Qualidade e Inovação: dois pilares para a competitividade

Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto e Ana Lucia Atrasas

O conceito de qualidade pode ser entendido de várias maneiras, tais como excelência, adequação ao uso, conformidade com as especificações, mas pode também, ser associado ao ato de “fazer as coisas certas”, diretamente ligado à idéia de eficácia. O conceito de produtividade, por sua vez, admite diversas variantes do quociente resultados/insumos e pode ser associado ao ato de “fazer certo as coisas”, diretamente ligado à idéia de eficiência, ou bom uso dos recursos disponíveis. A Figura 1 oferece uma visão de como a qualidade e a produtividade podem interagir proporcionando a competitividade.

figura 1

Figura 1 – Qualidade, Produtividade e competitividade

Fonte: Costa Neto e Canuto (2010)

Evidentemente, outros fatores podem ser invocados como elementos para a competitividade, como disponibilidade, ações de marketing e diversas outras condições abrigadas sob o conceito de vantagem competitiva, amplamente discutido por Porter (2005). Nesse contexto, a existência das inovações pode ser de decisiva importância.

Uma das formas de se aprimorar a qualidade de produto e serviços, amplamente difundida pelas empresas japonesas, que para tanto se valem de um extenso arsenal de ferramentas e princípios, é a busca por melhorias contínuas, muitas vezes obtidas com o uso de técnicas simples, ao alcance dos operadores de processos, e análises on line. Em contraparte, existem as melhorias incrementais, em geral conseguidas por métodos mais sofisticados, uso intensivo de técnicas estatísticas poderosas, participação de especialistas e analises offline.

Outra forma de se conseguirem melhorias incrementais é mediante o aporte de inovações tecnológicas. A Figura 2 comprara o efeito proporcionado pelas melhorias contínuas e incrementais.

figura 2

Figura 2 – Melhorias contínuas e incrementais

Fonte: Costa Neto e Canuto (2010)

Outra forma de comprar os efeitos das melhorias contínua e incremental pode ser vista na Figura 3.

figura 3

Figura 3 – Melhorias contínua e incremental

Fonte: Costa Neto e Canuto (2010)

Nesta figura, o processo operava a um nível usual de defeitos n1. No instante t1 ocorreu uma não-conformidade (ou falha) esporádica que foi detectada online, provavelmente por um gráfico de controle de processo, voltando-se ao nível usual. No instante t2, dentro da linha de busca por melhorias contínuas, obteve-se uma redução da variação do processo mantendo o nível usual de defeitos. No instante t3, provavelmente após a realização de uma análise mais profunda offline, conseguiu-se trazer o processo a um patamar n2, correspondente a um consideravelmente melhor nível de qualidade.

Note-se que a perda causada pela não conformidade esporádica é, em verdade, muito menor que a perda crônica que havia quando o processo operava ao nível n1, representada pela área da figura entre esses dois níveis, embora essa perda crônica seja mais difícil de enxergar, até porque se pode estar acostumado com ela, considerando-a inerente ao processo.

São em geral vantagens das melhorias contínuas: sua busca faz parte do dia-a-dia dos interessados na qualidade; resultam da análise de pessoas ligadas ao processo; e são conseguidas com ferramentas simples e a baixo custo. São em geral vantagens das melhorias incrementais ou inovativas: proporcionam “saltos” de qualidade; constituem evoluções marcantes do processo; e podem representar menores custos a longo prazo. Entretanto, como estratégias para a melhoria da qualidade e, portanto, da competitividade da empresa, ambas as possibilidades devem ser devidamente consideradas.

Inovar não é simplesmente introduzir algo novo. É preciso também que esse “algo novo” gere valor adicional. Assim, uma invenção não implica necessariamente inovação, somente o será se servir para alguma finalidade que crie ou acrescente valor. É claro que a questão da geração de valor é relativa, depende de quem a interprete. Uma novidade pode gerar valor adicional para certas aplicações (para as quais representará uma inovação) e não para outras.

Voltando á Figura 2, esta conceituação leva à consideração de que deve haver algum tipo de inovação tanto nas providências que resultaram em melhoria contínua quanto naquelas que produziram melhoria incremental. A diferença é que os efeitos das melhorias incrementais são mais fortes, mais visíveis, muito provavelmente devido à introdução de procedimentos diferenciados ou ao aporte de nova tecnologia (COSTA NETO E CANUTO, 2010).

