A inhuma e o tuiuiú

Transpantaneira

Joaquim Maria Botelho

Ver não é um erro. O que acontece é que
nem todos os olhos aguentam: a cegueira
que aí nasce vem dos olhos, não da verdade.” (Erich Maria Remarque)

– Cambará é madeira pra canoa. Florida, fica verde, com flores amarelas. Aguapé dá flor roxa, fica mais bonito na época das chuvas. Mas boniteza, só, não adianta: o Pantanal, na cheia, é perigoso pro gado. No lugar onde o gado atravessa, pra ir pastar, precisa matar um boi e jogar ele pras piranhas. Enquanto elas comem aquele um, o resto da boiada atravessa sossegado. Pra jacaré nem não carece chuva, por­que ele fica muito tempo sem precisar beber água. Às vezes a água da cheia vaza muito depressa e o jacaré fica preso no lodo. E agüenta quietinho, até chover outra vez. Quando chega alguma onça perto, ele finge de morto. Se a onça tiver muita fome, come ele. Senão, cheira e vai embora. O pássaro mais bonito do Pantanal é o tuiuiú. Nunca anda de bando. Só um casal. O ninho deles, no alto das árvores, é tão forte que pode segurar um homem em pé dentro dele. Tem gente que mata jacaré e mata tuiuiú, mas de pura judiação. Não devia fazer isso não. O colhereiro tem o bico parecido com uma colher de pau. Fica cor-de-rosa porque come um caramujinho. Se deixar de comer o tal caramujo, fica branquinho outra vez, que nem a garça real. O cabeça-seca parece o colhereiro. Só que tem o bico preto e mergulha pra pescar, que nem o martim-pescador. O biguá é desajeitado e vive em bando. A sentinela do Pantanal é a inhuma, uma espécie de gavião grande, que grita alto e avisa os passarinhos quando chega algum perigo. Todo o mundo foge, mas ela fica e ataca os invasores. E é brava que só vendo!…

Erasmo conhece a Transpantaneira como a palma da mão. Sabe que, à noite, os animais buscam a estrada para aproveitar o calor acu­mulado durante o dia. E sabe que, à luz dos faróis do seu caminhão, se os reflexos nos olhos de animais na pista são amarelos, quem está na sua frente é um terno de capivaras, e portanto não é preciso se preocupar, porque capivara é bicho arisco e corre quando aparece gente. Mas se os reflexos são vermelhos, são olhos de jacaré, e é hora de diminuir a velocidade, porque esse é bicho lerdo, é bicho de barro, e não sai da frente. Jacaré não pode com luz direta nos olhos. Fica entregue, e os coureiros, que os caçam por causa do couro, se aproveitam disso: batem com um pedaço de pau na cabeça do jacaré bobo e ele mor­re. Coitado, porque jacaré não mexe com ninguém, só mesmo se tiver fome. O homem pantaneiro também é outro bicho de paz.

– “O pantaneiro é simples, mas é orgulhoso. não mexe com nin­guém, mas ai de quem quiser brigar com ele!… Sai com o rabo rodeado de bala!”

***

A Transpantaneira é um verdadeiro aterro elevado sobre o nível do Pantanal. São 147 quilômetros, de Poconé a Porto Jofre, com 126 pontes sobre o que se chama corixos. Corixos são as aberturas deixadas de propósito para que as águas trazidas pelos afluentes do Rio Paraguai encham o Pantanal e possam escoar, durante a vazante, sem prejudicar a estrada nem a natureza. Do contrário, a Transpantaneira atuaria como uma espécie de barragem, deixando que o outro lado virasse um deserto. Os ciclos de enchentes e vazantes, como se sabe, agem como elemento fertilizador da terra. Na região de Barão do Melgaço, por exemplo, assim que descem as águas, além do belo capim-mimoso que brota sozinho, a terra fica formidável para hortas de verduras e para a plantação de arroz e soja.

Erasmo estava acostumado a parar apenas no posto do IBDF, mais ou menos na metade da Transpantaneira. Uma vez, noite escura, a viagem estava demorando muito por conta do barro que a chuva tinha fabricado. Parou o caminhão e apagou as luzes, naquela noite, para não atrair mosquitos, e foi se aliviar na beira da estrada. Vieram uns coureiros, que estavam se reunindo ali perto para juntar seu macabro contrabando e o surpreenderam. Fizeram-no confessar até mesmo o que não sabia, es­fregaram a cara dele nas próprias fezes, bateram-lhe no corpo inteiro e depois, vendo que ele não era nenhum fiscal do IBDF nem policial, deram-lhe um tiro no peito e o deixaram ali, para morrer. Sua sorte foi a bala ter resvalado numa costela e mudado de direção, saindo do corpo antes de perfurar o pulmão. Isso foi em 1971. Erasmo ficou dois meses à morte, mas a força de pantaneiro o salvou, e ele ficou curado. Parou de viajar pela Transpantaneira, de desgosto. Mudou-se para os lados de Santo Antônio do Leverger e arranjou, com a venda do caminhão, um lugar para criar gado nelore. Virou ponteiro de suas boiadas, ganhou dinheiro mas, no peito, ainda carregava a marca da bala e o ódio aos coureiros.

