de obra e investir em manutenção preventiva para obter bons resultados a longo prazo”, assegurava

Saí com ele várias vezes em seu karmann ghia vermelho para acompanhá-lo em palestras que ele ministrava. No carro, amontoadas iam mais de uma dezena de ferramentas e produtos que prometiam aumentar a produtividade nos canteiros de obras, compostas em sua maioria por equipamentos simples, de fácil manuseio e pouca sofisticação, trazendo soluções criativas e pouco dispendiosas para o construtor. Alguns produtos foram amplamente difundidos no mercado nacional como o cortador de paredes, o prego de cabeça dupla e o espaçador e antidilatador para pisos, azulejos e pedras. Outros, como a enxada de dois orifícios para mistura de argamassa, o aplicador de massa dentado para colocação de azulejos, a colher meia-cana, as espátulas de cantos externos e internos e a argamasseira metálica, são pouco conhecidos.

Outra preocupação era com o meio ambiente, já naquela época. “É necessário dizermos claramente que o lixo das cidades não pode constituir-se como resultante do lixo de suas obras. Melhor dizendo, o desperdício que cria junto com lixo orgânico, esconderijo, alimentação, ambiente propício para a criação de roedores, de insetos e de agentes transmissores de doenças infecto-contagiosas. Não deveria isto ser assumido conscientemente pelos construtores? Já existem promotores e juizes questionando se o desperdício de 30% do material comprado para uma construção não pode ser interpretado como um processo para encarecer obras e gerar maior ganho pelo construtor, quando o trabalho é por preço de custo ou, até mesmo, por volume de material consumido?”, perguntava.

Em uma conversa que tive com ele em fevereiro de 1993, afirmava que os produtos estão extremamente ciosos da qualidade. Em muitos casos, os consumidores estão, até mesmo, dispostos a pagar mais, quando sentem que, com isto, receberão um melhor produto, com maior durabilidade, menor manutenção e, até mesmo, melhor aparência. “Quando você pensa sobre esse assunto, você está pensando o mesmo quer esteja comprando um carro, roupa ou escolhendo materiais para sua casa. Para a indústria da construção civil crescer, precisamos construir da maneira que os nossos compradores em potencial desejam e imaginam. Para alcançar essa meta, todos nós devemos fazer com qualidade e não esperar que ela aconteça. Fazer com qualidade não é transformar em palacete uma casa de interesse social, mas construir a casa, pelo menos, com conforto, durabilidade e baixo custo. Você é tão bom, quanto o seu último empreendimento. Mas aquele trabalho não deve ser o último que você faz. Ao contrário, você deve ser melhor que o concorrente e fazer com que seu competidor, por qualidade inferior a sua, esteja fazendo o último empreendimento dele”, dizia.

Também afirmava para as pessoas não se esquecerem de se pode gastar anos construindo com qualidade e, então, com apenas uma ou duas obras de baixa qualidade anos de sucesso da empresa serão destruídos. “A melhor maneira de incrementar, constantemente, sua qualidade de construção, é organizar um programa de garantia da qualidade. Este programa é iniciado pelo planejamento e continua pelos projetos e especificações. Em seguida, todas as compras têm que ser feitas de acordo com normas técnicas, que deverão ser parte integrante da cotação de preços. Embora a maior parte dos vendedores saiba o que é essa negociação, jamais tiveram em mãos, viram ou leram as normas referentes aos produtos que eles têm à venda. Da mesma maneira, o engenheiro de obra e o fiscal deverão ter em mãos, permanentemente, como se fosse uma Bíblia, uma seleção de normas brasileiras e, até mesmo, dos equipamentos mais simples para ensaio de recepção, na própria obra. Na maior parte de vezes, bastam um metro, uma balança e um pouco de inteligência, para comparar os dados obtidos, com as normas. Depois de mais de dez anos de falarmos, repetirmos até a exaustão, sobre a necessidade imperiosa da implantação da garantia da qualidade nas obras, começa-se a ver a luz no fim do túnel. Algumas empresas de construção já utilizam algum sistema de controle da qualidade e, com seus resultados, aumentaram as vendas, diminuindo a manutenção e, finalmente, dando a satisfação para todos. Faz o que no Japão é chamado de garantia total da qualidade”.

Assim, segundo Bauer, pelo controle da qualidade, que é uma parte da garantia da qualidade, como o ensaio é, apenas, uma parte do controle da qualidade, “haverá a satisfação para o comprador de ver realizados os seus desejos; satisfação no serviço de manutenção de ver diminuírem as reclamações, sempre presentes e numerosas; satisfação da construtora, de ver seu nome entre as melhores”, acreditava. “E, finalmente, a satisfação do acionista de ver a remuneração do seu esforço empregado. Nós acreditamos que, aplicando procedimentos já em uso há alguns anos, em países da Europa, e hoje unificados para o Mercado Comum Europeu, poderemos, sem aumento de preço, e, provavelmente, em muitos casos, com redução de custo, introduzir, na Indústria da construção civil, métodos simples, porém, eficientes, para obtermos a garantia total da qualidade das empresas de construção”.

Ele dizia ainda que um articulista fazia irônicas críticas à nossa Indústria da construção, dizendo que ele não entendia como o mesmo brasileiro, que presta concurso e faz a Escola da ITA, em São José dos Campos, é capaz de fazer um avião, que vença, em concorrência de qualidade e preço, a indústria aeronáutica da França e a de Israel, fornecendo aviões para os Estados Unidos e Inglaterra, e, o mesmo brasileiro, que cursou uma escola de engenharia civil, não é capaz de fazer uma laje de cobertura impermeabilizada e que não vaze. “E continuava, informando que era um feliz comprador de um apartamento de cobertura, localizado na praia de Copacabana, e que, depois de 15 dias, já habitando seu apartamento, devidamente mobiliado, com carpete e quadros; teve a surpresa, na primeira chuva, de encontrar vários pontos de infiltração pela laje de cobertura. Chamando a manutenção da construtora, que por sinal era de bom nome, verificou encantado ser atendido, em poucas horas, por um jovem engenheiro que se denominava chefe de manutenção e que cuidadosamente verificou o número de goteiras, perguntou ao proprietário se gostava de plantas. Em face da afirmativa, imediatamente tomou o telefone interno e mandou subir oito grandes vasos, que foram, ato contínuo, trazidos por, oito alegres e uniformizados portadores de vasos, conduzindo escada, prumos, suportes de vasos e notou, admirado, a eficiência com que, tirando o prumo do ponto de vazamento, era localizado, cada vaso, exatamente no centro dos prumos”, contava.

“Os tempos se passaram, as tentativas de complementar a impermeabilização foram feitas e as plantas, os vasos que foram devidamente escolhidos, por gostarem de água de cal, resultante das reações químicas da hidratação de cimento e que gostavam, também, da sombra do apartamento, já estavam crescidas, viçosas, porém, começavam a atrapalhar o trânsito e a visão do feliz morador. Mas, o que realmente trouxe confusão mental é que, ao toque da campainha da entrada, ouvia-se, não o sinal costumeiro, mas o da descarga assimilado, como previria o professor Pavlov. Depois de três meses, a esposa do comprador resolveu contratar numa firma especializada, duas vezes por semana, para a limpeza da casa e aí deu a confusão, que a obrigou a internar-se numa clínica psiquiátrica. O som da descarga era o da campainha. Ou era do uso?”, concluía a sua história.

Siga o blog no TWITTER

Mais notícias, artigos e informações sobre qualidade, meio ambiente, normalização e metrologia.

Dicas Qualidade Online

Já que eu gosto de andar por esse mundo de deuses e cozinhar, a partir de agora o site vai editar textos dando dicas para os internautas que visitam São Paulo para cursos ou férias e mesmo para aqueles que moram na cidade. Comida, passeios, receitas, etc. …tudo visando uma melhor qualidade de vida.

Referência em feijoada. Aberto em 1946, o Bolinha continua sendo uma referência em feijoada na cidade. Seus preços são altos e as cumbucas podem ser nas versões tradicional ou magra. Almocei com o Falcão Bauer ali várias vezes e ele dizia que a diferença era que o prato era feito de madrugada, deixavam esfriar, colocavam tudo em uma banheira e deitavam uma negra nua e pura na banheira para dar sabor e qualidade à mistura de feijão e carnes. Av. Cidade Jardim, 53 – Itaim Bibi – Telefone: (11) 3061-2010 – http://www.bolinha.com.br/

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: