Camarão à provençal e responsabilidade social

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Rubens Mazzali

Digamos que você tradicionalmente almoça com dois velhos amigos e que, para não haver discussão na hora da conta foi acertado que sempre as despesas serão divididas igualmente entre os três. Provavelmente o terço que lhe cabe equivale ao que cada um pagaria pelo próprio consumo. Não seria óbvio se não houvesse um acordo implícito pela manutenção da amizade.

Explico: como você deseja manter uma relação de confiança com seus amigos, acaba por sempre escolher pratos e bebidas de valor semelhante aos que eles pedem. Isso ocorre porque se depois que dois dos amigos pediram um spaghetti ao sugo e duas águas o terceiro pede camarões à provençal e um vinho branco francês, ele será considerado não confiável e, provavelmente, perderá pontos com os demais.

Quer ver a coisa mudar? Você está em um congresso com mais de 99 pessoas estranhas. Todos resolvem jantar em confraternização combinando que cada um pode pedir o que bem entender e que a conta também será dividida entre todos. Você pensa em pedir um prato barato e uma água mineral, mas rapidamente percebe que independente do que pedir vai pagar só um centésimo da conta. Concluirá que o custo marginal para os demais vai ser mínimo e que muito provavelmente ninguém notará a sua extravagância ou deselegância (ou seria elegância?). O seu pedido: “Garçom, o melhor vinho e Camarão à Provençal, por favor!”.

O cômico é que você, seguramente, não será o único esperto no grupo de 100 pessoas. Como neste caso são todos estranhos e a relação de amizade não existe ou, pelo menos não tem nenhuma sombra de futuro, a maioria pensa como você e também pede pratos e bebidas mais caros. O resultado é um só: o grupo gasta muito mais do que teria gasto se cada um pagasse individualmente pelo que consumisse.

Outro exemplo? Você possivelmente tenha algum amigo que frequente compulsivamente consultórios médicos. Seu amigo pode ser hipocondríaco, mas há uma grande chance de ele apenas querer tirar o máximo de vantagem do plano de saúde dele. Como ele paga um valor fixo mensal pelo plano, opta por fazer exames desnecessários e consultas adicionais só para ter uma melhor relação custo-benefício.

Com tal atitude ele crê que está tendo uma vantagem e não percebe que causa um dano coletivo. Em outras palavras, como ele não será o único a ter esse tipo de atitude, a busca por tal vantagem individual levará o administrador do plano a reajustar o prêmio promovendo o aumento do custo para todos.

Cabe transpormos esse tipo de atitude, inerente à espécie humana, para a área ambiental. Os carros produzidos no Brasil saem das montadoras atendendo aos dispositivos legais ambientais que, dentre outras exigências, determinam a necessidade dos sistemas de escape dos automóveis possuírem catalisadores para redução das emissões de gases poluentes. O consumidor adquire o automóvel com esse equipamento e com o transcorrer do tempo de uso o desgaste do escapamento exige sua troca.

Se o veículo for levado a uma concessionária terá o catalizador substituído de acordo com as normas técnicas. Entretanto, se o proprietário do veículo estiver em uma fase de contenção de despesas, provavelmente procurará um mecânico alternativo para a troca do escapamento e catalisador que, seguramente, fará o seguinte questionamento ao cliente: “O doutor vai querer o escapamento com catalisador ou o oco (sem o elemento catalisador)?” A proposta, no mínimo ambientalmente irresponsável, é tentadora ao consumidor pois oferece um vantagem individual de curto prazo ao consumidor e um passivo ambiental de longo prazo à sociedade.

Essa é a chamada Tragédia dos Comuns, extraída da Teoria dos Jogos que há décadas vem merecendo a atenção de cientistas, entre eles o ganhador do Nobel de Economia John Nash (cuja biografia foi retratada no filme “A Beautiful Mind”). O que ocorreria no jantar hipotético, com o plano de saúde ou mesmo com o catalisador veicular vem ocorrendo diariamente no planeta, nas empresas, nos governos e seus órgãos, nas comunidades. Interesses individuais estão levando a sociedade a uma sequência de tragédias de “comuns”.

Esse comportamento observado nas pessoas acaba sendo reproduzido nas empresas em seus relacionamentos corporativos e institucionais. Decisões acabam sendo tomadas com base em benefícios ou resultados de curto prazo e causam verdadeiros estragos nas estratégias de longo prazo. A competição empresarial também direciona as organizações para ações individualistas, havendo baixo grau de interlocução setorial e tragédias dos comuns se reproduzem.

A sustentabilidade dos negócios depende da perenidade das relações da empresa com seus stakeholders (partes interessadas ou públicos de relacionamento: colaboradores, clientes e consumidores, fornecedores, acionistas, comunidade, Estado e meio-ambiente). Gerir de modo ético as relações com esses públicos é zelar pela reputação, pelo valor da marca, é ampliar a sombra de futuro nas relações e, por consequência, a perenidade da empresa.

Nas empresas, nas instituições, na comunidade e até mesmo nos governos, devemos buscar soluções que visem resultados para todos os públicos com os quais nos relacionamos. Resultados para a sociedade ao invés de resultados para o indivíduo. É responsável aquele que responde. É socialmente responsável quem responde à sociedade. Quem responde à sociedade responde aos nossos filhos, responde aos nossos netos, responde ao futuro. Ao nosso futuro.

Rubens Mazzali é consultor do Instituto MVC e professor da FGV nas disciplinas: governança corporativa, pensamento sistêmico, processo decisório e sustentabilidade corporativa.

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