Depressão sem censura

CURSO TÉCNICO DISPONÍVEL PELA INTERNET

A Manutenção Autônoma – Disponível pela Internet – Ministrado em 11/10/2013

Como conscientizar e habilitar o operador a cuidar adequadamente do equipamento.

Eunice Mendes

Durante muito tempo, para mim esse foi um “peso” que não teve forma, cor, cheiro e sequer nome. Era difícil identificar, apreender o que de fato sentia e não ia bem. Era um não sei quê, que nascia não sei de onde, vinha não sei como e doía não sei por que, mas não era amor, como nos versos de Camões. Pelo contrário. Tinha a ver com aquilo que a psicanálise identifica como seu oposto: a morte.

Hoje, os cientistas reconhecem o problema como uma doença, caracterizada por um conjunto de sintomas devidamente catalogados e à qual chamam de depressão, uma palavra que também caiu no léxico popular e está na boca de todo mundo. O mal do século, o terror da vida produtiva, a suspeita constante que alimentamos a cada vez que um parente ou alguém conhecido, sem maiores explicações ou por algum trauma sofrido repentinamente, é tomado por uma tristeza tão profunda que o transforma em uma sombra de si mesmo. Sim, eu tenho depressão…

Considerada o mal do século XXI, a depressão é uma das doenças que mais desafia a compreensão humana nos dias atuais. Seus sintomas são diversos e, apesar das diferenças de prevalência, atingem todos os grupos sociais, independentemente de cor, raça, idade, sexo, renda e nível de escolaridade, o que a torna um problema de saúde pública de proporções globais.

Dados da Organização Mundial da Saúde – OMS indicam que há mais de 350 milhões de casos de depressão no mundo, 13 milhões deles no Brasil, que já apareceu no topo do ranking mundial de registros da doença entre os países em desenvolvimento. O número de pessoas deprimidas é bem superior, por exemplo, ao dos portadores de HIV, e essa situação já figura entre as principais causas de incapacidade no trabalho – atualmente em quarto lugar e deverá subir para a segunda posição até o início da década de 2020. Contudo, a grande maioria dos doentes, cerca de 75%, sequer recebe tratamento adequado.

Pelos cálculos da OMS, 12% dos períodos improdutivos da vida das pessoas em todo o mundo são consequência direta da depressão, e até 2020 ela será responsável por cerca de 30% da chamada Carga Global de Doenças – CGD. Segundo a OMS, a depressão é responsável por cerca de 850 mil casos de suicídio todos os anos[3], o que equivale a mais de 2. 300 mortes por dia e 38 a cada hora.

No meu caso, acredito que tive depressão a vida inteira, mas ela apareceu com toda força aos 27 anos, logo após a morte de meu pai, vítima de um acidente de carro. A dificuldade de lidar com o ocorrido colocou-me como mais um dígito nas estatísticas que referem ser a perda de entes queridos uma das principais causas da doença. Mas vivenciar esse momento com toda a carga de sofrimento que ele impõe não foi tão simples e asséptico assim. Que me perdoem os matemáticos, mas ainda não foi inventado um número capaz de traduzir a equação da vida. Alguém já disse que essa é uma conta que não fecha.

Foi um golpe muito duro deixar de conviver com a pessoa que me deu a vida. Não me refiro à biológica, mas aquela que construí guiada por sua doce regência. Esse era meu pai. Um verdadeiro maestro do bem viver. Durante os seis meses que se seguiram a essa perda, andava pelas ruas sem rumo, com vontade de me atirar na frente dos carros, sofrendo pela ausência de meu pai. Como é a morte? Terá ele sofrido? Encontrou-se com Deus?

Nada fazia sentido, e isso provocava em mim uma ansiedade constante. Repassava obsessivamente tudo o que vivera e me transformei numa caçadora impiedosa dos meus erros. Não demorou e comecei a ter insônia. Quando dormia, tinha pesadelos horríveis.

Minha mente era o maior dos algozes, como se precisasse ser punida a qualquer preço. Um profundo sentimento de culpa começou a tomar conta de mim, acompanhado de pensamentos recorrentes, obsessivos, exagerados. Parecia uma gravação defeituosa que voltava sempre ao mesmo lugar: “Por que não salvei meu pai?”. Eu me sentia devedora de uma dívida impagável.

A depressão estava comigo, viva, mostrando seus dentes de chumbo. E eu paralisada, morrendo de medo, sem ânimo para fazer absolutamente nada. Nunca me senti tão só na vida, insegura, fragilizada… A minha vida parecia menos que nada; o vazio me abraçava sem dó. Eu só queria dormir e morrer. Acordar era uma violência.

Com o tempo, meus dias foram tomados pela sensação extrema de impotência e profunda apatia. Queria ficar isolada do mundo e só tinha olhos para minha dor. Era como se minha alma tivesse me abandonado. Não queria dar explicações a ninguém, pois sentia que não seria compreendida. Quando o melhor lugar para se viver é em cima de uma cama durante as 24 horas do dia, algo está muito errado.

Na verdade, meus sentimentos eram antagônicos. Eu me isolei, não queria que ninguém me procurasse, mas, ao mesmo tempo, sentia falta da atenção dos amigos e, principalmente, da certeza de que alguém se preocupava comigo. Não precisavam dizer nada, apenas ficar perto de mim. Quem sabe trazer uma sopa quentinha, chocolates, conversar sobre banalidades… Bastava estarem ali, como anjos-da-guarda.

