Por quanto tempo você quer o que você quer?

Roberto Camanho

Perenidade é uma palavra instigante. Quando pensada no âmbito do mundo corporativo, “perenidade” nos remete à ideia de uma empresa que resistirá ao tempo, terá continuidade e sustentação apesar das mudanças econômicas, sociais e organizacionais. Ao pensarmos em termos mais pessoais, temos outras variáveis como, por exemplo, o comportamento humano.

Inquieto, criativo e curioso, às vezes mais ousado, outras tantas, mais medroso. O fato é que o ser humano é complexo e nesse jogo de forças que trata secretamente entre o mental e o emocional, encontrar um ponto de equilíbrio é sempre um desafio.

Trabalhando ao lado de parceiros da minha mesma geração e observando quase que diariamente inúmeros alunos mais jovens e menos descompromissados do que eu, me surpreendo em notar o quanto os desejos andam perecíveis, o quanto as conquistas perdem rapidamente seu significado e seu efeito de realização, de “agora estou feliz”.

O que acontece, então? Nos tornamos uns eternos insatisfeitos? Perdemos a capacidade de escolher sozinhos nossos sonhos?

Ficamos perseguindo sonhos massificados e, por conta disso, eles não têm a mínima durabilidade? Espero que possamos descobrir o quanto antes que aquele vazio interno não será preenchido pelas visitas ao shopping, à concessionária de veículos ou na troca da mobília.

Nada contra o consumo, desde que consciente. E nossa conversa aqui é outra: da conquista de um conforto interno, sentir-se à vontade com quem somos.

Talvez nos falte sermos mais seletivos em nossos objetivos. Talvez nos falte mais propósito ao sonhar; entender melhor quem realmente somos, quais os nossos valores e gatilhos emocionais e motivacionais; qual a fronteira entre o “que eu quero” e o “que querem que eu queira”.

O tempo é precioso demais para investirmos anos em algo que vai nos satisfazer por poucos dias, não acham? Essa é uma pergunta importante para se fazer a si mesmo. E eu te pergunto: então, o que temos pra hoje? Vamos levantar todas as manhãs, arregaçar as mangas e lutar pelo quê?

Fique um pouco quietinho e se pergunte: quem de fato eu sou? Ou melhor, quem eu sou quando o expediente acaba e eu não sou mais o agente produtivo ligado a um CNPJ? E este ser, gosta do quê? O que quer da vida?

Se sua principal busca no momento é por uma renovação profissional ou de carreira, essas perguntas continuam válidas, porque você precisa ser feliz para fazer bem feito, seja lá o que for a que se propuser. E para um repaginar profissional, entram novas questões. Que competências eu tenho? Qual meu perfil profissional? Para que novos horizontes eu já estou pronto e que outros conhecimentos preciso adquirir para fazer a tal virada desejada?

Sim, porque um economista não se torna médico em um fim de semana. Alguém de 1,90 m de altura não conseguirá ser um jóquei. Aos 60 anos não é mais possível ser um acrobata do Cirque du Soleil. Então, sonhe muito, sonhe grande, mas dentro do mínimo da racionalidade.

Como, então, migrar da etapa sonho para a etapa de construir a realidade? Avalie criteriosamente se você tem condições de realizar o que está se propondo. Querer é poder, mas não é bem assim…é preciso querer o que se pode executar.

Quais as suas crenças? Quais seus valores? Que valores está disposto a corromper para conquistar um novo cargo ou posição? Com que ferramentas você conta para ir em busca do sucesso? E o que é o sucesso para você?

Longe de minha intenção apontar caminhos ou dar conselhos. Meu papel aqui é trazer ganchos para reflexão. E um deles é sobre a busca de um propósito.

Todo mundo tem uma vocação íntima para ajudar o outro, para construir algo relevante. Produzir algo só tem valor quando o fruto dessa produção impacta positivamente a vida de outros, na sociedade, na família, no meio em que se vive. O que você constrói ajuda a quem?

Dinheiro não é uma mola que se sustenta sozinha, precisa de outras engrenagens para funcionar. Só salário alto não mantém ninguém motivado a longo prazo.

Você precisa descobrir seus indicadores de sucesso para começar a construí-lo de forma consistente. Lembra da palavrinha que abrimos essa conversa? Perenidade!

Então, talvez já tenha passado da hora de entender o mundo por novos códigos de conduta. O ser humano precisa de novos valores. Um mundo “menos” Adam Smith e “mais” John Nash, creio eu.

Eu estou fazendo minha lição de casa. Meu exercício de me analisar crítica e constantemente. Seja seu próprio crítico. Com generosidade, por favor. Você tem valor. E muito. Mas sem autopiedade e vitimismo.

Roberto Camanho conduz decisões que envolvem orçamentos de bilhões de reais, participa de projetos de pesquisa em processos decisórios e publica trabalhos em congressos internacionais. No Brasil, é pioneiro na aplicação de metodologias de apoio a decisões estratégicas. Desde 1996, atua em empresas dos setores financeiro, aeroespacial, petroquímico, de energia, papel e celulose, mineração, de infraestrutura e agências governamentais – camanho@robertocamanho.com.br

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