O desmatamento na Amazônia influencia o nível de chuvas no Brasil

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A falta de água no Sudeste pode estar relacionada com o desmatamento na Amazônia. Assinado por Antonio Donato Nobre, o relatório O Futuro Climático da Amazônia fez uma revisão e síntese da literatura científica, articulada com análises interpretativas das questões mais importantes relacionadas ao assunto. Sem perder o foco na ciência, trata dos temas com linguagem acessível e aspiração holística, isto é, busca ligar fontes e muitas análises de especialistas em uma imagem coerente do ecossistema amazônico.

Suas linhas mestras são o potencial climático da grande floresta – fator critico para todas sociedades humanas –, sua destruição com o desmatamento e o fogo e o que precisa ser feito para frear o trem desgovernado em que se transformaram os efeitos da ocupação humana sobre o clima em áreas de floresta. Deve-se saber a potência climática da floresta. Quanta energia do Sol é consumida para evaporar 20 trilhões de litros de água ao dia? Para dar uma noção da grandeza de energia envolvida na transpiração amazônica, basta fazer uma comparação com as hidrelétricas.

Evaporar um grama de água líquida consome 2,3 quilojoules de energia solar. Para converter isso em energia hidráulica/elétrica, imagine uma chaleira gigante que comporte esse volume d’água, daquelas que se liga na tomada elétrica. Quanta eletricidade seria necessária para ferver e evaporar toda essa água?

A usina de Itaipu, com 14 mil MW de potência, precisaria gerar eletricidade em sua capacidade máxima por 145 anos para que a chaleira evaporasse a água equivalente àquela transpirada em apenas um dia amazônico. Ou, para rivalizar com as árvores amazônicas e fazer o trabalho em um dia, seria preciso somar a eletricidade de 50 mil usinas hidrelétricas como Itaipu (ou 200 mil como Belo Monte).

Esta comparação deixa claro que, diante da potência climática da floresta, as maiores estruturas humanas se mostram microscópicas. Como se pode entender a circulação da água pela paisagem? A água irriga e drena os solos de forma análoga ao sangue, que irriga e drena os tecidos do corpo. Se os familiares rios são análogos às veias, que drenam a água usada e a retornam para a origem no oceano, onde ficam as artérias do sistema natural?

São os rios aéreos, que trazem a água fresca, renovada na evaporação do oceano. Para completar o sistema circulatório faltava somente o coração, a bomba que impulsiona os fluxos nas artérias aéreas. A teoria da bomba biótica veio explicar que a potência que propele os ventos canalizados nos rios aéreos deve ser atribuída à grande floresta, que funciona, então, como coração do ciclo hidrológico.

clima1O estudo revela alguns segredos. O primeiro é que a floresta mantém úmido o ar em movimento, o que leva chuvas para áreas continente adentro, distantes dos oceanos. Isso se dá pela capacidade inata das árvores de transferir grandes volumes de água do solo para a atmosfera através da transpiração.

O segundo segredo é a formação de chuvas abundantes em ar limpo. As árvores emitem substâncias voláteis precursoras de sementes de condensação do vapor d’água, cuja eficiência na nucleação de nuvens resulta em chuvas fartas e benignas.

O terceiro segredo é a sobrevivência da floresta Amazônica a cataclismos climáticos e sua formidável competência em sustentar um ciclo hidrológico benéfico, mesmo em condições externas desfavoráveis. Segundo a nova teoria da bomba biótica, a transpiração abundante das árvores, junto com uma condensação fortíssima na formação das nuvens e chuvas – condensação essa maior que aquela nos oceanos contíguos –, leva a um rebaixamento da pressão atmosférica sobre a floresta, que suga o ar úmido sobre o oceano para dentro do continente, mantendo as chuvas em quaisquer circunstâncias.

