Os prováveis efeitos poluidores do incêndio em Santos (SP)

incêndio_santos2Depois que seis tanques de combustíveis foram atingidos pelas chamas e os bombeiros ainda tentando combater o incêndio, a fumaça preta que cobre parte do céu de Santos (SP) pode significar problemas devido à poluição ambiental. A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) classificou a qualidade do ar na região do incêndio como ruim, em uma escala que vai de boa a péssima.

Já o monitoramento feito pelas cinco estações automáticas de qualidade do ar da Cetesb localizadas em Santos e Cubatão não registraram aumento significativo na concentração dos poluentes avaliados (material particulado, dióxido de nitrogênio, dióxido de enxofre e ozônio), até o momento. As estações (Cubatão-Vila Parisi, Cubatão-Centro, Cubatão-Vale do Mogi, Santos-Boqueirão e Santos-Ponta da Praia) estão localizadas em um raio de seis a dez quilômetros do local do incêndio, no terminal de tancagem da empresa Ultracargo/Tequimar, na zona industrial do bairro da Alemoa, em Santos.

Os dados disponíveis mostram que a qualidade do ar nas estações de Santos variou entre a condição boa e moderada desde o início do incêndio. Nesse mesmo período, nas estações de Cubatão verificou-se que a área central da cidade permaneceu com qualidade boa e moderada, enquanto a área industrial oscilou entre a condição boa e muito Ruim. Deve-se observar que a má condição da qualidade do ar na estação de Cubatão – Vila Parisi já era verificada antes do incêndio, por causa de contribuições das fontes locais.

Com relação à população que vive próxima às estações da Cetesb, os riscos de exposição à poluição estão se mostrando menores, já que a pluma da fumaça está se elevando em razão do calor das chamas, dispersando os poluentes. No caso da população que vive mais próxima ao local do incêndio, a Cetesb está estudando a possibilidade de deslocar a estação de monitoramento móvel que se encontra no bairro da Ponta da Praia, na Praça José Rebouças, em Santos, para um local ainda mais próximo da área do incêndio.

Na verdade, a liberação de gases poluentes, resultado da queima de combustíveis como gasolina e etanol, pode causar efeitos imediatos no sistema respiratório. São substâncias que estão diariamente na atmosfera em função do próprio uso de veículos, por exemplo, mas que apresentam riscos maiores quando a exposição é em quantidades expressivas e por longos períodos.

incêndio_santosNo fundo, um acidente deste tipo tem consequências imprevisíveis, já que não se sabe quanto tempo a fumaça ficará no ar. Provavelmente, a longo prazo, haverá consequência principalmente para quem já tem alguma doença respiratória.

O contato com o dióxido de enxofre — substância resultante da queima de gasolina — pode causar, de imediato, tosse seca, irritação e ardência nos olhos, nariz e boca em quem está mais próximo ao foco do incêndio. Outro efeito seria a inflamação das vias aéreas e até mesmo falta de ar. Contudo, as consequências dependem diretamente da intensidade da exposição aos gases poluentes.

Estudos mostram o agravamento de problemas cardiovasculares em momentos de picos de poluição. Se a concentração (de gases poluentes, como dióxido de enxofre) é alta, pode tanto causar doenças em quem não tem, quanto novos sintomas em quem já sofre de alguma, como asma ou bronquite. Se a pessoa já tem uma doença respiratória ou cardíaca, ela faz parte de um grupo mais suscetível.

Em casos de alta exposição, a inalação dos poluentes pode evoluir para um edema pulmonar e, em quem sofre de doença cardiovascular, causar até um infarto. A Cetesb acredita que as condições meteorológicas de Santos favorecem a dispersão de partículas — ou seja, as correntes também podem prejudicar o ar de localidades vizinhas. Especialistas alertam que, caso a qualidade piore, moradores mais próximos devem ser orientados a deixarem as suas casas.

