Impermeabilização: a proteção contra a ação da água

impermeabilizaçãoConsiderada como uma técnica que consiste na aplicação de produtos específicos com o objetivo de proteger as diversas áreas de um imóvel contra ação de águas que podem ser de chuva, de lavagem, de banhos ou de outras origens a impermeabilização é uma atitude saudável para o imóvel e para quem vive nele. A água infiltrada nas superfícies e estruturas afeta o concreto, sua armadura ou a ferragem, as alvenarias e os revestimentos. O ambiente fica insalubre (umidade, fungos e mofo), diminuindo a vida útil da edificação, sem falar no desgaste físico e emocional do proprietário ou usuário que sofre com a má qualidade de vida causada pelos problemas existentes no imóvel. A exemplo dos projetos de arquitetura, da estrutura de concreto armado, das instalações hidráulica e elétrica, de paisagismo e decoração, entre outros de uma obra comercial, industrial ou residencial, a impermeabilização também deve ter um projeto específico, um projeto que detalhe os produtos e a forma de execução das técnicas de aplicação dos sistemas ideais de impermeabilização para cada obra.

Há muito tempo procuram-se soluções na direção de se prolongar a vida útil dos imóveis, no constante trabalho para resistir às infiltrações. No Brasil as primeiras impermeabilizações utilizavam óleo de baleia na mistura das argamassas para o assentamento de tijolos e revestimentos das paredes das obras que necessitavam desta proteção. Assim, a impermeabilização passou a ser entendida como item da construção que necessitava de normalização , ganhou especial impulso com as obras do Metrô da cidade de São Paulo, que se iniciaram em 1968. Como em qualquer atividade humana que envolve canalização de recursos financeiros, temos que analisar a chamada “relação custo/benefício”. Em impermeabilização não é diferente. Quando feita de forma correta, com produtos e serviços adequados, por empresas idôneas, os custos de uma impermeabilização atingem, na média, 2% do valor total da obra. Se forem executados apenas depois de serem constatados problemas com infiltrações na edificação já pronta, a impermeabilização ultrapassa em muito este percentual, envolvendo até valores em torno de 10% do custo total da obra.

Para Adilson Munin, técnico da Viapol, o mercado da construção civil caminha em ritmo acelerado quando o assunto é sustentabilidade. O apelo ecológico como valor agregado do empreendimento ganha cada vez mais importância no que tange à vida útil da edificação, não somente em relação ao patrimônio em si, mas principalmente em relação à qualidade de vida que essa edificação proporcionará aos seus usuários. “Ficou para trás a ideia de que um empreendimento viável é aquele que contempla somente localização, conforto e preço. A preocupação com a utilização racional do espaço, energia, água e áreas comuns passa a ter predominante importância na eleição de um local para se viver ou para se trabalhar, pois além da sustentabilidade das edificações, estamos falando também da sustentabilidade do ser humano enquanto peça fundamental na manutenção do equilíbrio entre produzir qualidade e viver com qualidade. Todas estas máximas do mundo contemporâneo passam logicamente por diversos pontos que somados se tornam de vital importância neste cenário. E um destes pontos que vamos abordar nesta oportunidade é a impermeabilização e os benefícios por ela gerados. São desnecessárias definições sobre impermeabilização, visto que a esta altura já sabemos da sua importância na preservação das edificações. Porém, cabem aqui algumas reflexões e orientações sobre quais produtos devemos ter em mente quando estivermos frente a um projeto de impermeabilização para um determinado empreendimento ou simplesmente a frente de um empreiteiro que irá erguer uma pequena edícula em nossa casa de praia.