O quarto segredo indica a razão de a porção meridional da América do Sul, a leste dos Andes, não ser desértica, como áreas na mesma latitude, a oeste dos Andes e em outros continentes. A floresta amazônica não somente mantém o ar úmido para si mesma, mas exporta rios aéreos de vapor que, transportam a água para as chuvas fartas que irrigam regiões distantes no verão hemisférico.

O quinto segredo desvendado é o motivo pelo qual a região amazônica e oceanos próximos não fomentam a ocorrência de fenômenos atmosféricos como furacões e outros eventos climáticos extremos. A atenuação da violência atmosférica tem explicação no efeito dosador, distribuidor e dissipador da energia nos ventos, exercido pelo rugoso dossel florestal, e da aceleração lateral de larga escala dos ventos na baixa atmosfera, promovida pela bomba biótica, o que impede a organização de furacões e similares. A condensação espacialmente uniforme sobre o dossel florestal impede concentração de energia dos ventos em vórtices destrutivos, enquanto o esgotamento de umidade atmosférica pela remoção lateral de cima do oceano, priva as tempestades do seu alimento energético (vapor de água) nas regiões oceânicas adjacentes a grandes florestas.

clima2Todos esses efeitos em conjunto fazem da majestosa floresta Amazônica a melhor e mais valiosa parceira de todas as atividades humanas que requerem chuva na medida certa, um clima ameno e proteção de eventos extremos. Houve um desmatamento acumulado de 762.979 km². Esse valor é maior que a soma das áreas de três estados de São Paulo, ou que as áreas somadas de duas Alemanhas ou de dois Japões. Uma unidade de área mais próxima do brasileiro, o campo de futebol (4.136 m²), dá uma noção da magnitude da devastação: 184 milhões de unidades – quase um campo de futebol desmatado na Amazônia para cada brasileiro.

Colocado na perspectiva temporal, teriam sido, em média, 12.635 campos desmatados por dia; 526 campos por hora; 8,8 campos – ou 36.291 m² por minuto; 605 m² por segundo, ininterruptamente, nos últimos 40 anos. Para caber na compreensão o gigantismo destes números é preciso estender a imaginação para além destas analogias. Um trator ficcional, operando uma lâmina frontal com 3 m de largura, precisaria acelerar quase à velocidade de um avião a jato (726 km/h) para desmatar a área raspada na Amazônia no ritmo registrado do espaço, em imagens.

Como um trator desmata muito mais lentamente (0,24 – 0,36 ha/h66, ou ~0,8 km/h se essa área estivesse contida em uma faixa com 3 m de largura), com a mesma lâmina de 3 m, seriam necessários mais de 900 tratores simultaneamente derrubando a floresta, lado a lado, formando uma frente destrutiva com quase 3 km de largura. Uma comparação ainda mais impressionante é uma “estrada de desmatamento,” com 2 km de largura, que daria para cobrir a distância da Terra até a Lua (380 mil km).

Além disso, a falta de chuva é uma ameaça mortal para a Amazônia. Em 2000, Peter Cox e colaboradores do Hadley Center publicaram um impactante artigo na revista Nature. Pela primeira vez haviam unido um modelo geral de circulação da atmosfera com um modelo interativo de vegetação em que o ciclo do carbono era bem detalhado. Entre os resultados, o modelo projetava uma redução acentuada, progressiva e permanente da chuva na Amazônia, o que levaria à sua morte gradual.

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Com a floresta seca, entraria o fogo e seriam liberadas vastas quantidades de carbono, o que resultaria em piora acentuada do aquecimento global. Ou seja, pela primeira vez um modelo climático gerava um vaticínio terrível para a grande floresta. Catorze anos depois, o novo modelo do Hadley Center está similar aos demais. Já não suprime a floresta por efeito externo como antes. Não obstante, os efeitos do modelo original do Hadley Center afetavam a floresta pela redução de chuvas, como decorrência do excesso de CO2 na atmosfera e seu resultante aquecimento.