Outro risco diz respeito ao dano ambiental. Um relatório preliminar da Ultracargo aponta que o incêndio provocou a contaminação da água do canal do estuário de Santos e pode ser a causa da morte de milhares peixes. A água usada para conter as chamas foi despejada no estuário pelo sistema de escoamento da Ultracargo contaminada com combustível, provocando alteração da temperatura e saturação do oxigênio, provavelmente causando a morte dos peixes.

O hidrocarboneto (combustível com base no petróleo) atinge a água, dificulta a luminosidade do céu e a transferência de oxigênio, o que leva rapidamente à mortandade de peixes por sufocamento e, também, por ficar com o óleo impregnado na pele. Já a questão da fuligem, que com o vento é disseminada, pode gerar um aceleramento de corrosão das espécies nativas, queima das folhas das árvores e a própria geração de chuva ácida decorrente do contato desses gases com a umidade.

A Cetesb considera-se poluente qualquer substância presente no ar e que, pela sua concentração, possa torná-lo impróprio, nocivo ou ofensivo à saúde, causando inconveniente ao bem estar público, danos aos materiais, à fauna e à flora ou prejudicial à segurança, ao uso e gozo da propriedade e às atividades normais da comunidade. O nível de poluição atmosférica é medido pela quantidade de substâncias poluentes presentes no ar. A variedade das substâncias que podem ser encontradas na atmosfera é muito grande, o que torna difícil a tarefa de estabelecer uma classificação.

A interação entre as fontes de poluição e a atmosfera vai definir o nível de qualidade do ar, que determina por sua vez o surgimento de efeitos adversos da poluição do ar sobre os receptores, que podem ser o homem, os animais, as plantas e os materiais. A medição sistemática da qualidade do ar é restrita a um número de poluentes, definidos em função de sua importância e dos recursos disponíveis para seu acompanhamento.

No caso do incêndio em Santos, há o dióxido de enxofre (SO2) que resulta principalmente da queima de combustíveis que contém enxofre, como óleo diesel, óleo combustível industrial e gasolina. É um dos principais formadores da chuva ácida. O dióxido de enxofre pode reagir com outras substâncias presentes no ar formando partículas de sulfato que são responsáveis pela redução da visibilidade na atmosfera.

Igualmente, o enxofre reduzido total (ERT), também chamado de sulfeto de hidrogênio, metil-mercaptana, dimetil-sulfeto, dimetil-dissulfeto. São, de maneira geral, os compostos de enxofre reduzido mais frequentemente emitidos em operações de refinarias de petróleo, fábricas de celulose, plantas de tratamento de esgoto e produção de rayon-viscose, entre outras.

As demais espécies de enxofre reduzido são encontradas em maior quantidade perto de locais específicos. O dissulfeto de carbono, por exemplo, é usado na fabricação de rayon-viscose e celofane. Os compostos de enxofre reduzido também podem ocorrer naturalmente no ambiente como resultado da degradação microbiológica de matéria orgânica contendo sulfatos, sob condições anaeróbias, e como resultado da decomposição bacteriológica de proteínas. Estes compostos produzem odor desagradável, semelhante ao de ovo podre ou repolho, mesmo em baixas concentrações.

Os problemas decorrentes da baixa umidade do ar e da alta concentração de poluentes, como no inverno, frequentemente ocorrem em dias com baixa umidade do ar e alta concentração de poluentes. Nessas condições, é comum ocorrerem complicações respiratórias devido ao ressecamento das mucosas, provocando sangramento pelo nariz, ressecamento da pele e irritação dos olhos.

Quando a umidade relativa do ar estiver entre 20 e 30%, é melhor evitar exercícios físicos ao ar livre entre 11 e 15 horas; umidificar o ambiente através de vaporizadores, toalhas molhadas, recipientes com água, umidificação de jardins etc; sempre que possível permanecer em locais protegidos do sol ou em áreas arborizadas. Se a umidade estiver entre 20 e 12%, é recomendável suspender exercícios físicos e trabalhos ao ar livre entre 10 e 16 horas; evitar aglomerações em ambientes fechados; e seguir as orientações anteriores.