Segundo ele, analisando o projeto básico de uma edificação, no momento de inserir os sistemas e produtos para impermeabilização devemos pensar na sustentabilidade sob vários aspectos: agressão do produto ao meio-ambiente no momento de sua utilização, impactos ambientais do produto depois de aplicado – e também depois de expirada sua vida útil –, bem como resultados esperados com relação à estanqueidade e conforto proporcionado por uma adequada impermeabilização. Isso porque a percolação da água nas superfícies e estruturas ao atingir o concreto, sua armadura e alvenarias, torna o ambiente insalubre, devido à umidade, o que certamente acarretará a formação de fungos e mofo, reduzindo a vida útil da construção e resultando em elevado desgaste físico e emocional dos ocupantes e, consequentemente, em má qualidade de vida. “Como ainda não existem especificações definidas para produtos sustentáveis ou ecologicamente corretos na impermeabilização, a escolha adequada dos produtos e sistemas deve seguir os princípios básicos de qualidade e eficiência para o substrato a que se destina, como também atender os requisitos de preservação do meio ambiente, inclusive após sua aplicação. Na imprimação das superfícies cimentícias, como concreto e alvenaria, podemos mencionar as emulsões asfálticas, os primers a base d’água ou ainda primers de alto sólidos, por não possuírem em sua composição elevados teores de materiais voláteis perigosos. A opção pela impermeabilização pré-fabricada, como as mantas asfálticas, é uma alternativa interessante apesar da utilização de chama por maçarico a gás GLP para sua instalação. Além disso, o avanço dos sistemas autoaderentes, apesar do maior custo em relação às mantas convencionais, representa, em um futuro bem próximo, o método ideal para aplicação das mantas asfálticas”. Atualmente, garante o técnico, em muitos casos a opção por sistemas impermeabilizantes à base d’água é uma escolha correta, pois atualmente existe uma variedade de soluções eficazes para diversos tipos de solicitações e substratos. Dentre elas, podemos citar as emulsões acrílicas e asfálticas elastoméricas; os impermeabilizantes cimentícios, que já são largamente utilizados em muitas situações; os hidrofugantes adicionados às argamassas e ainda uma série de produtos formadores de redes poliméricas impermeáveis que são base água ou isentos de solventes orgânicos. “De maneira geral hoje já podemos afirmar que a indústria possui tecnologia suficiente para oferecer ao mercado produtos de baixa agressão ao meio ambiente com garantia de estanqueidade e durabilidade, colaborando de forma eficaz para a sustentabilidade da edificação, desde que haja um projeto previamente estudado que seja adequado à necessidade específica a qual estará sujeita a edificação”.

Quanto à normalização, existem muitas normas para o assunto. Mas duas delas são importantes: a NBR 9574 de 12/2008 – Execução de impermeabilização (clique no link para mais informações) que estabelece as exigências e recomendações relativas à execução de impermeabilização para que sejam atendidas as condições mínimas de proteção da construção contra a passagem de fluidos, bem como a salubridade, segurança e conforto do usuário, de forma a ser garantida a estanqueidade das partes construtivas que a requeiram, atendendo a NBR 9575; e a NBR 9575 de 09/2010 – Impermeabilização – Seleção e projeto (clique no link para mais informações) que estabelece as exigências e recomendações relativas à seleção e projeto de impermeabilização, para que sejam atendidas as condições mínimas de proteção de construção contra a passagem de fluidos, bem como a salubridade, segurança e conforto do usuário, de forma a ser garantida a estanqueidade das partes construtivas que a requeiram. Segundo as normas, os tipos de impermeabilizaçáo sáo classificados segundo o material constituinte principal da camada impermeável: argamassa com aditivo impermeabilizante; argamassa modificada com polímero; argamassa polimerica; e cimento modificado com polímero. O asfáltico inclui: membrana de asfalto modificado sem adição de polimero; membrana de asfalto elastomerico; membrana de emulsão asfáltica; membrana de asfalto elastomerico, em solução; e manta asfáltica.

O tipo polimérico são a membrana elastomerica de policloropreno e polietileno clorossulfonado; a membrana elastomérica de poliisobutileno isopreno (I.l.R), em solução; a membrana elastomérica de estireno-butadieno-estireno (S.B.S.); a membrana elastomérica de estireno-butadieno-estireno-ruber (S.B.R.); a membrana de poliuretano; a membrana de poliuveia; a membrana de poliuretano modificado com asfalto; a membrana de polimero acrílico com ou sem cimento; a membrana acrilica para impermeabilizaçáo; a membrana epoxidica; a manta de acetato de etilvinila (E.V.A.); a manta de policloreto de vinila (P.V.G.); a manta de polietileno de alta densidade (P.E.A.D.); amanta elastomérica de etilenopropilenodieno-monomero (E.P.D.M.); a manta elastomérica de poliisobutileno isopreno. Os serviços auxiliares da impermeabilizaçlo são classificados segundo a sua função, como: preparo do substrato (ver ABNT NBR 9574); preenchimento de juntas: cordão de poliestireno, cordão de polietileno, cordão de sisal, cordão de náilon, elemento de poliestireno, elemento de lã de vidro, elemento de lã de rocha, lâminas metálicas e mastiques asfalticos; tratamento estanque de juntas: faixas de mantas asfalticas, faixas de mantas elastomericas de poliisobutileno isopreno, faixas de mantas elastoméricas de etilenopropilenodieno-mono, perfil de policloropreno, perfil de policloreto de vinila, selantes (mastiques), membrana elastomerica de poliisobutileno isopreno, em solução, estruturada; tratamento por inserção: injeções de silicatos, injeções de resinas poliméricas e bloqueadores hidráulicos para tamponamento. O tipo adequado de impermeabilização a ser empregado na construção civil deve ser determinado segundo a solicitacão imposta pelo fluido nas partes construtivas: imposta pela água de percolação; imposta pela água de condensação; imposta pela umidade do solo; e imposta pelo fluido sob pressão unilateral ou bilateral.