Por sorte, tenho amigos e familiares amorosos e atentos. Foi o amor e a compaixão deles que me salvaram da morte. Principalmente à noite, nos intermináveis fins de semana, eles chegavam e cumpriam um ritual: abriam as janelas, limpavam a casa, trocavam os lençóis, acendiam incensos, cozinhavam, traziam frutas frescas, cantavam, faziam massagem em mim e me contavam as novidades. Eram relatos descontraídos que abrangiam desde o tradicional papo de elevador, como a situação do tempo lá fora, até planos e projetos pessoais. Isso tornava meu dia mais leve.

Havia, porém, aquelas pessoas que queriam dar conselhos fora de hora, sem observar que eu estava doente e não tinha condições de ouvir nada, muito menos reprimendas. Desfiavam um rosário de frases feitas sem a menor cerimônia: “Você precisa ter força de vontade”; “Isso é frescura”; “Isso é falta do que fazer”; “Saia mais de casa”; “Isso é só carência afetiva”; “Você não tem motivos para se sentir assim”; “Cadê aquela mulher guerreira?”.

Não sabia nem mesmo quem eu era, quanto mais onde estava minha porção guerreira! Sentia como se minha vontade de viver tivesse mudado de casa e não houvesse nada para pôr em seu lugar. Não sabia o que tinha nem o que fazer, mas percebia nitidamente e sentia na pele a ignorância, a falta de empatia e o preconceito social dirigidos a quem, por algum motivo, não responde às demandas do mundo à sua volta.

Em alguns momentos isso é tão revoltante que até dá vontade de sair na rua portando um cartaz imenso com a frase: Depressão é doença. Ela existe e é uma ameaça à vida!

Pacientes com transtorno mental necessitam de paciência, empatia e compreensão das pessoas próximas, caso contrário, além da doença, precisarão carregar a frustração de não conseguir satisfazer as expectativas de quem acha que é tudo uma questão de boa vontade. E não é. O deprimido não é covarde; ele está doente.

Foram três anos de suplício sem nenhum tipo de ajuda psiquiátrica. Eu acreditava que poderia dar conta do problema sozinha, o que é um grande equívoco. Meu diagnóstico foi preciso: depressão unipolar severa, ou seja, o último grau da doença e, além de tudo, crônica. Isso significa que terei de lutar contra a depressão e tomar remédio pelo resto da vida. Quando recebi a confirmação, foi como ter a pele marcada com ferro em brasa e passar a lidar com algo que não pode ser apagado, uma espécie de sina ou sentença perpétua.

Encontrar a medicação correta, por sua vez, foi uma verdadeira Via Crucis. Entrava e saía de consultas, mas os remédios me faziam muito mal. Provocavam efeitos colaterais desagradáveis, como sonolência, boca seca, tonturas, obesidade e um desânimo atroz. Alguns acentuavam os sintomas da depressão e pensamentos suicidas. Não obstante, minha vontade de extinguir aquele incêndio era tão forte que prometi a mim mesma não desistir. Foi essa promessa que me deu forças para não desabar e seguir em frente.

É muito importante deixar claro que a culpa não é dos especialistas. Em geral leva-se algum tempo até definir o tratamento correto. Daí a importância de persistir na busca de uma solução.

Passei por vários estágios em relação à doença. O primeiro sentimento foi de incredulidade e espanto. O segundo a emergir foi a negação: “Não tenho nada”. Depois, a agressividade e a raiva: “Por que eu?”, “O que fiz para merecer isso?”, “Por que estou sendo punida?”. Nessa fase de revolta, o olhar fica todo voltado para dentro, regido por sentimento profundamente egoico.

Após mais algum tempo, iniciou-se o processo de aceitação, resultando em mudança no ponto de vista da pergunta desoladora: “Por que não eu?”, “O que isso que está acontecendo quer me mostrar?”, “Qual o sentido da depressão em minha vida?”, “O que necessito aprender?”, “Que lastro de humanidade preciso resgatar?”.

Então, manifestou-se o desejo de continuar viva: “Vou mais é procurar me tratar, mesmo que isso demande muito tempo”, “Só eu posso fazer isso por mim”, “Essa vontade é a única chance que tenho de sobreviver”.

Prossegui com minhas buscas até que uma psiquiatra me receitou um antidepressivo de última geração. Em pouco mais de vinte dias, tudo mudou. Foi como tirar a depressão com a mão! A apatia, a angústia e a falta de apetite simplesmente desapareceram. O olhar ganhou força, a voz readquiriu expressividade, os pensamentos atormentados não eram mais tão intensos.

Além do tratamento psiquiátrico a médica estimulou-me a fazer terapia, iniciando assim um tratamento casado que fortaleceu meu processo de recuperação. É preciso muito esforço para retomar a alegria e a vontade de viver que a depressão leva embora. Todo tsunami causa estragos, mas existe aquele momento em que os escombros são removidos e nos damos conta de que estamos vivos.

Vivemos em um mundo que persegue a felicidade a qualquer preço, mas não nascemos com um manual de sobrevivência na barriga. Precisamos confiar em nossa capacidade de superar angústias, dores, acalmando-as por meio dos tratamentos adequados, e, sobretudo, não desistir nunca. Coragem e esperança são requisitos fundamentais para viver e sobreviver.

Eunice Mendes é atriz, pedagoga e especialista em comunicação empresarial há mais de 30 anos com três livros publicados – www.eunicemendes.com.br

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: