O combate a incêndios em transformadores

transformadoresMaria do Carmo Ribas de Camargo e Patricia Gonçalves Bueno

Todo incêndio representa uma ameaça real à vida das pessoas, trazendo graves consequências de ordem social e econômica, além de afetar o bem estar dos integrantes de uma instalação. Durante os primeiros cinco minutos, os incêndios podem ser dominados mais facilmente.

Com o passar do tempo, entretanto, maiores esforços, e recursos, são necessários para o controle e extinção do fogo. Nesse caso, além dos danos causados pelo fogo, o próprio trabalho de extinção pode causar perdas, ou danos às instalações, aos equipamentos, ferimentos, assim como a perda de vidas.

Mas, como é tratada a legislação da segurança contra incêndio no país? A primeira regulamentação sobre segurança contra incêndio surgiu no Brasil em meados de 1975, após a ocorrência dos incêndios dos edifícios Joelma e Andraus, em São Paulo. A ausência de uma legislação federal que estabeleça as regras de prevenção e proteção contra incêndio é apontada como o principal problema no país. As leis são estaduais e, por isso, cada governo estabelece uma lei com base em normas locais ou estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) ou mesmo pela Consolidação das Leis de Trabalho (CLT).

A partir da lei N° 6.514 de 1977 foram criadas as Normas Regulamentadoras (NRs), a qual alterou o Capítulo V, Título II, da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), relativas à Segurança e Medicina do Trabalho. As Normas Regulamentadoras (NRs) exigem que o local de trabalho seja seguro ao trabalhador. Os requisitos para proteção contra incêndio são especificados na NR 23, na qual traz que as medidas de prevenção contra incêndio devem estar em conformidade com a legislação estadual e as normas técnicas aplicáveis. As regulamentações estaduais de segurança contra incêndio são elaboradas pelos corpos de bombeiros e seus conteúdos são diferentes nos diversos Estados da União e Distrito Federal.

Nos últimos anos houve um aumento do número de incêndios envolvendo transformadores, seja por projetos incorretos como por uma manutenção deficiente. Normalmente, o óleo usado nos transformadores de subestações possui um alto ponto de fulgor e por esta razão é classificado como não inflamável. Porém, quando usado em equipamentos elétricos seja para remover o calor resultante das perdas ou como dielétricos entre os componentes ativos condutores de corrente, este óleo adquire qualidades de produtos inflamáveis e apresenta alto potencial para geração de vapor.

Três componentes devem existir ao mesmo tempo para causar um incêndio em um transformador: combustível/inflamável, oxigênio e calor. Possíveis materiais combustíveis usualmente presentes no transformador são óleo mineral, cabos e materiais celulósicos. Vapores combustíveis são gerados pela decomposição do óleo devido a uma sobrecarga térmica de origem interna ou externa. Para os transformadores localizados no pátio da subestação é óbvio que o suprimento de oxigênio é abundante. Como possíveis fontes externas de calor, isto é, fonte de ignição, temos a considerar cabos superaquecidos, raios, e exposição ao fogo, possivelmente de um incêndio em transformador adjacente ou em outro equipamento.

Como então podemos realizar a proteção contra incêndio em transformadores? Uma das maneiras de se combater o incêndio nos transformadores é resfriando o equipamento com água nebulizada, que pode ser através de sistema de spray ou por linhas manuais, através de hidrantes. Para que o resfriamento possa ser realizado é necessário que a subestação seja desenergizada ou, no mínimo, o equipamento que esteja pegando fogo antes do início do combate manual, devido ao perigo de eletrocussão do brigadista. Segundo a IEEE-979, a tabela 1 mostra o perigo de o brigadista ficar muito próximo do equipamento energizado durante a extinção do incêndio.

Tabela 1 – Retorno da corrente através da mangueira

tabela 1_transformadores

Caso não seja possível desenergizar o transformador, deverá ser utilizado o sistema de spray nebulizador. Os principais objetivos de atuação do sistema de spray são: emulsionar o óleo derramado no tampo superior e nas paredes laterais do transformador, evitando a incandescência do mesmo; resfriar a superfície total do transformador; e combate o fogo gerado pelo óleo derramado.