Mas os erros na previsão de chuvas podem ocorrer nos modelos climáticos. E é justamente na redução de chuvas que está a maior ameaça à floresta. Se esses modelos não preveem corretamente a redução de chuvas, não colocarão a floresta em perigo. Como nenhum modelo climático atual incorpora os mecanismos e os efeitos previstos pela teoria da bomba biótica de umidade, principalmente nos potenciais efeitos das mudanças na circulação do vento (convergência de grande escala suprimida sobre a terra seca), suas projeções podem ser incertas.

Pode-se vir a descobrir no futuro que o modelo original do Hadley Center foi o único a prever – talvez não pelas razões certas– o futuro climático da Amazônia. Estima-se que o bioma amazônico tenha sustentado 400 ou mais bilhões de árvores com diâmetro à altura do peito, acima de 10 cm. Distribuindo essa população de árvores por área, infere-se que o desmatamento corte raso tenha destruído, somente no Brasil, mais de 42 bilhões de árvores nos últimos 40 anos.

Enfileirados e considerando uma altura média de 15 m, os troncos destas árvores cobririam 635 milhões de km, ou quase 1700 vezes a distância Terra Lua. Esse ritmo de destruição significa mais de 1 bilhão de árvores cortadas ao ano; quase 3 milhões ao dia; mais de 120 mil por hora; mais de 2000 por minuto; e 34 por segundo!

E isso sem contar um número talvez ainda maior das árvores decepadas nas chamadas florestas degradadas. Nestas quatro décadas foram destruídas quase 6 árvores por cada habitante da Terra, mais de 200 por cada brasileiro. São essas árvores ausentes que são percebidas pelo clima, já que cada árvore dizimada representa, entre muitos serviços ceifados, menor evaporação da superfície.

O relatório continua com a descrição dos efeitos do desmatamento e do fogo sobre o clima: a devastação da floresta oceano verde gera um clima dramaticamente inóspito. Os modelos climáticos anteciparam, há mais de 20 anos, variados efeitos danosos do desmatamento sobre o clima, já confirmados por observações. Entre eles estão a redução drástica da transpiração, a modificação na dinâmica de nuvens e chuvas e o prolongamento da estação seca. Outros efeitos não previstos, como o dano por fumaça e fuligem à dinâmica de chuvas, mesmo sobre áreas de floresta não perturbada, também estão sendo observados.

O dano do desmatamento, assim como os danos do fogo, da fumaça e da fuligem, ao clima, são candentemente evidentes nas observações cientificas de campo. As análises baseadas em modelos atualizados e em nova teoria física projetam um futuro ainda pior. Emerge como fator principal a afetar o clima a grave extensão acumulada do desmatamento amazônico, até 2013 no Brasil em quase 763.000 km² (área equivalente a 184 milhões de campos de futebol ou três estados de São Paulo).

Tal superfície precisa ainda ser somada à fração de impacto da extensão acumulada da menos falada e menos estudada degradação florestal (estimada em mais de 1,2 milhão de km²). O relatório prossegue relacionando os dois itens anteriores, floresta oceano verde e desmatamento, no contexto temporal mais estendido: o equilíbrio vegetação clima, que balança na beira do abismo.

Os modelos climáticos ligados interativamente a modelos de vegetação exploram quais são as extensões de tipos de vegetação e as condições climáticas capazes de gerar estáveis equilíbrios vegetação clima. Para a Amazônia, esses modelos projetam a possibilidade de dois pontos possíveis e alternativos de equilíbrio: um que favorece a floresta (úmido, atual para a bacia amazônica e histórico) e outro que favorece a savana (mais seco, atual para o Cerrado, futuro para a bacia amazônica).

O ponto preocupante desses exercícios de modelagem é a indicação de que aproximadamente 40% de remoção da floresta oceano verde poderá deflagrar a transição de larga escala para o equilíbrio da savana, liquidando, com o tempo, até as florestas que não tenham sido desmatadas. O desmatamento por corte raso atual beira os 20% da cobertura original na Amazônia brasileira, e a degradação florestal, estima-se, já teria perturbado a floresta remanescente em variados graus, afetando adicionalmente mais de 20% da cobertura original.

