Subornos


BS 12999: código de prática para a gestão de danos

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Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto

O leitor já foi alvo de tentativa de suborno? Eu fui, em pelo menos duas vezes, que me lembro.

Na primeira vez, em 1962, eu era um engenheiro recém-formado no ITA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica e trabalhava há pouco no CTA – Centro Tecnológico de Aeronáutica, em São José dos Campos, mais especificamente na Comissão de Homologação de Aeronaves. Uma das funções dessa comissão era inspecionar para homologação pequenas aeronaves que passassem por modificações em suas condições essenciais ao vôo.

Minha primeira missão foi ir ao Rio de Janeiro fazer isso, no Aeroporto de Manguinhos, era um pequeno avião adaptado para rebocar faixas de propaganda. Tratava-se de um Paulistinha, um biplace da Neiva muito popular naqueles anos. Cheguei, me apresentei e, com os requisitos e algo mais na mão, comecei o trabalho. O avião estava em petição de miséria. Ao fim do dia, meu relatório apontava 36 falhas que precisariam ser sanadas para que aquela coisa pudesse voar.

Foi quando chegou o proprietário, um tipo asqueroso com o bigodinho típico dos cafetões da Lapa. Expliquei-lhe os problemas e disse que, tão logo resolvidos, eu voltaria para nova avaliação.

– Mas, engenheiro, eu preciso da sua aprovação hoje, pois tenho um contrato que me obriga a voar já amanhã.

– Sinto muito, este avião não pode voar do jeito que está.

Então ele me levou para uma salinha onde havia duas caixas de whisky Johnie Walker Black Label e disse:

– Engenheiro, essas caixas são suas, mas eu preciso da sua assinatura agora.

– De forma alguma, senhor. Este avião não pode voar assim!

Então ele apelou:

– Quer saber de uma coisa? Eu sou amigo do governador e não vai ser um engenheirozinho de merda que vai me impedir de voar com meu avião.

Não me restou outra coisa senão dizer “Passe bem” e me retirar, indignado.

Três dias depois eu estava em minha mesa no CTA folheando o breefing sobre noticias aeronáuticas que recebíamos regularmente quando via a noticia: “Avião rebocador de faixa cai no Rio de Janeiro”. Chequei o prefixo: era o próprio. Felizmente o piloto não morreu, mas quebrou as duas pernas.

Dois anos depois, eu trabalhava em São Paulo como engenheiro em uma empresa de origem holandesa que projetava e instalava sistemas de refrigeração industrial. Apos uns três meses estudando livros e manuais sobre o assunto, eu comecei a me sentir apto a fazer e orçar projetos. Num desses, o representante do cliente me convidou para almoçar no Almanara da Rua Basílio da Gama, então o ponto alto da gastronomia árabe da Paulicéia. No meio do almoço, me propôs o seguinte: eu abateria 30% no orçamento do projeto e ficaria com 5% para mim. Pela segunda vez, indignado, fui obrigado a dizer “Passe bem” e deixar o sujeito falando sozinho no restaurante.

Nesse ínterim, a empresa havia contratado um engenheiro nissei, muito falante, experiente, que devia ganhar bem mais do que eu. Logo após, fomos ambos solicitados a elaborar um projeto importante. Gastei dois dias, ele fez em duas horas. Meu preço era 30% mais caro que o dele. Entusiasmadamente, a empresa contratou o projeto do japonês e eu passei a aguardar a hora de ser demitido. Resultado: o custo do projeto contratado revelou-se 30% mais caro e a empresa teve um baita prejuízo. O japonês foi demitido.

Eu, ao contrário, recebi do vice-presidente mundial da empresa, que logo após esteve no Brasil, um convite para ir ato contínuo para a Holanda, onde ficaria dois anos ganhando experiência, e mais três onde a empresa quisesse me enviar. Pedi 24 horas para decidir. Se aceitasse, possivelmente fosse em alguns anos o maior consultor em refrigeração industrial, caso voltasse ao Brasil, ganhando muito bem. No entanto, pesando os prós e contras, recusei, causando a ira do vice-presidente e a minha saída voluntária da empresa, rumo ao magistério e seus baixos salários. Decisão, entretanto, da qual jamais me arrependi.

Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da UNIP – Universidade Paulista e presidente da Academia Brasileira da Qualidade (ABQ) – politeleia@uol.com.br

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