No Brasil este sistema é normalizado pela NBR 8674 que trata da execução de sistemas fixos automáticos contra incêndio com água nebulizada para transformadores e reatores de potência. O sistema de spray controla o fogo e o impacto é minimizado, podendo realizar o reparo do transformador após seu combate. Os transformadores que não possuem este sistema de proteção não podem ser reparados, tendo perda total dos equipamentos.

Por outro lado, a natureza violenta de um incêndio pode tornar o sistema de spray inútil. Segundo Bandeira, embora isto possa ocorrer, em alguns casos o sistema automático consegue operar mesmo após a explosão, controlando do incêndio, limitando os danos e minimizando o tempo de parada da subestação.

Mas, instalar um sistema de spray é um requisito legal ou uma recomendação? Como falado anteriormente, as regulamentações estaduais são diferentes nos diversos Estados da União e Distrito Federal. A tabela 2 apresenta os requisitos encontrados nos Decretos Estaduais do Corpo de Bombeiros.

Tabela 2 – Decretos Estaduais do Corpo de Bombeiros

tabela 2_transformadores

As normas NBR 13231 e 13859, que tratam especificamente de proteção contra incêndio em subestações elétricas, não deixam claro quando se deve instalar sistema fixo de nebulização. Segundo o Data Sheet 5-4 – Transformers, da FM Global, somente é obrigatório a instalação deste sistema quando não for possível atender as distâncias mínimas entre transformadores e reatores a edificações.

Como pode ser observado, não há exigência sobre a instalação de sistema automático de nebulização, exceto para o estado de São Paulo. Deve-se levar em conta também os requisitos da Seguradora para definir o custo x benefício de investir no sistema de proteção contra incêndio.

A prevenção contra incêndio deve ser encarada como um processo ininterrupto e, por isso, necessita ser mantida em permanente modernização, tanto de equipamentos como métodos por todos que fazem parte do processo preventivo. Este artigo não tem a pretensão de esgotar o tema, mas busca fomentar a discussão nas diversas partes interessadas no assunto.

Referências

– NBR 8674:2005 – Execução de sistemas fixos automáticos de proteção contra incêndio, com água nebulizada para transformadores e reatores de potência.

– Bandeira, Daniel Amarante Torres – Um estudo explanatório de causas e consequências de incêndios em transformadores em subestações. 2007.

– FM Global – Property Loss Prevention Data Sheets 5-4 – Transformers

– IEEE-979:1994 – Guide for subestation fire protection – Institute of Electrical and Eletronics Engineers.

Maria do Carmo Ribas de Camargo é engenheira química, com especialização em engenharia de segurança do trabalho e mestre em gestão integrada em saúde do trabalho e meio ambiente, docente em curso de pós graduação em gestão integrada no Senac – mcrcamargo@gmail.com; Patricia Gonçalves Bueno é engenheira de segurança do trabalho, mestre em gestão integrada em saúde do trabalho e meio ambiente, docente em cursos de MBA e Especialização nas áreas de qualidade, meio ambiente, sustentabilidade, responsabilidade social, saúde e segurança do trabalho em instituições de ensino superior (UniFMU, Faculdades Oswaldo Cruz, UNG, Centro Universitário SENAC e Uninove) – patriciaengenharia@hotmail.com

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A importância cultural, histórica, social e econômica do futebol

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Jamil Albuquerque

Entre as coisas menos importantes do mundo, o futebol é a mais importante. É mais do que um esporte, é um dos maiores fenômenos sociais do planeta. Trata-se de um amálgama pancultural, social e econômico. A paixão pelos clubes frequentemente supera, em alguns casos, até mesmo a devoção religiosa, e a adoração do público em relação a alguns jogadores pode até mesmo parar guerras.

Foi o que aconteceu em 1969, ano em que o homem foi à Lua. O Santos, time do “Rei” Pelé, tinha ido à República Democrática do Congo para disputar quatro amistosos locais. Mas, logo no desembarque, uma surpresa: as ruas do país estavam tomadas por tanques e rebeldes e conflito armado. Os jogos foram imediatamente suspensos. Aí vem a parte, no mínimo, curiosa: o governo e a população, chateados por não poderem mais ver o “Rei” em campo, acabaram entrando em um acordo, e os conflitos foram suspensos para que se realizassem as partidas.

