Lixo nuclear: um problema de difícil e complexa solução

Depois do terremoto no Japão, a sociedade mundial voltou a discutir as usinas nucleares e um dos problemas se relaciona com o lixo nuclear. Ele é produzido em todos os estágios do ciclo do combustível nuclear- desde a mineração do urânio até o reprocessamento de combustível nuclear irradiado. Grande parte desse lixo permanecerá perigoso por milhares de anos, deixando uma herança mortal para as futuras gerações. Durante o funcionamento de um reator nuclear são criados isótopos radioativos extremamente perigosos – como césio, estrôncio, iodo, criptônio e plutônio. O plutônio é particularmente perigoso, já que pode ser usado em armas nucleares se for separado do combustível nuclear irradiado por meio de um tratamento químico chamado reprocessamento.

Como parte da operação de rotina de toda usina nuclear, alguns materiais residuais são despejados diretamente no meio ambiente. Resíduo líquido é descarregado (como “água de resfriamento de turbina”) no mar ou em rio próximo à usina; resíduos gasosos vão para a atmosfera. Há três categorias de lixo atômico: resíduo de alto nível (HLW, de high level waste); resíduo de nível intermediário (ILW, intermediate level waste); e resíduo de baixo nível (LLW, de low level waste). O HLW consiste principalmente de combustível irradiado proveniente dos núcleos de reatores nucleares (embora a indústria nuclear não o considere como “lixo”) e de resíduos líquidos de alta atividade produzidos durante o reprocessamento. A remoção de plutônio pelo reprocessamento resulta num imenso volume de resíduo líquido radioativo. Parte desse mortal resíduo de reprocessamento, armazenado em grandes tanques, é misturado com material vítreo quente e solidificado.

Os blocos de vidro resultantes também são classificados como HLW. Ainda que o processo de vitrificação possa tornar mais fácil o transporte e o armazenamento do lixo atômico, de forma alguma diminui o terrível risco para as pessoas e o ambiente durante o milênio que virá. De maneira geral, o HLW é mil vezes mais radioativo que o ILW.

O ILW consiste principalmente de “latas” de combustível metálicas que originalmente continham urânio combustível para usinas nucleares, peças de metal do reator e resíduos químicos. Têm de ser blindado para proteger operários e outras pessoas contra a exposição durante o transporte e a destinação final. Normalmente, ele é estocado no local em que é produzido. O ILW, de maneira geral, é mil vezes mais radioativo que o LLW. O LLW pode ser definido como o resíduo que não requer blindagem durante o manuseio normal e o transporte. O LLW consiste principalmente de itens como roupas de proteção e equipamentos de laboratório que possam ter entrado em contato com material radioativo.

O consultor ambiental Mauricio Waldman (mw@mw.pro.br) explica que ainda em estado de choque, a opinião pública mundial assiste ao pesadelo em câmara lenta dos reatores nucleares de Fukushima. Tal como uma hemorragia que resiste a todo e qualquer tratamento, a usina nuclear continua a emitir pródigas quantidades de radiação, cujos efeitos em longo prazo estão distantes de serem mapeados e devidamente avaliados. Afinal, a gangrena radioativa continua, sem previsão de final feliz. “Fato óbvio, o acidente japonês traz a lembrança os dramáticos eventos da explosão do reator de Chernobyl (1986) e porque não, reacende as polêmicas relacionadas com a utilização da energia nuclear. Na ocasião, a fusão do reator ucraniano matou entre 7 e 10 mil pessoas, fez 500 mil vítimas potenciais, afetou em menor grau nove milhões de pessoas e forçou a evacuação de 400.000 cidadãos. Até hoje, fatia considerável dos orçamentos dos países atingidos é destinada para remediar os problemas gerados pelo acidente. Nesta ordem de considerações, é importante ressalvar que apesar de acontecerem, sinistros envolvendo usinas atômicas são sempre apresentados como estatisticamente improváveis. Ademais, esses equipamentos contam com palavras apaziguadoras de profissionais que assumem o papel de relações públicas a serviço da continuidade do nuclear”, explica.

Para demonstrar isso, o consultor cita como exemplo as ponderações dos responsáveis pela Usina de Chernobyl:

“Mesmo que acontecesse o impossível, os sistemas de controle automático e de segurança desligariam o reator em questão de segurança. A usina tem sistemas para refrigeração do núcleo, além de diversos outros dispositivos tecnológicos de segurança” (Nicolai Fomin, engenheiro-chefe de Chernobyl, 1985).

“As chances de fusão de um núcleo são de uma a cada 10.000 anos. As usinas são dotadas de controles seguros e confiáveis, e estão protegidas de qualquer colapso por três sistemas de segurança diferentes e independentes” (Vitali Skiyerov, ministro de energia ucraniano, 1985).

“Esse medo das centrais nucleares não tem fundamento. Eu trabalho de avental branco. O ar lá dentro é puro e limpo, porque é cuidadosamente filtrado” (Boris Chernov, operador de turbina em Chernobyl, 1985).

“Portanto, em face do que tem acontecido, tudo leva o cidadão comum a no mínimo por em dúvida a palavra dos especialistas, uma descrença que seria maior ainda caso a pauta dos noticiosos explorasse mais profundamente o que está em jogo. Efetivamente, os problemas não se resumem a incêndios de reatores, imagens de multidões em pânico ou outros incidentes cinematográficos. Silenciosamente, uma ameaça latente — sobre a qual a opinião pública é pouco ou nada informada — diz respeito à questão da geração, armazenamento e destinação do lixo nuclear”, acrescenta.

Waldman diz que é fato consumado que a operação de equipamentos nucleares gera rejeitos extremamente perigosos. Este é o caso do plutônio, elemento químico radioativo não encontrado na natureza. Subproduto do urânio – a matéria prima energética da atomoeletricidade – cada central nuclear gera em média entre duas e três toneladas de plutônio por ano, um material perigosíssimo devido sua índole destrutiva. “O plutônio – cujo nome deriva de Plutão, o Deus grego do Inferno – é uma “sobra” virulentamente letal. Basta uma fração da ordem de um milionésimo de grama para por a perder a saúde das pessoas. Além dos efeitos drásticos no meio ambiente, a periculosidade deste elemento químico pode perdurar por milhares de anos, potencializando pulsões já notavelmente daninhas. O pior é saber que passando ao largo das controvérsias que cercam o nuclear, o segmento manteve taxas expressivas de expansão. Em parte, o crescimento se justifica por interesses bélicos. Como até hoje ninguém traçou a linha divisória que separa o chamado uso civil da utilização militar, não há como negar que a expansão da atomoeletricidade corre em paralelo com a probabilidade de eclodirem guerras nucleares, cujos efeitos, em si mesmos dantescos, provocariam impactos simplesmente sem precedentes”.

Assegura, ainda que, tendo este cenário por pano de fundo, a produção mundial de eletricidade de origem atômica mais do que triplicou entre 1980 e 1997, especialmente nos países ricos. As centrais nucleares – 439 em maio de 2008 – estão atualmente em operação em muitas nações, particularmente no hemisfério norte. No século XXI, a energia nuclear alcançou participação nunca vista na produção de energia, suprindo 16 % do consumo mundial.

“Disto resulta um acúmulo de centenas de toneladas de plutônio. Em 2007, apenas os EUA, maior produtor mundial de energia nuclear (30% do total), exibiam uma montanha de 50.000 toneladas métricas de plutônio. Mas onde colocar todo esse lixo? Há quem proponha lacrá-lo em cavernas artificiais construídas especialmente para este fim. Yucca Montain, controvertido projeto de armazenamento do lixo nuclear dos EUA em túneis escavados nas Montanhas Rochosas, acata tal premissa. Teoricamente segura, esta instalação recepcionaria todos os rejeitos radioativos dos EUA e inclusive de países estrangeiros, uma generosidade que o governo norte-americano advoga para que assim seja detida a expansão dos arsenais nucleares”.

O especialista aponta alguns problemas para isso, a começar pela logística de transporte. Para funcionar efetivamente como depósito de resíduos atômicos, transferir lixo radioativo das usinas até Yucca Mountain solicitaria mais de 15.000 carregamentos por caminhão e ferrovia, os quais atravessariam 43 estados durante um período de 30 anos. Configurando um autêntico Chernobyl móvel para 50 milhões de pessoas ao longo do trajeto, este detalhe foi o estopim de aceso inconformismo em muitos estados dos EUA, que resistem em permitir a passagem do lixo nuclear pelo seu território.

“Outro aspecto é o horizonte temporal. Devido à persistência da radiação, o horizonte de responsabilidade legal é avaliado entre 250.000 e 500.000 anos, um período de tempo equivalente a cem vezes o lapso entre a inauguração da pirâmide de Quéops e a leitura deste artigo. Isto significa ficar à mercê do imponderável, principalmente em função da imprevisibilidade dos desastres naturais, sem contar a maximização dos seus efeitos, vitaminados, por exemplo, pelas mudanças climáticas. Nessa perspectiva, a tremenda quantidade de lixo nuclear, aliada aos seus malefícios e consequências duradouras no ambiente, põe diretamente em cheque a hipótese de uma estocagem eficiente”.