Para a execução da impermeabilização, as áreas que requeiram estanqueidade devem ser totalmente impermeabilizadas. Para os tipos de impermeabilização que requeiram substrato seco, a argamassa de regularização deve ter idade mínima de sete dias. As superfícies sujeitas a água sob pressão positiva devem receber a impermeabilização na face de atuação da água. O substrato deve se apresentar firme, coeso e homogêneo. O substrato deve ser limpo, isento de corpos estranhos, restos de fôrmas, pontas de ferragem, restos de produtos desmoldantes ou impregnantes, falhas e ninhos. Os elementos traspassantes ao substrato devem ser previamente fixados. O substrato deve estar úmido, porém deve estar isento de filme ou jorro de água. Na existência de jorro de água, promover o tamponamento com cimento e aditivo de pega rápida.

Na aplicação do tipo de impermeabilização, o substrato deve ser umedecido e receber camada de chapisco de cimento e areia, traço 1 :2, para servir de ponte de aderência entre o substrato e a argamassa impermeável com hidrófugo. A argamassa deve ser preparada in loco e não deve ser industrializada, composta por areia, cimento Portland, aditivo hidrófugo e água potável (ABNT NBR 12170). A areia lavada deve ser de granulometria de 0,075 mm a 3 mm, classificada como media, isenta de substâncias ou materiais argilosos. O traço, o tipo de cimento e da areia e tempo de manuseio devem ser conforme especificações do fabricante. A argamassa impermeável deve ser aplicada de forma contínua, com espessura de 30 mm, sendo a aplicação em camadas sucessivas de 15 mm, evitando-se a superposição das juntas de execução. A primeiracamada deve ter acabamento sarrafeado, a fim de oferecer superfície de ancoragem para camada posterior, sendo a argamassa impermeável manualmente adensada contra a superfície para eliminar ao máximo o índice de vazios. As duas camadas devem ser executadas no mesmo dia; caso contrario, a última camada deve ser precedida de chapisco. Quando houver descontinuidade devido a interrupção de execução, a junta deve ser previamente chanfrada e chapiscada. A última camada deve ter acabamento com uso de desempenadeira. A cura úmida da argamassa deve ser de no mínimo 3 dias.

A argamassa a ser empregada deve ser preparada in loco, pela mistura de aglomerante, agregado e polímero. O traço, o tipo de cimento e da areia, tempo de utilização da mistura e cura devem ser conforme especificações do fabricante. O substrato de concreto, quando na horizontal, deve ser umedecido e receber camada de imprimação com uma composição de polímero e cimento Portland. O polímero deve ser previamente diluído em água de acordo com a especificação do fabricante do polímero. A necessidade da realização da imprimação e sua metodologia devem ser conforme instruções do fabricante. O substrato de concreto, quando na vertical, deve ser umedecido e receber camada de chapisco antes da aplicação da argamassa modificada com polímero. O substrato de alvenaria deve ser umedecido e receber camada de chapisco antes da aplicação da argamassa modificada com polímero. A espessura da argamassa modificada com polímero deve ser no mínimo de 1,0 cm. Em áreas abertas ou sob incidência solar, promover a hidratação da argamassa modificada por no mínimo 72h.

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Cyberbullying: violência e sofrimento em tempos de mundo cíbrido

Armazenamento de Líquidos Inflamáveis e Combustíveis de acordo com a proposta de Revisão da Norma ABNT NBR 17505 - Presencial ou Ao Vivo pela Internet

Curso: Armazenamento de Líquidos Inflamáveis e Combustíveis de acordo com a proposta de Revisão da Norma ABNT NBR 17505

Modalidade: Presencial ou Ao Vivo pela Internet *

Dias: 29 e 30 de outubro

Horário: 09:00 às 17:00 horas

Carga Horária: 14h

Professor: Paulo de Tarso Martins Gomes

Preço: A partir de 3 x R$ 257,81

(*) O curso permanecerá gravado e habilitado para acesso pelo prazo de 30 dias a partir da data da sua realização.