Entretanto, com a imensa capacidade de geração de novos produtos e soluções existente na atualidade, a questão da inovação tecnológica ganha especial importância e deve ser permanentemente considerada como fonte para novas soluções que incrementam a competitividade das empresas.

Segundo a PINTEC – Pesquisa Industrial – Inovação Tecnológica 2000, do IBGE – Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, “a inovação tecnológica é definida pela implementação de produtos (bens ou serviços) ou processos tecnologicamente novos ou substancialmente aprimorados. A implementação da inovação ocorre quando o produto é introduzido no mercado ou o processo passa a ser operado pela empresa”. A inovação pode ser de produto (bens tangíveis ou serviços) ou de processo.

Em geral, o desenvolvimento da primeira implica a necessidade da segunda, para atender às novas condições tecnológicas. Para maior esclarecimento sobre esta e outras questões ligadas à inovação, sugere-se Bastos Tigre (2006).

A Figura 4 situa a inovação tecnológica em um processo de viabilização de novos produtos, sejam eles bens tangíveis ou serviços, mostrando o encadeamento que deve existir para que esse processo seja sólido e sustentável.

figura 4

Figura 4 – Processo sustentável de inovação tecnológica baseada em tecnologia

Fonte: Costa Neto e Canuto (2010)

Rodgers (1995), entretanto, considera que a efetiva adoção de uma nova idéia, mesmo quando esta apresenta vantagens óbvias, é, via de regra, difícil. Muitas inovações requerem um longo tempo para que sejam adotadas. Quase sempre, muitos anos a partir da data em que foram concebidas.

Esse autor define inovação como uma idéia prática ou um produto percebido como novo por um indivíduo, ou por qualquer outro receptor como, por exemplo, uma empresa. Afirma que a percepção dos receptores sobre as características de uma inovação (produto, processo ou serviço) está associada à sua taxa de adoção.

Esta taxa de adoção é definida pela velocidade relativa com que a inovação é adotada por determinado grupo social. Pode ser medida, por exemplo, pelo número de pessoas que passaram a utilizá-la no período de um ano.

Segundo Kotler (2001), a vantagem relativa de uma inovação é a capacidade de superação da concorrência que ela proporciona. Expressa-se por características como rentabilidade econômica, custos reduzidos, prestígio social do uso e outros benefícios, caracterizando o grau em que o produto parece ser superior aos de seus concorrentes no mercado.

Por outro lado, não se pode deixar de mencionar o perigo social ligado ao surgimento das inovações. Quando, no século XVIII, as invenções do tear e da máquina a vapor trouxeram importantes inovações, substituindo o trabalho humano por máquinas, em compensação propiciaram a geração de numerosos outros empregos decorrentes da Revolução Industrial, que adveio junto com enorme incremento do comércio. No mundo saturado como o de hoje, inovações que representam a automação de processos podem levar muitas pessoas ao desemprego sem ter alternativas compensadoras, gerando grave problema social cuja solução dependerá de ações de governo.

Isso tem sido feito em diversos países através de sistemas de seguridade social. No Brasil, há a questionável solução do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (COSTA NETO e CANUTO, 2010).

A propósito, Rifkin (2001), há quase uma década, advertia: “Se os dramáticos ganhos de produtividade da revolução tecnológica não forem compartilhados, mas sim usados principalmente para melhorar os lucros da empresa, para o benefício exclusivo dos acionistas, altos executivos e da emergente elite dos trabalhadores com conhecimento da alta tecnologia, há a possibilidade de que a lacuna cada vez maior entre os que têm e os que não têm leve a uma revolução social e política em escala global”. Resta saber se, até que ponto e de que outra forma, suas palavras podem estar adquirindo foro de verdade.

No mundo moderno, é fácil encontrar exemplos de inovações baseadas em tecnologias que revolucionaram a nossa vida e proporcionaram o surgimento e o crescimento de inúmeras empresas e negócios, tais como a telefonia celular, o desenvolvimento de softwares inteligentes, as soluções GPS, dentre muitas outras. No Brasil, com sua imensa potencialidade agrícola, a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, bem como outras instituições do SNPA – Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária, tem contribuído significativamente para o crescimento do agronegócio brasileiro mediante as mudanças introduzidas na tecnologia de produção, na criação de cultivares adaptadas aos mais diferentes ecossistemas, como também nas tecnologias de manejo e produção pecuária.

