A liderança começa na infância?

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L. A. Costacurta Junqueira

Para que esse artigo possa ser melhor compreendido o leitor deve se imaginar como tendo dez anos, estar junto com seus pais numa situação em que esteja recebendo algum feedback do pai e/ou da mãe. Qual a influência que exerce a educação que damos a nossos filhos e no que ela pode ajudar ou não a formação de um futuro líder?

Você líder/pai já se deu conta de que pode estar educando seus filhos para serem líderes ineficazes. Até que ponto as características da educação que recebemos em casa ou na escola viciam nosso desempenho como futuros líderes?

Pesquisas mostram que as crianças tendem a estarem mais adaptadas à realidade ao seu redor do que os próprios pais. Tal constatação pode ajudar as crianças a receber uma educação voltada para algumas dimensões tais como inovação, questionamento, compartilhamento, entre outras comuns aos líderes.

A ideia de abordar esse tema surgiu durante uma conversa que tivemos em São Paulo com um cliente que estava questionando certas posições gerenciais de seu subordinado. Essas posições passavam pelas dimensões desconfiança, falta de incentivo para que se assumissem riscos, dificuldade de comunicação, etc.

A partir daí nos ocorreu escrever algo que pudesse ajudar os pais, líderes ou não, a tomar um pouco mais de cuidado com a forma como educam seus filhos, alertando-os para as possíveis repercussões futuras, caso estes escolham a carreira gerencial. Embora escrito para pais com filhos de idade variando de 1 a 10 anos, o texto também se presta, com alterações, é óbvio, a quem tem como missão “educar” os subordinados.

Vamos colocar aqui algumas das dimensões que caracterizam um estilo de liderança eficaz e realizadora para o Brasil dos tempos de crise, fazendo um paralelo com o estilo tradicional de educação que recebemos:

– Assumir riscos; errar por ação e não por omissão: qual o comportamento que nós, pais, adotamos quando nossos filhos erram? Imediatamente puni-los ou procurar descobrir as causas do erro para evitar uma repetição do problema, ou até para descobrir que o erro ocorreu porque, nós pais, não passamos suficiente informação sobre o que deveria ser feito?

– Tomar decisões analisando as várias dimensões e implicações do problema em nível interno e externo, considerando os aspectos econômicos, sociais, financeiros, etc.: por exemplo, quando nós pais, vamos ao cinema e deixamos o filho em casa nossa atitude é encher a criança de recomendações ou apelar para seu bom senso dizendo: “Meu filho, a casa é sua, tome conta dela”; se tiver alguma dúvida, resolva como lhe parecer melhor e nos conte quando voltarmos . Assim estaremos estimulando a ideia de responsabilidade e criatividade.

– Responsabilizar-se pelo treinamento e acompanhamento do desempenho de seus subordinados. No parágrafo anterior já abordamos o aspecto da insuficiência de informações, que normalmente implica em decisões pobres. Além disso, os pais devem se questionar se o processo educacional utilizado passa para os filhos a filosofia das verdades definitivas (quase sempre decorrente de visões unilaterais sobre os problemas).

– Usar o tempo como instrumento de vantagem competitiva, atendendo mais rapidamente seus clientes internos e externos.

– Outra questão a considerar é aquela relativa à pressa no processo decisório, em que a ênfase está na rapidez e não na qualidade. É bom lembrar que na maioria dos casos mencionados, o que funciona como processo educacional por parte dos pais é mais o exemplo dado por seu próprio comportamento do que uma intenção deliberada de conduzir o processo decisório nesta ou naquela direção.

– Ter um estilo participativo, compartilhando informações e decisões: imaginem, quanto tempo dedicamos diariamente a educar nossos filhos 30, 60, 80 minutos por dia? Eles efetivamente sentem os pais como um recurso? Alguém disponível para ajudá-los? Nossa presença ao seu lado, como pais, nos permite uma avaliação em tempo real do que está efetivamente acontecendo. Como eles estão evoluindo? É isso que eles terão de fazer com os subordinados quando se tornarem líderes, no futuro.

