Metrologia e sustentabilidade

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Luiz Fernando Mirault Pinto

O conceito de desenvolvimento sustentável se refere a uma forma de desenvolvimento capaz de garantir o bem-estar das gerações atuais sem prejuízo das que virão. Essa conceituação é ampla, complexa, difusa, e dependente de muitos fatores ou influências de difícil definição e controle, e por isso mesmo é sempre se reduzida a uma orientação para ações políticas no reconhecimento das limitações do uso dos recursos ambientais (matéria e energia) ou simplesmente às causas que ameaçam nosso ecossistema.

Em termos práticos, o conceito vislumbra a adoção de um modelo de desenvolvimento que privilegia um modo de vida justo e saudável, o acesso democrático aos gêneros e bens necessários, a idealização de políticas públicas que se harmonizem e atendam os anseios da sociedade, quase uma utopia. O bom desempenho sócio-político-econômico e tecnológico frente ao desenvolvimento desordenado e a consequente correção das atitudes deletérias do homem em relação ao equilíbrio e harmonia do planeta exige cada vez mais dos controles permanentes das ações sustentáveis, de acordo com os dados obtidos de medições das mais diversas grandezas, métodos diferenciados, e procedimentos metrológicos que garantam a confiabilidade das informações de base, necessárias às tomadas de decisão.

Quando as medições se referirem às medidas fundamentadas na obtenção de informações voltadas às gestões de sustentabilidade elas se definem como metrologia da sustentabilidade. Ela inclui indicadores, parâmetros, índices e outras formas de obtenção de informações. Esses índices definem qualitativamente parâmetros gerais indicativos da evolução de ocorrências (pobreza, desigualdades, agricultura, segurança alimentar, no progresso da saúde e os aspectos socioeconômicos). Definem também o bem – estar e a qualidade de vida das populações em relação às concentrações urbanas, as taxas de crescimento populacional, a democratização dos serviços de assistência governamental e a avaliação das políticas públicas que privilegiam a preservação do planeta, sempre em analises até em bases ditas, “não muito concretas”.

Diferentemente, uma metrologia sustentável é aquela cujas ações próprias se desenvolvem em torno de objetivos metrológicos definidos e mensuráveis e que se coadunam com as práticas relacionadas à gestão da sustentabilidade. Sua finalidade não é definir ou estabelecer parâmetros subjetivos sobre assuntos gerais influenciados por diversas variáveis como a fome, por exemplo, que tem diversas causas que vão desde os interesses econômicos e políticos, aos limites geográficos, ou mesmo as características meteorológicas e sim oferecer com objetividade e confiabilidade métodos e medições definidas.

Quando pela simplificação conceitual de sustentabilidade, aquela que se relaciona prioritariamente e exclusivamente ao meio ambiente e a conservação de ecossistemas, consideramos a metrologia ambiental, que é uma ciência transdisciplinar com interfaces nas disciplinas técnicas integrantes das chamadas ciências naturais, aplicada ao meio ambiente. Todavia, a diversidade das áreas de atuação, as grandes extensões a serem cobertas pelos controles ambientais, as prioridades em regiões caracterizadas como zona de risco, o atendimento ao princípio de precaução, o respeito aos acordos e tratados internacionais ainda impedem seu desenvolvimento adequadamente.

Ela carece também de informações específicas das ciências humanas e sociais para sua ação, sob o risco de apresentar resultados não adequados para o estabelecimento e suporte das políticas públicas (saúde pública e bem estar social), seus envolvimentos (educação, alimentação e transportes), e os setores estratégicos (energia, abastecimento, comunicações) em relação ao meio ambiente. Essas dificuldades ainda não muito bem definidas tornam-se preocupações quanto à confiabilidade dos resultados, a calibração dos instrumentos e a rastreabilidade aos padrões, que configuram a metrologia ambiental.

Salienta-se que todos os ramos da metrologia têm aspectos voltados para a sustentabilidade. No entanto aquela que mais se aproxima e que dependemos cotidianamente, é a que nos assegura medidas corretas utilizadas em atividades conhecidas e têm exigências definidas legalmente: a Metrologia Legal. Ela explicita as necessidades de controle, supervisão e das medições nos segmentos econômicos afetados ou influenciados pelo desenvolvimento tecnológico e industrial, e cujas medições são parâmetros utilizados para minimizar os efeitos adversos, por vezes nocivos ao equilibro do sistema ecológico, garantindo os elementos necessários para nossa sobrevivência.