Roessing e Lazzarotto (2005) mencionam, por exemplo que “o desenvolvimento de diversos cultivares de soja adaptadas ao clima tropical alavancaram o agronegócio no centro-oeste, no norte, sudeste e no nordeste brasileiro. Essa inovação permitiu ao complexo agroindustrial da soja a geração de R$ 76,24 bilhões em 2003 e tem permitido a geração de emprego para 4 a 5 milhões de pessoas. Igualmente importante para o crescimento do agronegócio foi o desenvolvimento de tecnologias de cultivo e a adaptação de cultivares de milho nas áreas de cerrado, antes inapropriadas para o seu cultivo”.

A Embrapa está também envolvida no processo de inovações da tecnologia de produção do biodiesel, que poderá introduzir mudanças radicais na matriz energética brasileira, com aspectos positivos nas condições ambientais e sociais, além de contribuir para a economia de divisas. Dentre as matérias-primas sendo pesquisadas para tanto estão a soja, o girassol, o dendê, a mamona e o pinhão manso.

Costa Neto e Canuto (2010) lembram também exemplos de inovações que não dependeram da incorporação de novas e revolucionárias tecnologias, mas de idéias novas que acrescentaram valor. Mediante o uso das chamadas tecnologias apropriadas, que aproveitam peculiaridades específicas de certas regiões ou culturas, como no uso das pedras abundantes no local ao invés de tijolos para a construção de casas na cidade de São Tomé das Letras, MG.

A eliminação de procedimentos desnecessários em processos, aumentando a produtividade e reduzindo o custo, caso em que a inovação se apresenta sob a forma de racionalização. O surgimento há três décadas das empresas aéreas que competiam em custo mediante a eliminação de gastos com refeições, bebidas, check-in e outras atividades não diretamente ligadas ao escopo do serviço.

A introdução de faixas exclusivas para ônibus nas grandes cidades, como forma de melhorar o transporte público e incentivar o seu uso. A criação e ampla disseminação dos restaurantes por quilo. No futebol, a proibição de os goleiros agarrarem bolas recuadas, eliminando um recurso de empobrecimento do jogo. O ato de se abaixar e beijar o chão em cada país visitado, pelo papa João Paulo II.

Enfim, a qualidade de processos e produtos (bens tangíveis ou serviços), juntamente com sua contraparte de produtividade, são elementos básicos para a competitividade das empresas. Ao par disso, para se conseguir melhorias significativas na qualidade dos produtos e processos, a busca permanente por inovações, baseadas ou não no aporte de novas tecnologias, tem um papel de destaque. As empresas e organizações que atuem num mercado altamente globalizado e informatizado, como o dos tempos que correm, não podem ficar alheias a essas realidades, sob pena de não obterem a competitividade em face da concorrência, que pode estar em qualquer ponto do globo, e não cumprirem a finalidade social que se espera da sua atuação.

Referências

BASTOS TIGRE, P. – Gestão da Inovação – A economia da tecnologia no Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 2006.

COSTA NETO, P. L. O. e CANUTO, S. A. – Administração com Qualidade – Conhecimentos necessários para a gestão moderna. São Paulo: Blucher, 2010.

KOTLER, P. – Administração de Marketing. São Paulo: Prentice-Hall, 2001. 10ª

ed. PORTER, M. E. – Estratégia Competitiva – Técnicas para análise de indústrias e da concorrência. Rio de Janeiro: Campus, 2005, 2ª ed.

RIFKIN, J. – Fim dos Empregos: o declínio inevitável dos novos níveis dos empregos e a redução de força total de trabalho. São Paulo: Makron Books, 2001.

RODGERS, E. M. – Diffusion of Innovations. New York: The Free Press, 1995.

ROESSING, A. C. e LAZZAROTTO, J. J. – Criação de Empregos pelo Complexo Agroindustrial da Soja. Londrina, PR: Embrapa Soja, 2005.

Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da UNIP – Universidade Paulista e presidente da Academia Brasileira da Qualidade (ABQ); e Ana Lucia Atrasas é economista da Embrapa e doutoranda da UNIP – Universidade Paulista.

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