A seção final do relatório recomenda um plano de mitigação baseado na reversão radical tanto dos danos passados quanto a das expectativas de danos futuros: um esforço de guerra. As florestas da Amazônia são essenciais para a manutenção do clima, e com ele a segurança das gerações futuras. Felizmente, os avanços nas ciências fazem desta guerra um desafio que pode ser bem sucedido.

Apesar da dificuldade em separar precisamente os efeitos de fundo das mudanças climáticas globais daquelas locais e regionais, não resta a menor dúvida de que os impactos do desmatamento, da degradação florestal e dos efeitos associados já afetam o clima próximo e distante da Amazônia. Já afetam em alto grau hoje em dia e prometem afetar ainda mais seriamente no futuro, a ponto de que a única opção responsável que se coloca é agir vigorosamente no combate às causas.

Como primeira ação, impõe-se a universalização e facilitação de acesso às descobertas científicas, que podem reduzir a pressão da principal causa do desmatamento: a ignorância. Em segundo lugar, é preciso estancar a sangria da floresta, ou seja, zerar o desmatamento, a degradação florestal e o fogo já, com todos e quaisquer recursos e meios éticos possíveis, no interesse da vida. Ao mesmo tempo, em vista do diagnóstico de que desmatamento e degradação acumulados constituem-se no mais grave fator de dano ao clima, torna-se necessário e inevitável desenvolver um amplo esforço para replantar e restaurar a floresta destruída. Tal esforço precisa ter perspectiva de médio e longo prazos para culminar com a regeneração da floresta oceano verde original.

Diante disso, as elites governantes podem, devem e precisam tomar a dianteira na orquestração da grande mobilização de pessoas, recursos e estratégias que possibilitem recuperar o tempo perdido. Na conclusão, ao apontar para a urgência de ações de proteção e restauro da grande floresta, acena com oportunidades reais na viabilidade de se trilhar um novo caminho, onde a floresta protegida e recomposta seja a principal aliada das atividades humanas, dentro e fora da Amazônia.

O autor conclui escrevendo que, na grande floresta da Amazônia, a Terra guarda um de seus mais espetaculares tesouros: a profusão de vida que inala gás carbônico e exala oxigênio, transpira água, emite odores mágicos, remove gases tóxicos, pulsa e regula, umedece e faz chover, propele ventos e alimenta rios aéreos, acalmando a fúria dos elementos, tornando amigo o clima próximo e também o mais distante. As sociedades abrigadas sob seu hálito doador de vida têm nela um cordão umbilical que sustém suas economias e lhes dá bem estar.

Por tudo isso, é necessário, desejável, viável e até lucrativo alterar o modus operandi da ocupação humana na Amazônia. Há muitas alternativas para reviver a competência de convívio respeitoso com a floresta das civilizações ancestrais. Embora as ações de salvação propostas sejam todas requeridas para lograr o restabelecimento funcional da regulação climática pela floresta, a novidade está em enfrentar o passivo de desmatamento com reflorestamento e restauração ecológica.

“Há muitas e excelentes alternativas para reviver a competência de convívio respeitoso (e tecnológico) com a floresta das civilizações ancestrais. O esforço de guerra contra a ignorância e pela consciência da necessidade vital das florestas é a melhor estratégia para harmonizar a sociedade – começando pelos governantes – em torno do objetivo comum de recuperar o tempo perdido, criando chances reais de evitarmos o pior dos desastres climáticos. Entretanto, se a despeito da montanha de evidências científicas ainda não formos capazes de agir, ou se formos lentos demais, então é provável que tenhamos de lidar com prejuízos incompreensíveis para quem sempre teve sombra e água fresca providos graciosamente pela grande floresta”.

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