Atividades metrológicas interferentes à sustentabilidade

Segurança, meio ambiente

Na fiscalização do trânsito e na aplicação da legislação em vigor como forma de garantir a segurança nas rodovias são utilizados equipamentos de controle de redução da velocidade. Com eles a medição correta em níveis confiáveis resulta nos objetivos propostos dentro dos limites de velocidade previstos. O controle da velocidade ideal e legal permitida nas vias de tráfego terrestre tem objetivos relacionados à sustentabilidade como a segurança rodoviária, a economia de combustível (energia), a redução da poluição [1] em função da emissão de CO e CO2, NO e NO2, partículas e hidrocarbonetos, e seus efeitos tóxicos ao meio ambiente e a saúde.

O excesso de velocidade e a conseqüente queima de combustível influem na qualidade do ar, do mesmo modo que os pneus inflados inadequadamente também aumentam o consumo de combustível e, por conseguinte resultam nas emissões de gases nocivos na atmosfera contribuindo com a poluição e agravamento do efeito estufa. O controle de equipamentos como os radares, odômetros, tacófragos, e os instrumentos de detecção da emissão dos gases veiculares se justifica pela abrangência de suas aplicações difusas na proteção do meio ambiente, na saúde, e na segurança social [2], atividades próprias da Metrologia Legal.

Saúde

Especificamente na área de saúde alguns materiais, equipamentos e instrumentos como as seringas médicas, os termômetros clínicos, eletro-encefalógrafos, esfigmomanômetros têm sido submetidos às verificações metrológicas de modo a oferecer a confiabilidade necessária dos resultados de medição e ao emprego correto.

Instrumentos

Outros instrumentos têm seus controles metrológicos de acordo com a necessidade em áreas distintas de atuação como laboratorial ou industrial, nos campos da química ou farmacêutica, como no caso das vidrarias aferidas, dos padrões volumétricos e de massa, de soluções e substâncias de referência, medidores de Ph, barômetros, espectrômetros de absorção atômica, refratômetros, dentre outros.

Medidas

Inúmeras medidas são obtidas dinamicamente com instrumentos diversos nos diferentes setores da economia, com objetivos distintos tais como o controle gravimétrico dos veículos rodoviários ou ferroviários com as básculas automáticas, o abastecimento e distribuição de produtos líquidos com os sistemas de medidores padrões volumétricos de líquidos, os hidrômetros. As medições contínuas de SO2 em emissões de fontes estacionarias, assim como as variações de temperaturas e pressões continuamente supervisionadas nos processos de produção industrial também são ações consideradas como da Metrologia Legal.

Metrologia da sobrevivência

O tripé da sustentabilidade, isto é da nossa expectativa de sobrevivência, se baseia nas estimativas sobre escassez de água, de alimentos, e de energia e que atualmente colocam em risco os parâmetros de sustentabilidade e cada vez mais se torna importante que os controles sejam oriundos de uma metrologia de sobrevivência[3], aplicada, prática, constante, confiável e oficial.  Previsões indicam metade da população mundial em breve terá dificuldades ao acesso de água potável devido ao desperdício, ao descaso e a contaminação resultando na escassez com base nas reservas de água doce (2,5%) do total concentrada em lagos, rios, aquíferos subterrâneos e nas áreas glaciais. Aliada a essa expectativa negativa a produção de energia (aquecimento, iluminação, abastecimento), e a fabricação dos bens materiais, alimentos, e a agricultura necessitam de quantidades crescentes de água [4]. Gestões na redução de custos operacionais (tratamento, distribuição e abastecimento) exigem eficiência para equilibrar o consumo racional e evitar a captação desnecessária de águas na natureza.

A medição é a ferramenta chave para o gerenciamento capaz de proporcionar o controle de perdas e do consumo de água com base em resultados confiáveis, de instrumentos (hidrômetros) verificados, instalados corretamente, dentro das tolerâncias estudadas e estabelecidas. O mercado de gêneros alimentícios depende da quantificação na produção e na avaliação as políticas agrícolas, os objetivos propostos, identificação das perdas e definição dos elementos de controle na correção das etapas da produção de grãos [5]. Um processo envolvendo pesagens com as balanças simples, automáticas, de plataforma, básculas, correias transportadoras, elevadores, utilizadas nas fazendas, cerealistas, silos, armazenagem, indústrias de beneficiamento, nas rodovias, ferrovias, portos, alfândegas, entrepostos, acondicionadores, misturadoras, incluindo produtores de ração animal, de alimentos a base de grãos deve ser implementado.

Essas atividades por vezes e aleatoriamente vêm sendo realizadas pela Metrologia Legal embora devessem pertencer a um programa oficial sugerindo o uso adequado dos instrumentos, equipamentos, sistemas de medição, garantindo a qualidade e a confiabilidade dos processos agrícolas em toda cadeia de produção, o que refletirá no estabelecimento dos preços justos das mercadorias. A captação de energia no mundo se resume ao petróleo, o carvão mineral e o gás natural e a matriz energética se caracteriza pelos combustíveis fósseis, a energia nuclear e a energia hidrelétrica. Todas não renováveis e poluidoras, e dependentes de grande quantidade de água para a produção, que de outro modo sua manutenção exige um maior consumo de energia.