– Em casa, damos ordens para que as coisas sejam feitas, utilizando um estilo autocrático ou pedimos, por favor? Só a nossa opinião é que vale ou escutamos os outros antes de decidir? Somos os primeiros ou os últimos a dar opinião? Dividimos com nossos filhos informações relevantes para suas vidas? Compartilhamos nossas experiências? O processo educacional pode criar filhos autocratas ou com estilo participativo de decisão. Depende de nós, pais.

– Estar permanentemente ocupado com as necessidades de mudança do status quo: Quando nosso filho nos faz um pedido atendemos rapidamente? Tratamos nosso filho tão bem, ou melhor, do que tratamos nossos clientes no trabalho? A dimensão rapidez no atendimento cria nos filhos (e nos clientes) a sensação de importância, disponibilidade para solução de problemas, etc.

– Voltar-se para a inovação e para o que não é rotineiro; ter espírito questionador: somos pais acomodados ou vivemos questionando a maneira como ocorrem às coisas em casa? Demandamos de nossos filhos, ideias novas, diferentes formas para resolver velhos problemas? Há uma preocupação genuína de que nossos filhos sejam capazes de fazer coisas de que os outros não são capazes? Estamos sempre mostrando a nossos filhos coisas, ideias, produtos novos? Mais tarde, como líderes, eles poderão ser simples, mantenedores do “status quo”, ou pessoas que se sentem responsáveis por mudar situações, aproveitar oportunidades, “alterar o curso das coisas”.

– Integrar razão e emoção no processo decisório e na solução de problemas: razão e emoção, quando consideradas isoladamente, não levam a decisões ganha/ganha e acabam não sendo obedecidas/respeitadas.

– Saber quando e como dizer não: a palavra NÃO provoca a compulsão do SIM. A frase “que tal considerarmos a alternativa B pode servir ao mesmo propósito (questionamento)”.

– Impor limites como e quando necessário: no processo educacional é fundamental que limites sejam estabelecidos o mais cedo possível. Esclarecer o porquê dos limites contribui para sua aceitação.

– Saber discernir entre o certo ou errado: certo ou errado podem ser conceitos subjetivos. No processo educacional devem ser precedidos de seu porquê.

– Utilizar abordagens ganha/ganha nos relacionamentos: a cultura brasileira, de modo geral, incentiva o “levar vantagem em tudo”. Tal procedimento é a antítese do ganha/ganha. Vale lembrar o conceito de ganhar pode ser individual o que nos leva à necessidade de identificar o que é importante para cada uma das partes. Um facilitador do ganha/ganha é colocar os fatos antes das opiniões.

– Alternar o saber ouvir e o saber falar: em nossa cultura o falar primeiro costuma ser mais praticado do que o ouvir primeiro. Vale lembrar que ouvir primeiro nos leva a identificar as necessidades da outra parte.

– Fazer perguntas antes das respostas: fazer perguntas que demandam respostas além do simples SIM e NÃO nos possibilita RECEBER maiores informações, bem como entender melhor o que a outra parte necessita.

– Instruir nossos filhos a respeitar leis, regulamentos, típicos de uma sociedade globalizada ou pautar nosso comportamento pelo desrespeito a tudo e a todos.

Resumindo o que discutimos até aqui, vale colocar frente a frente alguns comportamentos a incentivar e outros a evitar no processo educacional. Os primeiros são características de líderes eficientes tanto na execução de tarefas como na gestão de pessoas; os demais comportamentos geralmente trazem mais ineficiência e desintegração:

INCENTIVAR

EVITAR

  • Elogios

  • Crítica

  • Informações

  • Opiniões

  • Compartilhamento

  • esconder o jogo”

  • Assumir riscos

  • Segurança máxima/manutenção;

  • Pedir ajuda

  • Não precisar de ninguém

  • Cooperação

  • Competição

  • Afetividade + racionalidade

  • Racionalidade

  • Confiança

  • Desconfiança

  • Pensamento no futuro

  • Pensamento no passado ou presente.

Nossa intenção ao colocar estas questões é simplesmente despertar, pais e líderes, para a importância do seu papel na formação de futuros líderes, instigando-os a questionar o tipo de educação que estão dando a nossos filhos e as repercussões para eles no futuro.

Não é necessário concordar com o que falamos. Pedimos apenas que cada um se pergunte se está no melhor caminho e o que eventualmente poderia e deveria ser mudado.

L. A. Costacurta Junqueira é diretor do Instituto MVC.

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