Os riscos da inalação de fumaça da combustão de polímeros

Amplamente utilizados pela indústria da construção e mobiliário, a queima de polímeros em incêndios produz fumaça densa e gases tóxicos que, inalados, podem matar rapidamente.

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Espuma de poliuretano para revestimento acústico

Os pesquisadores da Fundacentro, Elayne de Fátima Maçãira, Maria Margarida Teixeira e José Tarcisio Buschinelli, elaboraram um texto, a partir de revisão bibliográfica, com o objetivo de informar sobre os produtos de termodegradação de polímeros, auxiliar no reconhecimento e tratamento da intoxicação por inalação dos gases resultantes, especialmente em situações de incêndio, e facilitar o acesso a informações atualizadas àqueles que lidam com a prevenção de incêndios e de acidentes e doenças ocupacionais no Brasil.

A fumaça de polímeros pode conter substâncias muito tóxicas, como cianeto. No incêndio da Boate Kiss em Santa Maria (RS), ocorrido no dia 27 de janeiro de 2013, 243 pessoas, entre elas 20 trabalhadores, morreram após inalação da fumaça produzida pela queima da espuma de poliuretano usada no isolamento acústico, um tipo de polímero.

Do ponto de vista prático e de segurança, hidroxicobalamina é o antídoto de escolha para tratamento da intoxicação por cianeto pela inalação de fumaça. Até o momento, contudo, não há disponibilidade de antídotos aprovados pela Anvisa-MS (Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Ministério da Saúde). Também não existe no país disponibilidade de ampolas de nitrito de amila que podem ser úteis em um primeiro atendimento, no próprio local, de um acidente químico que gere este gás em ambientes de trabalho, como em galvanoplastias, por exemplo.

Em vista destes fatos, sugere-se que a Anvisa libere rapidamente formulações para tratamento de intoxicações por cianeto de hidrogênio (hidroxicobalamina ou edetado de cobalto, como exemplos) e que estes sejam fabricados por produtores de medicamentos ligados ao Ministério da Saúde e disponibilizados às emergências, incluindo o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e o Resgate dos Bombeiros. Também seria importante a disponibilização de ampolas de nitrito de amila às empresas que tenham risco de acidentes químicos por geração de cianeto de hidrogênio puro (sem produção por incêndio).

Ao longo das últimas décadas observou-se um aumento do uso de polímeros em produtos utilizados pela indústria da construção e de mobiliário em geral. Conseqüentemente pode-se considerar que a fumaça produzida em incêndios nos dias de hoje apresenta riscos diferentes daqueles de algumas décadas atrás. A queima de produtos que têm polímeros em sua composição tem o potencial de produzir rapidamente fumaça densa (aerossóis de partículas de fuligem), calor intenso (vapor d’água), líquidos inflamáveis e gases tóxicos. O monóxido de carbono (CO – CAS 630-08-0) é o gás tóxico mais reconhecido na combustão de polímeros, mas o gás cianídrico ou cianeto de hidrogênio (HCN – CAS 74-90-8), também produto desse processo, tem sido o mais crítico nas intoxicações agudas.

Nas edificações, em geral, encontram-se polímeros tais como poliuretano, cloreto de polivinila (PVC), poliestireno, polipropileno, polietileno, resina uréia-formaldeído, entre outros. Exemplos de produtos que contêm polímeros em sua constituição são: espumas flexíveis (isolamento acústico, enchimento de sofás/colchões), espumas rígidas (isolamento térmico, inclusive de geladeiras), tubulações de água, persianas, recipientes de isopor, vernizes de piso/Synteko®, carpetes, capas de fiação elétrica.

Na análise da informação sobre a termodegradação de cada polímero deve-se considerar a existência de inúmeras variáveis. Os produtos da decomposição térmica dependem de como os polímeros foram fabricados, se contêm pigmentos ou outros aditivos (p.ex., agentes plastificantes, de reforço, estabilizantes, antioxidantes, fungicidas) ou ainda se contêm retardantes de chama, tais como compostos clorados e fosforados. A termodegradação de produtos tratados com retardantes de chama clorados, por exemplo, pode formar ácido clorídrico (HCl – CAS 7647-01-0).