Finalmente, o consultor conclui dizendo que não existem recipientes, nem sistemas de armazenamento cuja blindagem seja invulnerável na escala de milhares de anos. Do mesmo modo que um tsunami imprevisto atingiu Fukushima – isso é um fenômeno estatisticamente improvável – abalos sísmicos ainda mais devastadores não podem ser descartados em face do perfil geológico do território japonês. Para complicar, teríamos falhas humanas igualmente inéditas e destinação não-planejada dos resíduos, incidentes que ninguém está em condições de assegurar a respeito de sua improbabilidade.

“Fukushima mostra o quanto o discurso que candidamente batizou o nuclear como energia limpa – visto não gerar gás de efeito estufa – é largamente equivocado. Mostrou igualmente as limitações de um suspeito diálogo responsável que tem sido proposto para legitimar a expansão da atomoeletricidade. Nesse parecer, um fato óbvio se impõe: Não há diálogo possível com um anátema. Num país que como o Brasil, já assistiu acidente sério envolvendo a radioatividade (caso do Césio de Goiânia de 1987), podemos – e devemos – lançar  mão de  alternativas  mais aceitáveis. Algumas sugestões: energia solar, eólica e maremotora, as quais além de não produzirem  efeito estufa, também não emitem radioatividade. Isto sem esquecer os benefícios da conservação de energia e utilização responsável dos recursos naturais. Medidas mínimas cabíveis diante do espetáculo do inusitado”.

No caso do Brasil, o lixo atômico produzido pelas usinas Angra I e II, no Rio de Janeiro, é guardado em depósitos provisórios. Também existem depósitos provisórios em centros de pesquisa nuclear no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais – o único depósito permanente fica em Goiás. O grande problema está mesmo no lixo de alta radioatividade, como restos do combustível nuclear que move as usinas. De tão perigosas, essas pastilhas gastas de urânio vão sendo empilhadas em uma piscina de resfriamento ao lado do reator onde são usadas.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em seu estudo “Indicadores de Desenvolvimento Sustentável 2008 (IDS 2008)” descreve que apesar de produzir 13.775 metros cúbicos de resíduos radioativos, o Brasil ainda não tem, com exceção do depósito de Abadia de Goiás – que contém os rejeitos do acidente com césio-137, ocorrido em Goiânia, em 1987 -, depósitos finais para onde encaminhar esse material perigoso com segurança. Só para se ter uma idéia, ainda se estuda o local ideal para a construção do depósito definitivo para os rejeitos das usinas de Angra I e II, que começaram a operar, respectivamente, em 1982 e 2000. Os rejeitos radioativos brasileiros são depositados, temporariamente, no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, no Instituto de Energia Nuclear (IEN), no Rio, e no Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), em Minas Gerais, todos ligados à Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear). O estado campeão na produção destes rejeitos é São Paulo, responsável por 36% do material que vai para os depósitos da Cnen, seguido por Rio de Janeiro (19%) e Bahia (18%).

Livro de Maurício Waldman

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Quando se pensa em ações sustentáveis, prontamente nos remetemos para a questão ambiental. Isto porque nos dias de hoje, não há continente ou país isento de problemas ecológicos. Na raiz desta situação está a imprudência, o descaso e a falta de planejamento. Não constitui nenhum exagero ponderar que medidas de conservação da natureza poderiam ter evitado muitas das catástrofes vivenciadas pela sociedade contemporânea. Atualmente, não há quem duvide da necessidade urgente de solucionar esta questão. De modo sem precedentes, montanhas de rejeitos parecem se acumular por todos os lados, despertando indignação e indagações sobre como resolver este problema. Com um tema tão complexo e delicado pela frente, o ideal é buscar soluções viáveis e permanentes para a sociedade e para o planeta. Assim, dando continuidade para o debate de ações pedagógicas, sociais e ambientais, a Cortez Editora e o autor Maurício Waldman lançam o livro “Lixo: Cenários e Desafios”, publicação que coloca de modo transparente os principais aspectos de um tema de interesse para o conjunto da sociedade humana. Para comprar o livro, clique no link http://www.lojacortezeditora.com.br/catalogsearch/result/?q=LIXO%3A+cEN%C3%81RIOS+E+DESAFIOS&x=17&y=11

Normas comentadas

Confira quais as normas comentadas disponíveis. Elas oferecem mais facilidade para o entendimento e são muito mais fáceis de usar: http://www.target.com.br/portal_new/produtossolucoes/NBR/Comentadas.aspx

NBR 14039Instalações elétricas de média tensão de 1,0 kV a 36,2 kV. Possui 140 páginas de comentários

NBR 5410Instalações elétricas de baixa tensão – Comentada – para windows, versão 2004

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Uma resposta

  1. Concordo plenamente com isso. O lixo nos dá muitos problemas.

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