Todos têm aptidão para liderar

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Ernesto Berg

Muito se fala sobre se a liderança pode ser aprendida, quem tem e quem não tem aptidão para ser líder, o que é um líder, quais suas características, e muitas outras questões que são dirigidas a mim nas palestras e cursos que ministro sobre esse tema. Os questionamentos têm certa razão de ser porque muita informação desencontrada existe a respeito e, em vez de elucidar, serve mais de pedra de tropeço do que de ajuda. Portanto, é hora de fazer três perguntas:

1 – Todos nós podemos ser líderes?

Muitos afirmam que a liderança é algo que já nasce com o indivíduo e quem não a possui não tem como adquiri-la. Essas pessoas tomam como exemplo grandes líderes carismáticos que existiram ao longo da história como Jesus Cristo, Júlio César, Napoleão, Lincoln, Gandhi, Nelson Mandela e outros semelhantes. É certo que líderes como esses são raros e não se formam em bancos escolares ou cursos de verão. Eles têm uma forte personalidade carismática que foge aos padrões usuais do comportamento humano. Prefiro deixar aos psicólogos, sociólogos e historiadores a tarefa de estudá-los e tentar explicá-los. Meu intuito é enfocar a liderança exclusivamente no âmbito das organizações. Sob essa ótica, todos podem tornar-se líderes, embora em graus diferentes.

2 – Liderança pode ser ensinada e aprendida?

Ao contrário do que se acreditava no passado, pesquisas minuciosas e a própria prática gerencial do dia a dia comprovaram que a liderança é passível de ser ensinada, adquirida e desenvolvida. Nesse processo o treinamento desempenha papel vital e insubstituível. No entanto, é preciso ressaltar que nem todos aprendem com a mesma facilidade, pois isso varia de pessoa a pessoa. Enquanto alguns assimilam rapidamente os conceitos e ideias sobre liderança, extraindo resultados práticos imediatos e duradouros, outros o fazem mais lentamente e de forma parcial, atingindo, com isso, resultados menores. Mas todos, sem exceção, terão uma real melhoria de desempenho de liderança em relação ao que eram antes, desde que sejam adotadas e seguidas as práticas apropriadas.

3 – E os líderes circunstanciais?

Existem pessoas que, por motivo do conhecimento que possuem ou de alguma habilidade especial, podem exercer uma liderança provisória. É o que aconteceu no metrô de Nova Iorque há alguns anos, quando a perna de uma mulher ficou presa entre a plataforma de embarque e o vagão do metrô, sujeita a ser decepada a qualquer momento pelo peso do vagão. Por requerer uma ação urgente, o desespero foi geral, pois ninguém sabia o que fazer. Naquele momento surgiu Patrick Kinsella, atendente de guichê da companhia de metrô. Ele mandou que todos, ao seu comando empurrassem para o lado oposto – ao mesmo tempo -, o vagão que prendia a perna da senhora. Assim, mais de uma centena de pessoas (entre eles engenheiros, executivos, donas de casa, professores, etc.) ao comando de Kinsella fizeram o incomum esforço de mover o vagão por apenas alguns centímetros, mas o suficiente para que algumas pessoas puxassem a perna da senhora e a livrasse de tê-la amputada pelo peso da enorme estrutura que a prendia. Num momento de crise, um pacato funcionário do metrô, foi o líder de mais de uma centena de pessoas porque sabia o que fazer na situação mais crucial, agrupando-as em um esforço conjunto. Terminado o processo, Kinsella saiu de cena, deixou de ser o comandante da operação, e voltou a ser novamente um cidadão comum. Esse é um exemplo de liderança circunstancial que todos nós, eventualmente, poderemos exercer, por termos alguma habilidade específica imprescindível num dado momento, independente de nossa posição social, cultura ou formação profissional.