Mesmo numa época em que ainda não havia informação circulando em velocidade, como hoje, Pelé já era um mito, e em toda parte do mundo, as pessoas paravam para ver seu futebol mágico. Por alguns dias não se ouviram tiros, e os únicos gritos foram de comemoração aos gols de Pelé, Zito, Pepe e outros craques santistas. Assim que o avião partiu de volta para o Brasil, o clima de guerra voltou ao Congo. Os conflitos permaneceram por mais de três anos, até o final de 1972, quando assumiu um governo democrático provisório.

O futebol também está imensamente inserido na vida cultural do mundo, como se vê pela frequência com que é usado em propaganda na televisão. Há inclusive uma propaganda brasileira de 2012 que foi muito comentada na época. Nela, um torcedor aparece fazendo uma tatuagem como se fosse a camisa de seu time. Na cena seguinte, aparece outro torcedor em seu casamento na igreja, ao lado de sua linda noiva vestida de branco, com a camisa de seu time por cima do terno. Já na outra cena, aparece um torcedor abraçando e beijando uma TV depois de um gol de seu time. E tudo isso com a trilha sonora da música Balada do louco, dos Mutantes, cuja letra diz: “dizem que sou louco por pensar assim […], mas louco é quem me diz que não é feliz. Eu sou feliz!”.

Isso demonstra claramente a paixão que o futebol desperta nas pessoas no mundo inteiro, em especial no Brasil. Mas de onde surgiu essa paixão?

Tudo começou na Inglaterra, por volta do século 18. Nessa época, havia um ditado que dizia: “o sol nunca se põe sobre o Reino Unido”. Quando lá era noite, era dia em algum outro país do planeta em que o Reino Unido mandava. Tamanha era a força, a pujança e o vigor desse grande império.

No início da era industrial, já no século 19, a Inglaterra começava a desenvolver seu sistema de produção, e precisava de mecanismos que desenvolvessem naturalmente a disciplina naqueles que deixavam de ser artesãos autônomos e agricultores e tornavam-se operários com contratos de trabalho.

O futebol foi perfeito para aquele momento. Era divertido, tinha regras e metas claramente definidas, tempo determinado, limitação de espaços, forçava os jogadores a produzir dentro de um quadrado, estabelecia a competição que estimulava o crescimento e era orientado para resultados.

A Inglaterra se beneficiou tremendamente do futebol como esporte para construir-se como a primeira potência industrial do planeta. Praticamente todas as empresas inglesas tinham um “campinho” nos fundos de suas fábricas para que as pessoas, durante os intervalos, fossem se divertir. Era lazer e treinamento, permitia que todos extravasassem as tensões e, ao mesmo tempo, treinava a mente para o trabalho em equipe, para saber ganhar, perder e vibrar com as conquistas do grupo.

Em suma, os governantes ingleses usaram o futebol para fazer treinamento em massa, de grandes contingentes, de sua mão de obra nacional. Ou seja, o futebol ajudou a construir uma das maiores potências do planeta e consolidar a maior casa de pólvora do mundo, que é a casa dos Windsor, ou Dinastia Windsor.

Com o tempo, o futebol foi “exportado” a muitos outros países, em especial ao Brasil, como sabemos, e começou a agradar as pessoas do mundo todo. Por que o futebol agrada tanto? Porque é o mundo dos adultos com a marca do mundo das crianças. É uma ótima parte dos dois mundos. Tiramos “sarro” dos amigos, xingamos, extravasamos, voltamos a ser crianças. Descontamos nossas frustrações no futebol. E isso é muito bom! São guerras controladas.

Os gregos foram os primeiros a sacar que o esporte é como uma praça de guerra controlada. Talvez por isso o futebol seja tão estimulante para os seres humanos, liberando nosso lado mais primata, mais instintivo e mais competitivo.

Jamil Albuquerque nasceu em Monte Carlo, em Santa Catarina. É economista e instrutor MASTER MIND, escreveu também os livros “A Arte de Lidar com Pessoas”, co-autor de “A Lei do Triunfo para o Século 21”, “Líder com Mente de Mestre” e “Vivendo e aprendendo a jogar”.