A ressurreição do Volume Morto na Quaresma

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Rubem Porto e Marco Palermo

O Sistema Cantareira, o maior dos sistemas produtores de água para abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, está em crise. Capaz de armazenar 978 milhões de metros cúbicos para regularizar o regime dos rios que o constituem e responsável pelo abastecimento de cerca de nove milhões de pessoas, o Cantareira encontra-se hoje com, aproximadamente, 10% de sua capacidade útil (98 milhões de metros cúbicos). Segundo os órgãos gestores de recursos hídricos da União e do Estado, o armazenamento deveria ser cerca de 60% (590 milhões de metros cúbicos).

Inúmeras razões são apontadas no meio técnico e na mídia para a ocorrência da situação. A mídia está exercendo importante papel ao manter o assunto em evidência; técnicos e especialistas utilizam dados e conhecimentos especializados para dar respostas a uma série de questões com vistas à superação da crise; e aprimoramento de políticas de operação, critérios de planejamento e planos de contingência; órgãos responsáveis trabalham para administrar a crise de forma a minimizar os prejuízos para a sociedade.

Entretanto, algumas das análises e opiniões tratam o problema de forma parcial, baseando-se em informações incorretas ou não comprovadas cientificamente. A confusão começa com o conceito de que atribuiu erroneamente ao termo “Volume Morto”. Na verdade, este termo significa, simplesmente, um volume que não é utilizado durante a operação do reservatório em condições normais. Dependendo de fatores como as finalidades do reservatório, sua topografia e o arranjo de suas estruturas, o Volume Morto pode ficar em cotas elevadas, até mesmo nas proximidades do topo da barragem. Não existe nenhuma relação entre este termo técnico e coisa “morta”, “podre” ou de “má qualidade”. Termos mais apropriados para definir este armazenamento seriam “volume inativo”, “reserva técnica”, “reserva de contingência” e outros assemelhados.

A utilização de volumes inativos constituem estratégias usuais para a administração de crises. No Ceará, a medida socorreu o sistema que abastece a Região Metropolitana de Fortaleza, que passava por crise semelhante à de São Paulo.

No caso do Sistema Cantareira, os Volumes Mortos nos Reservatórios de Jaguari-Jacareí, Cachoeira e Atibainha situam-se em cotas altas (cerca de 26 m acima do fundo: correspondente a um edifício de 8 andares) e não existem razões técnicas ou ambientais que impeçam seus aproveitamentos. O bombeamento nos reservatórios totalizará cerca de 200 milhões de m³, o que corresponde a aproximadamente 22,5% do volume útil e garantirá sobrevida importante ao Sistema.

Por essas razões, algumas informações divulgadas na mídia merecem ser esclarecidas sobre as consequências da utilização do volume morto. São elas: i) após o bombeamento do volume morto ainda restarão cerca de 200 milhões de metros cúbicos nos reservatórios; ii) não há risco do bombeamento revolver sedimentos, as profundidades são muito grandes e as bombas, flutuantes, estarão captando água em local distante da superfície do reservatório; iii) lagos, como os do Sistema Cantareira, recirculam verticalmente e carregam oxigênio das camadas superficiais para as mais profundas; iv) há mais de 40 anos a qualidade das águas das bacias dos rios Atibaia, Jaguari e Piracicaba é monitorada pela Cetesb, desde a década de 70 (http://www.cetesb.sp.gov.br/agua/aguas-superficiais/35-publicacoes-/-relatorios), e nunca foram apontados problemas causados pelas descargas imediatamente a jusante das obras; e v) as reservas do Cantareira são de aproximadamente 10%, o bombeamento as elevará a aproximadamente 33% (322 hm³).

Tal reserva deverá ser suficiente para garantir o abastecimento até a próxima estação chuvosa desde que as medidas de gestão de demanda tenham continuidade e, em caso de necessidade, sejam aprofundadas. A utilização do Volume Morto é necessária porque é a única medida capaz de aportar tal quantidade de água, a curto prazo. Entretanto, não é medida a que se possa recorrer com frequência e uma vez superada a crise é essencial que as instituições do setor revisem suas estratégias para enfrentar estiagens futuras, semelhantes à que vivemos hoje.

Nos tempos de Quaresma precisamos refletir sobre nossas ações passadas e nossas atitudes com relação ao futuro. A ressurreição do Volume Morto foi necessária, mas não pode ser renovada a cada ano, a exemplo do que ocorre na fé cristã.

Rubem L. Porto é professor da Escola Politécnica da USP; e Marco Palermo é doutor em engenharia de recursos hídricos pela Escola Politécnica da USP.

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