Mas, se a umidade for menor do que 12% é preciso interromper qualquer atividade ao ar livre entre 10 e 16 horas; determinar a suspensão de atividades que exijam aglomerações de pessoas em recintos fechados; manter umidificados os ambientes internos, principalmente quartos de crianças, hospitais, etc. Além dessas medidas é recomendável usar colírio de soro fisiológico ou água boricada para os olhos e narinas e beber muita água.

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Perdas de água no Brasil

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A média brasileira de perdas de água é de aproximadamente 40% (incluindo perdas reais e aparentes), mas em algumas empresas de saneamento essas perdas superam 60%

O cenário brasileiro de perdas de água no setor de saneamento é bastante problemático. A média brasileira de perdas de água é de aproximadamente 40% (incluindo perdas reais e aparentes), mas em algumas empresas de saneamento essas perdas superam 60%. O elevado índice de perdas de água reduz o faturamento das empresas e, consequentemente, sua capacidade de investir e obter financiamentos.

Além disso, gera danos ao meio-ambiente na medida em que obriga as empresas de saneamento a buscarem novos mananciais. O número insuficiente de profissionais do setor – e muitas vezes a qualidade técnica -, como ocorre em algumas regiões do Brasil, é um dos maiores entraves para o enfrentamento do problema, como analisa o presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), Dante Ragazzi Pauli. “As perdas de água representam um dos maiores desafios e dificuldades para a adequada distribuição de água no Brasil e o nível de combate às perdas tem sido muito desigual pelos estados brasileiros”.

Para Dante, há a clara necessidade de mínima adequação (qualitativa e quantitativa), por parte dos operadores, dos profissionais que serão alocados na atividade, a capacitação deles, a garantia de recursos financeiros e muita perseverança. “As estratégias brasileiras para redução de perdas de água devem combinar ações estruturantes (de gestão de ativos) e ações estruturais (de ampliação e melhoria dos ativos).”

No Brasil, os indicadores estão longe do observado em países desenvolvidos (Japão, Alemanha, Austrália podem ser citados como referenciais) e a situação de perdas é muito desigual quando se comparam unidades da federação, operadores públicos e privados de saneamento básico. O Plansab, aprovado em dezembro de 2013, e do qual não se tem notícias, definiu para o índice o valor de 31% em 2033.

“Ocorre que a situação atual dos prestadores de serviço não favorece os investimentos em redução de perdas. Parte importante dos operadores brasileiros não possui quadro de profissionais suficientemente preparados tanto do ponto de vista quantitativo como qualitativo. Assim, desconhece as principais características do sistema que opera; em alguns, há escassez de equipamentos e instrumentos, como macro e micromedidores”, explica.

Além disso, devem ser citados outros problemas, tais como a ­baixa capacidade dos operadores de se financiar e a ausência de flexibilidade das operadoras de saneamento para alterar seus orçamentos. “Cabe aos operadores, independentemente da estratégia que adotem para o combate às perdas, o pleno conhecimento dos sistemas que operam.”

O presidente da ABES observa que a atual crise hídrica que assola boa parte do Brasil faz aparecer uma série de “especialistas” no assunto, que passam a impressão de que a queda de perdas a níveis aceitáveis é tarefa simples. “Não é, ainda mais ao perceber a situação caótica de muitos de nossos operadores e a falta de comprometimento de boa parte de nossos governantes nas três esferas de governo. Lembremos que o Japão, já acima citado como uma de nossas referências, demorou décadas para atingir o índice atual. Tóquio, hoje tem perdas que beiram os 5%”.

Para Dante, as estratégias que podem ser adotadas jamais podem perder de foco que o ponto de partida para enfrentar o problema das perdas de água é o estabelecimento, por parte dos operadores, de um mínimo de profissionais destacados para o desafio.