A exploração desordenada desses recursos, a pesquisa insipiente sobre as energias limpas e renováveis mais as demandas mundiais cobrando um nível menor de emissões de poluentes (CO2), aumenta as preocupações quanto à escassez, e, por conseguinte a necessidade do controle quantitativo efetivo sobre a produção e o consumo e na continuidade do equilíbrio sustentável por meio de medidores de energia (wattímetros) calibrados e verificados de acordo com os padrões metrológicos de laboratório. [6] Assim, a metrologia é única, a mesma ciência da medição, apesar de a literatura estabelecer diferenciações [7] entre as categorias metrológicas em função da sua estruturação, divisão de tarefas, ou das atribuições quanto à precisão ou nível de hierarquização dos padrões empregados (rastreabilidade), ou mesmo pelo tipo de atividade desempenhada, seja em laboratórios, no comércio e ou na indústria, designando-as de científica, legal e industrial.

Dos diversos ramos da metrologia cada qual com seus objetivos voltados para sustentabilidade, sendo alguns mais específicos como o desenvolvimento tecnológico e econômico, outros, industriais e relacionados aos recursos naturais, ou ao progresso cientifico. Dentre todos os que mais se assemelham às necessidades do ser humano, sua maneira de agir e de se relacionar com um mundo sustentável são os que caracterizam a Metrologia Legal.

Ela permite assegurar em serviço, medidas justas e precisas para determinados instrumentos de medição utilizados em atividades como as transações comerciais e na aplicação das regulamentações técnicas, definindo as exigências que devem ser satisfeitas.  Seu controle quando voltado para a fabricação de produtos se desenvolve desde a produção, até a utilização dos mesmos. Ainda conta com a participação de diversos organismos credenciados, que em nome do poder público e de acordo com a legislação, tem como objetivo garantir a qualidade. Seu amplo campo de aplicação engloba as medidas nos mais diversos setores da economia, e sendo amparada legalmente ela é capaz de subsidiar as políticas públicas de interesse social, e ambiental.

A sustentabilidade necessita da imparcialidade no reconhecimento dos direitos individuais e da equivalência de modo a proporcionar condições de equilíbrio das relações. Isto significa que depende de normas que assegurem a convivência pacífica e o bem estar dos indivíduos. Do mesmo modo, a Metrologia Legal em sua atuação baseia-se em regras que constituem direitos e obrigações dos indivíduos. Elas permitem regular as condutas e os valores sociais da sociedade (justiça, confiabilidade, tradição) zelando pelos comportamentos e ações dos indivíduos de acordo com princípios definidos e moralmente aceitos, garantindo assim a harmonia, a convivência e a sobrevivência destes e o entorno. Portanto, por constituição, definição e conceituação, as ações da Metrologia Legal permitem naquilo que lhe é próprio, como as medições, os meios necessários para a sustentabilidade e a conservação do planeta, sendo aquela que representa a metrologia da sobrevivência necessária à harmonia dos povos.

Referência

[1] Luneau,G; Virga J., « Impact de la reduction de vitesse sur la polluition par l’ozone » http://www.atmopaca.org/files/et/101025_AtmoPACA_Impact_reduction_vitesse_ozone.pdf

[2] West, L.; “Keeping Your Tires Inflated Could Help Save the Planet, and Your Life”, in http://environment.about.com/od/greenlivingdesign/a/tire_pressure.htm

[3] Pinto, L. F. M.; Barbato, A. R., “Metrologia Social”, Anais – VI Congresso Brasileiro de Metrologia, Natal – RGN, setembro (2011)

[4] Hoekstra A. Y., Chapagain A. K.; “Water footprints of nations: Water use by people as a function of their consumption pattern”; Springer Science Business Media B.V. (2006), in http://www.waterfootprint.org

[5] Pinto, L. F. M.; Barbato, A. R.; “Metrologia dos Grãos”, Revista Metrologia e Instrumentação , BQ 244, p. 87-94, set (2012); disponível em http://www.banasmetrologia.com.br.

[6] ORGANISATION INTERNATIONALE DE MÉTROLOGIE LÉGALE, « Planification de laboratoires de métrologie et d’essais », OIML P. 7. Edition 1989 (E).

[7] CONMETRO – COMITÊ BRASILEIRO DE METROLOGIA – CBM- “Diretrizes Estratégicas para a Metrologia Brasileira (2008 – 2012) in http://www.inmetro.gov.br

Luiz Fernando Mirault Pinto é pesquisador de metrologia e qualidade do Inmetro – lufer.mirault@gmail.com

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