Entre a realidade e a imaginação: o amigo imaginário

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03 de Dezembro de 2012 – 212ª Edição  – Ano 2012

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Um brinquedo ou um objeto que se transforma em amigo, ou o surgimento de um amigo que não podemos enxergar. Apesar de muitos pais ficarem preocupados, os amigos imaginários são muito comuns até os seis ou sete anos de idade da criança. O amigo invisível ou objeto representará para ela uma figura humana, fazendo parte de sua rotina tanto em casa como na escola ou em eventuais passeios. “Em primeiro lugar, precisamos entender isso como um fenômeno normal e até mesmo esperado do desenvolvimento infantil”, diz Melina dos Santos Mosna, professora de educação infantil do Colégio Nossa Senhora do Morumbi, em São Paulo. “Podemos explicar o amigo imaginário como uma substituição ou complemento àqueles objetos que trazem conforto e segurança para as crianças, como chupetas e paninhos. Nessa fase, a criança também precisa aprender sobre muitas questões, como controlar todo tipo de sentimento, e o amigo imaginário serve como uma ponte para essa conversa pessoal. Nós adultos também usamos esse artifício. Quantas vezes não dizemos ‘estive conversando comigo mesmo’? A diferença é que esta conversa ainda é muito abstrata para as crianças, que acabam criando esses supostos amigos como uma ponte para estabelecer este diálogo”, completa a educadora”.

O comum são os amigos imaginários aparecerem na idade de três a sete anos, fase do desenvolvimento da linguagem oral da criança. Eles duram até o momento no qual a criança passa a socializar mais em suas brincadeiras. No entanto, isso não é regra e cada criança tem um tempo próprio para realizar essas transições, diz Maria Edna Scorcia, diretora pedagógica do Colégio Joana D´Arc. “Algumas demoram mais e acabam utilizando esse recurso por mais tempo. Assim como no uso da chupeta e da fralda, ou no período de alfabetização, cada criança tem seu tempo e seria um erro muito grande não respeitar isso”. A origem dessa prática pode estar em uma simples necessidade de companhia social, já que muitas crianças, sem a companhia de pais, irmãos ou amigos acabam se sentindo sozinhas. Outra causa dessa criação pode ser o refúgio de uma situação que provocou uma alteração emocional, como a morte de um parente, a separação dos pais ou mesmo o nascimento de um irmão mais novo. O amigo imaginário tende a acalmar a criança quando ela estiver muito ansiosa, com raiva, medo ou mesmo emocionalmente carente.

Para Melina Mosna, o assunto deve ser visto com naturalidade. “Isso é natural e os motivos são vários. O amigo pode surgir por falta de companhia durante as brincadeiras, a criança pode criar situações fantasiosas para lidar com seus medos e inseguranças, ou simplesmente para imaginar pessoas e lugares diferentes, porque isto é divertido para ela. O importante é os pais encararem com naturalidade e até mesmo aproveitar para saber se algo incomoda a criança, ajudando ela a elaborar melhor seus sentimentos”. Quando os pais se deparam pela primeira vez com os filhos falando sozinhos e eles nos explicam que estão conversando com seu amigo não devem se preocupar, já que o fenômeno além de comum pode ser muito saudável para a criança. É o que diz a psicopedagoga e diretora do Colégio Global, Eliana de Barros Santos.

“Dar voz às fantasias ajuda na formação da personalidade e pode aprimorar a linguagem oral, pois normalmente as crianças conversam longamente com estes amigos, o que se torna um exercício para futuros diálogos com seus pares ou adultos com os quais se relaciona”, conta. “Quando os pais descobrem o amigo imaginário do filho, podem aceitá-lo na mesa de jantar, na hora de dormir ou de brincar no jardim. Isto pode ser um pedido de reconhecimento por parte das crianças aos pais. O amigo imaginário se encontra em uma fase de transição da criança, que provavelmente ficará para trás quando o vínculo com o mundo externo estiver mais consolidado e for possível ter experiências seguras com amigos reais”, explica.

Mosna acrescenta que repreender ou dizer abertamente que o amigo não existe pode deixar a criança confusa e chateada, mexendo muito com sua autoestima. “Ignorar e fingir que não está vendo não é uma boa saída, pois significa destruir momentos de imaginação e criatividade da criança, que auxiliam muito em seu desenvolvimento de forma saudável. Dizer que o amigo não existe é pior ainda, pois você pode acabar magoando a criança, deixando ela constrangida. Negar esse momento de imaginação é impossibilitá-la de ser criança”. Para as educadoras, o amigo imaginário desaparece naturalmente com o desenvolvimento gradual da maturidade social-afetiva da criança, que encontra por si mesma formas de abandonar esses amigos e é saudável que os pais possam participar dessa “despedida” quando possível. Se a criança acreditar que ele foi embora, dizer que o amigo imaginário foi viver ou está agora estudando em outro lugar, em outra cidade e escola, pode deixar a criança em situação mais confortável e mostrar que ela se encontra em um ambiente seguro. A preocupação, segundo elas, só se justifica se esse comportamento persistir para muito além dos seis ou sete anos de idade, ou se a criança se isolar da vida real, preferindo a companhia do amigo imaginário a outros relacionamentos sociais. “Quando isso ocupa maior espaço do que as relações presenciais, pode indicar uma dificuldade da criança em enfrentar a realidade ou de se relacionar com outras crianças”, atenta Eliana de Barros Santos. “Nesses casos, recomenda-se que os pais procurem orientação psicológica ou mesmo a ajuda da escola, que costuma ser um parceiro valioso nos cuidados com a criança”.

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