As quatro características do líder

Estudos realizados pelos especilaistas Warren Bennis e Burt Nanus com quase cem líderes (homens e mulheres) dos mais variados campos de atividades, revelaram quatro características comuns a todos eles:

  1. Alta dose de criatividade. (Efeito Clio)

Clio era a musa da criatividade na mitologia grega. Líderes mostram grande capacidade criativa, enxergando ângulos e possibilidades muito além da condição habitual da maioria das pessoas.

  1. Grande capacidade de motivar pessoas e desenvolver-lhes o potencial. (Efeito Pigmaleão

Na mitologia grega Pigmaleão esculpiu uma estátua de mulher tão linda que, de tanto admirá-la, ele acabou se apaixonando por ela. Então a deusa Vênus acabou premiando Pigmaleão dando vida à estátua. Trazendo para o campo organizacional, o efeito Pigmaleão significa que as expectativas dos gestores afetam o desempenho dos subordinados, porque os chefes, inconscientemente, se comportam de acordo com as expectativas que têm na capacidade (ou não) dos liderados. Estes, por sua vez, acabam correspondendo a essa expectativa – positiva ou negativa -, devido ao tratamento que recebem do chefe.

  1. Considerável concentração em fazer o trabalho bem feito. (Efeito Wallenda)

Karl Wallenda foi um famoso equilibrista e artista de circo que costumava caminhar sobre um cabo de aço entre dois prédios, sem nenhuma proteção por baixo. Aos 73 anos de idade resolveu fazer sua última travessia entre dois prédios de 10 andares, na cidade de Porto Rico. Por infortúnio, ele despencou durante a apresentação e faleceu. Wallenda afirmava que não tinha medo de cair, porque concentrava-se ao máximo em fazer uma travessia perfeita na corda bamba. Em outras palavras, ele se concentrava em fazer o trabalho bem feito, em vez de se concentrar em não cair. Infelizmente, em Porto Rico, por ser sua última apresentação, Wallenda mostrou-se pela primeira vez receoso, e o seu pensamento predominante foi o de não cair, o que abalou sua confiança e propiciou a queda. Líderes focam sua atenção no trabalho bem feito, em vez de se preocuparem em não errar.

  1. Crença inabalável nos resultados positivos, sem receio de possíveis fracassos. (Efeito Fênix)

Ainda na mitologia grega, Fênix era um pássaro que morria por entrar em autocombustão, mas logo em seguida renascia das próprias cinzas, revitalizado. Líderes verdadeiros acreditam sempre no sucesso dos empreendimentos, mesmo que ocorram quedas e fracassos momentâneos pois, quando isso acontece, imediatamente se põem de pé e continuam o trajeto em direção aos objetivos fixados.

Riscos da liderança

De fato, liderança não é um trabalho fácil. Ela está carregada de demandas, complexidades, expectativas e ambiguidades que a maioria das pessoas não imagina que existam quando decide trilhar o caminho da liderança. Além disso, se você não tem a intenção de assumir riscos, a liderança não é para você. É impossível evitar riscos e, ao mesmo tempo, esperar que você progrida. O progresso sempre implica em enfrentar riscos.

Se quisermos ser líderes, devemos frequentemente nos perguntar: “Por que eu embarquei nessa de ser um líder, chefe, gerente, diretor (ou o que for)?” Se a resposta for: “Para preencher meus próprios interesses, ou para fazer meus sonhos se tornarem realidade”, então você pretende ser líder pelos motivos errados, porque está ali pelas recompensas, o que irá diminuir a sua importância como líder.

Acabará criando a cultura de que tudo – ou quase tudo – depende de você, e isso não é liderança, mas ilusão e autopromoção. A grande diferença entre verdadeiros líderes e falsos líderes, é que os verdadeiros líderes assumem um cargo não pelo que possam ganhar, mas pelo que possam dar. Pense nisso.

Ernesto Berg é consultor de empresas, professor, palestrante, articulista, autor de 15 livros, especialista em desenvolvimento organizacional, negociação, gestão do tempo, criatividade na tomada de decisão, administração de conflitos – berg@quebrandobarreiras.com.br

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