***

– “O campeiro arrisca a vida todo dia. Uma rodada do cavalo no lodo do Pantanal, um azar com o laço – o laço tora um peão no meio! Ou um touro nelorado meio arretado. Uma vez um campeiro nosso, aquele lá de cabeça lambida, teve de enfrentar um touro penteado que vinha pra cima dele. Negaceou, tirou o corpo fora, e se livrou. O macho, desgo­vernado, bateu os guampos numa prancha de aroeira que rachou! Se pe­gava ele, esmigalhava todinho!”

Esse tal touro penteado, perdido e isolado por causa de uma das enchentes, se asselvajou, ficou feroz. Boi assim – que até onça respeita – recebe o nome de baguá. Termo que já deu até mote para a criação de um novo verbo no Pantanal: bagualear. Bagualear é trazer para o bret – o curral australiano, trazido para o Pantanal no começo do século – um boi refugão, na força do laço e da chincha. Pulquério, peão dos antigos, já falecido, era conhecido por gostar de aloitar com baguás. Mas de uma vez escapou de ficar nos guampos de um tirano des­ses.

De vida nova, Erasmo era competente no trabalho, mas não era feliz. Fez dinheiro, comprou fazenda, mas não se sentia satisfeito com coisa alguma. A falta de estradas era o seu problema mais sério. Umas terras, que comprou em Corumbá, lhe davam mais trabalho para alcançar do que propriamente para cuidar. O caminho de volta da fazenda era mais fácil do que o de ida, mas mesmo assim, pior que romaria: pegava um trem em Corumbá, percorria 413 quilômetros até Campo Grande, pegava um carro na estação, rodava mais 300 quilômetros e então chegava de volta a Leverger. Uma volta de mais de 700 quilômetros para chegar a uma fazenda que, em linha reta, não distava mais de 150 quilômetros do centro da cidade. O caminho alternativo era tomar um barco no Rio Cuiabá, levando um jipe. No Passo do Lontra desembarcar e atravessar o Pantanal. Tudo isso numas doze horas de viagem.

Erasmo costumava dizer que o seu jipe, para varar o Pantanal, tinha que ser forte como o pantaneiro, resistente como o gado nelore e valente como a inhuma.

O seu segundo problema era a falta de comunicação. Telefones, só existiam nas cidades. O artifício de que se valiam os fazendeiros e trabalhadores que desejavam se comunicar era o radiotransmissor. E, para os recados mais urgentes, que não podiam depender de horários preestabelecidos para contatos via rádio, a saída era mesmo o programa “Alô, Pantanal”, da Rádio Difusora, ou a “Hora do Fazendeiro”, da Rádio Educação Rural. Por uma pequena taxa, podia-se enviar uma mensagem a quem se desejasse alcançar, no programa das cinco da manhã, do meio-dia ou das oito da noite. Erasmo, em meio à sua tristeza, achava uma graça amarga nas mensagens pitorescas que as pessoas veiculavam, ainda que ciente da seriedade com que eram emitidas. “Alô, Pantanal. Miguel avisa que não pode ir para a Fazenda Santa Mônica hoje porque o cheque do patrão está sem fundos. Quem ouvir, favor avisar.” Outra: “Atenção, Fazenda Porto Alegre. Atenção, senhor Quintino. Seu capataz manda avi­sar que sua filha se perdeu com um marinheiro.” E ainda: “Alô, Panta­nal. Sebastião manda avisar ao Agripino, da Fazenda Laranjeiras, que sua mulher está passando mal no hospital e que seu pai já morreu. No mais, tudo bem.