O curso visa a orientação de todo o pessoal envolvido no Projeto, na Construção, na Aprovação de Licenças e na Fiscalização de Instalações voltadas para o Armazenamento de Líquidos Inflamáveis e Combustíveis (Terminais e/ou Fábricas). Neste curso serão apresentadas todas as mudanças que ocorrerão com a revisão da Norma NBR 17505. Os participantes do curso serão preparados para desenvolver Projetos eficientes e seguros de Instalações que são alvo de constantes inspeções, por envolverem riscos às Comunidades e ao Meio Ambiente. Para atender à demanda daqueles que não podem se locomover até as instalações da Target, tornamos disponível este curso Ao Vivo através da Internet. Recursos de última geração permitem total aproveitamento mesmo à distância. Os cursos oferecidos pela Target são considerados por seus participantes uma “consultoria em sala”, ou seja, o participante do curso tem a possibilidade de interagir com renomados professores, a fim de discutir e buscar a melhor solução para problemas técnicos específicos.

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Claudio Paris

Com o advento da internet e a recente popularização dos computadores pessoais e smartphones, deu-se o ponto de partida para o surgimento do cibridismo, característica marcante do século XXI. O termo ciber (digital) + híbrido (mistura) designa a fusão dos mundos físico e virtual, que só é possível com ajuda da tecnologia – via internet, computadores e inovações digitais. Em certo sentido, podemos dizer que não existe mais somente uma realidade para cada pessoa, pois o mundo físico (off-line ou desconectado) se funde com o virtual (online ou conectado) na sociedade contemporânea, criando essa nova realidade híbrida. Tal fenômeno impacta de modo contundente, especialmente a vida de crianças e jovens. Ambos são chamados de nativos digitais, já que nasceram em um mundo mergulhado em tecnologia, convivendo intensamente no mundo virtual com familiares, amigos e membros de sua comunidade. Como nessa faixa etária a escola ocupa um lugar central em suas vidas, esse espaço tem um importante papel no processo de desenvolvimento psicossocial, reverberando no cyberespaço vários aspectos do âmbito escolar, em especial a violência. Na maioria dos casos, essa é a matriz geradora do chamado cyberbullying, termo de origem inglesa composto pelas palavras cyber e bullying, tendo bully um significado próximo ao nosso “valentão”, originado de Bull (touro), na sua designação literal.

Episódios de violência, sofrimento e humilhação no âmbito escolar caracterizam o bullying, revestindo-se de um componente ainda mais perturbador no contexto do cyberbullying, modalidade de agressão no mundo virtual. Quando há um episódio qualquer de violência no mundo real (seja ele caracterizado ou não como bullying), os agressores são facilmente identificados e confrontados na escola, como em qualquer outro lugar, pois os envolvidos são pessoas físicas, identificáveis e conhecidas. Já no caso da “perturbação online”, a situação é muito mais complexa. A identificação dos agressores é bem mais difícil, pois seu autor pode criar um perfil falso em um blog, Twitter ou Facebook, tornando seu combate mais complexo e perturbador. Segundo especialistas, a crescente escalada do cyberbullying está ligada a uma cultura individualista e competitiva, que marca o advento da sociedade contemporânea. O combate desse fenômeno será tão mais exitoso quanto maior for a interferência dos variados protagonistas do espaço escolar: pais, professores, gestores e comunidade.

Por isso, defendo o estímulo à convivência com o diferente e a construção de práticas solidárias, por meio do exercício da cidadania, de atividades esportivas e manifestações artísticas, como teatro, dança e sarau de poesias, entre outras. Elas colaboram para fortalecer a solidariedade e o respeito mútuo, criando condições para reduzir as práticas de cyberbullying e minorar seus impactos. A tarefa dos pais também é gigantesca: criar laços de proximidade na vida dos filhos que não se restrinjam ao mundo físico. Isso, além de acompanhar de perto o mundo virtual deles por meio de diálogo, convívio e cumplicidade, protegendo-os de ameaças virtuais da mesma forma como se preocupam com sua integridade física.

Claudio Paris é licenciado em Ciências e Biologia e pós-graduado em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). É também professor de colégio conveniado ao Ético Sistema de Ensino (www.sejaetico.com.br), da Editora Saraiva, músico e gestor da Nova Geração, comunidade terapêutica que assiste jovens vítimas de exclusão social e drogadição.

Demitido? Eu?