Esse ácido também é um importante agente tóxico originado da combustão de PVC. Os produtos de decomposição térmica também variam em função da temperatura e umidade do ar e da presença de outras substâncias no ar. Os gases comuns, e mais prevalentes, resultantes da combustão de polímeros são dióxido de carbono (CO2 – CAS 124-38-9) e monóxido de carbono.

Porém, todos os polímeros que contêm nitrogênio (por exemplo, poliuretanos, náilons, poli-acrilonitrilas), na combustão dão origem também a cianeto de hidrogênio, óxidos de nitrogênio, especialmente o dióxido de nitrogênio (NO2 – CAS 10102-44-0), e amônia (NH3 CAS 7664-41-7). Estes poluentes também podem ser produzidos, em menor quantidade, na queima de plásticos que não contêm nitrogênio por incorporação de nitrogênio da atmosfera. Outras substâncias tóxicas resultantes da termodegradação de polímeros são nitrilas, benzeno (C6H6 – CAS 71-43-2) , tolueno (C7H8 – CAS 108-88-3), isocianatos, negro de fumo e aldeídos. É interessante notar que certos poluentes ocorrem em maiores quantidades quando da combustão incompleta. Essa condição é mais comum em incêndios em locais fechados, que apresentam baixas concentrações de oxigênio.

As vítimas de incêndios apresentam um ou mais tipos de lesões: traumáticas, térmicas e químicas. Destes, a maior causa de mortes durante ou após o acidente é a lesão química pela inalação da fumaça. Os agentes de dano presentes na fumaça são: materiais particulados, que se depositam em diferentes regiões das vias aéreas de acordo com o tamanho das partículas; agentes de intoxicação sistêmica (já foram identificadas cerca de 150 substâncias tóxicas na fumaça de incêndios). agentes irritantes respiratórios, que causam reações inflamatórias intensas e prolongadas decorrentes de ação química, como dióxido de enxofre, amônia, cloreto de hidrogênio, cloro (Cl2 CAS 7782-50-5) e óxidos de nitrogênio; e calor que pode produzir lesão térmica por queimaduras, predominantemente na orofaringe.

O contato com o ar quente estimula o fechamento da glote. O ar quente úmido é mais perigoso que o ar quente seco, pois consegue atingir as vias aéreas inferiores sem dissipar o calor. O processo de combustão também pode produzir privação de oxigênio, devido ao seu consumo pelo fogo, e conseqüente asfixia. A asfixia pode ocorrer, portanto, pelo edema causado pela lesão térmica, pela baixa concentração de oxigênio e pela inalação de gases como o monóxido de carbono e o cianeto de hidrogênio.

Os dois agentes de maior impacto nas intoxicações por inalação de fumaça são o monóxido de carbono e o cianeto de hidrogênio. O diagnóstico da intoxicação por monóxido de carbono é facilmente obtido, mas o mesmo não ocorre com o cianeto. Para minimização de sequelas graves e mortes causadas pela intoxicação por cianeto é necessário o reconhecimento precoce e a administração do antídoto o mais rapidamente possível.

Embora existam vários antídotos específicos, a hidroxicobalamina apresenta, segundo diferentes autores, vantagens práticas e de segurança. Assim, um grupo de especialistas europeus desenvolveu dois algoritmos: um préhospitalar e um hospitalar, publicados pela European Society of Emergency Medicine (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22828651), com o objetivo de melhorar o reconhecimento e o tratamento da intoxicação por cianeto.

Dessa forma, as preocupações atuais em relação principalmente ao cianeto de hidrogênio se relacionam com a presença cada vez maior de materiais sintéticos que geram este gás asfixiante em caso de incêndio dentro de residências e de locais de trabalho. O reconhecimento e tratamento adequado da intoxicação por cianeto o mais precocemente possível é um elemento chave para diminuir o número de mortes e de sequelas graves. Cada situação requer uma avaliação personalizada do melhor tratamento, mas atualmente, hidroxicobalamina é considerado o antídoto preferencial do ponto de vista prático e de segurança.

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