Laerte Leite Cordeiro

O almoço, naquela sexta-feira, na empresa, tinha sido alegre e um pouco ruidoso. Mas afinal, chegava o fim-de-semana e todos nós, gerentes e coordenadores, estávamos um pouco tensos com a situação da empresa e do mercado, precisando relaxar. De volta a minha sala e naqueles minutos de espera pelo cafezinho pós almoço que Dona Conceição, nossa copeira, sempre trazia, pus-me a pensar sobre o trabalho, a empresa, os negócios e o futuro. Mas logo tudo recomeçou e o tempo para devaneios terminou. Passavam-se as horas rapidamente e era já perto do fim do expediente, quando a Lurdinha entrou e me avisou: “Carlos, o Dr. Ricardo quer falar com Você antes do fim do expediente”. Agradeci e logo pensei: deve ser sobre o Plano de Metas para o ano que vem, que acabei de apresentar. As previsões não são brilhantes, mas a situação geral também não está essas coisas. E o Plano é bom e o Ricardo vai com certeza me cumprimentar.

Com o Plano embaixo do braço e um sorriso confiante apresentei-me ao Ricardo, um Diretor competente e educado, com quem sempre me dei bem. Ele pediu um último cafezinho que tomamos rapidamente e, antes que eu pudesse dizer alguma coisa foi direto ao assunto: “Carlos, tenho uma notícia triste para Você, para mim e para todos aqui. Teremos que dispensar os seus serviços. É uma decisão superior, sobre a qual nada posso fazer!” Percebendo o choque que me causava – eu devia estar pálido – reforçou que não se tratava de incompetência, falta de empenho ou lealdade, mas que a decisão era irreversível e que eu deveria procurar o RH, segunda-feira, para negociar a rescisão. Voltei para minha sala e nem sei como cheguei até lá. Larguei o corpo na cadeira, com um misto de surpresa, mágoa e raiva e sem que pudesse me controlar senti as lágrimas rolarem e o mundo desabar. Depois de alguns minutos e passado o primeiro choque, revivi minha história na empresa, sozinho com a minha dor.

Sempre me vi como prata-da-casa, com mais de 15 anos de trabalho, numa carreira ascendente, que começou como auxiliar de escritório e me levou à gerência, pelos meus bons serviços prestados. E porque isso agora? É verdade que estávamos todos advertidos de que a empresa contratara uma Consultoria para um trabalho de racionalização e reorganização e que já havia ocorrido a extinção de funções, mudanças no organograma, alterações de processos e redução da burocracia. E que também alguns colegas de salários mais altos, mesmo gerentes, tinham sido desligados por força da reformulação organizacional. Mas, eu? Depois de tantos anos, agora, esta surpresa? Se alguém é culpado, esse alguém é a empresa pois se queriam alguém melhor do que eu sou que me cobrassem mais ou que indicassem o que estava errado em meu trabalho. E assim, naquele triste fim de tarde, querendo explicar minha desdita, acabei por me perguntar com honestidade: “Mas de verdade, foi a empresa a culpada, ou fui eu mesmo que cavei o meu próprio buraco?” E comecei a me perguntar se, por exemplo, foi a falta de interesse nos cursos que a empresa oferecia, se foi meu estilo autocrático de chefia, se foram meus excessos burocráticos ou se foi minha já tranquila zona de conforto. Não, foi algo maior do que só isso. E com tristeza concluí que a razão maior que todas foi a de que fiquei no passado, pensei que tinha cadeira cativa, fugi da renovação e me mantive míope, sem ver que o mundo estava passando e que só eu não via. A verdade é que somos ambos culpados, a empresa assim como eu, pois poderíamos ter evitado o que afinal ocorreu.

Enfim agora já é tarde, não há mais o que fazer, é levantar a cabeça e continuar a viver. Vou contar com a família que saberá compreender e ajudar e parto logo em busca de um novo lugar ao sol, aprendendo com a experiência e evitando novos erros na minha carreira. De toda essa história triste sobram dois conselhos que acho importante dar aos profissionais como eu e às empresas em geral: aos primeiros que mantenham alta sua empregabilidade, todo o tempo, que essa é a grande tarefa que se espera qualquer executivo; e às últimas que cuidem de acompanhar todo o tempo, a carreira de cada um dos seus profissionais, para ajudá-lo a ser melhor a cada dia e evitar um desenlace fatal.

Laerte Leite Cordeiro é professor de Recursos Humanos, mestre em administração e conselheiro de carreiras executivas. Preside a Laerte Cordeiro Consultores em Recursos Humanos.