***

A vida seguia seu curso até que, em 1974, começou a enchente. Foram sendo submersos os pastos e os bois se refugiando para onde ha­via ainda um pouco de terra firme. Da boiada que Erasmo conseguira amealhar ao longo dos seis anos de trabalho duro, muitas reses morre­ram, afogadas ou comidas de piranha, e outras fugiram para o mato, virando baguás. Vendeu a fazenda de Corumbá em 1980, sétimo ano consecutivo das enchentes. Mas outros cinco anos de cheias ainda estavam por vir. Erasmo, claro, não podia saber o que o futuro lhe traria, mas sete anos já eram mais do que suficientes para esgotar as suas economias. Tentou sobreviver com a fazenda de Santo Antônio do Leverger, mas a saúde ia se arruinando, e o dinheiro sumia. As coisas iam mesmo mal. Um dia, acabando de fechar um negócio perto de Miranda, na região de Nhecolândia, estava vendendo os seus últimos bois magros, com o coração apertado e sem saber mais o que faria. Um rádio, na casa de um dos colonos da fazenda, tocava o “Lamento Pantaneiro”, de Tom e Gil. A canção falava da divisão do Mato Grosso, da depredação do Pantanal, da deterioração da flora e da extinção da fauna. Erasmo era inteiro amargo, recebendo aquele dinheiro, moedas, trinta. Mas um anúncio, no rádio, o sacudiu. “Alô, Pantanal. Erasmo de Leverger, atenção. O João Coxé pede que volte para a fazenda assim que puder, de preferência hoje. Quem ouvir, favor avisar.”

A viagem de barco pareceu interminável. Que é que tinha dado no Coxé, seu capataz, para chamá-lo dessa maneira? Devia ser coisa grossa. O Coxé não era de brincar, não senhor

***

O coureiro se tocaiou atrás do paiol, perto da plantação de maxixe. Então é aí que mora aquele cachorro do safado do motorista… A gente devia ter olhado bem pra ver se o cuiabano estava morto mesmo, antes de fugir. Agora que precisamos embarcar os couros na voadeira, de Leverger para Barão do Melgaço, que é onde o aviãozinho do Gastão vem buscar, não podemos ter testemunhas por perto. Vai que esse pulha nos reconhece, e aí, adeus…

Dentro da casa, os outros dois tinham rendido o capataz, aproveitando a ausência de mais gente na fazenda. Fizeram-no fa­lar, à força de pau, para onde Erasmo tinha ido e como enviar uma men­sagem que o fizesse voltar depressa. Agora é só esperar e passar fogo nele assim que o demônio ponha os pés na casa.

As horas passavam, devagar. Os coureiros, bem armados, não tinham a menor preocupação. Estavam acostumados, de velho, a uma vida de perigo constante, pois eram odiados por todos os moradores do Pan­tanal. Naturalmente, já que eram homens de não hesitar em matar e mutilar. Ademais, também eles odiavam a todos. Odiavam os bichos que ma­tavam, os homens por quem eram perseguidos, os bandidos que lhes compravam a mercadoria. Odiavam a si mesmos, a luz, o dia. Eram homens da noite e da obscuridade. Homens sem moral e sem lar. Desde aquela noite perto de Porto Jofre, no entanto, a vida tinha ficado um pouco mais apertada. Tinham matado um motorista de caminhão mas, de manhã, quando passaram de novo por perto do mesmo lugar, não viram nem o corpo nem o veículo. Nunca souberam o que tinha acontecido. Mas sabiam que havia alguém, andando por aí, que podia denunciá-los quando menos esperavam.

Foi em Leverger que souberam da história do homem que tinha sido encontrado largado na Transpantaneira, se esvaindo em sangue, com o rosto coberto de fezes, quase morto. O fiscal do IBDF, voltando de uma expedição de registro dos locais de desova dos jacarés e de ninhais ainda não conhecidos, encontrara o homem e o trouxera para o hospital de Cuiabá. A história esclarecia, em parte, para os courei­ros, que fim tinha levado o homem que eles pensavam ter matado. Sa­bendo que ele vivia, era preciso agora descobrir onde, e acabar de vez com ele. E a hora tinha chegado.

Entardecia e a poeira vermelha refletia os últimos raios de sol. O céu parecia sangrar. Erasmo parou o jipe e desceu para abrir a porteira. O homem que viu, recostado atrás do curral, segurando uma escopeta, não era o João Coxé. Nem qualquer dos empregados. Tratou de voltar, depressa, para o jipe, e dar meia-volta, até a polícia. Entrou na delegacia com os olhos arregalados, gritando pelo tenente Lacerda.

***

“A polícia! Tem polícia lá fora!” O coureiro gritou e correu para a porta da frente. O tiro o pegou no estômago, jogando-o de costas para trás. Quando caiu, já estava morto. O homem de trás do paiol já estava preso e contara a trama toda.

Faltava apenas o terceiro, o que mantinha João Coxé prisioneiro, com um revólver na nuca. O cerco durou muito tempo, e o homem não se entregava. Erasmo suava. Não podia imaginar o que o homem, lá dentro, estaria fazendo ao amigo. Talvez já o tivesse matado… A idéia o fizera, por mais de uma vez, tentar correr casa adentro. Fora contido pelo tenente Lacerda, policial experimentado. “Espera, Erasmo. Mais hora menos hora ele sai…” Erasmo bufava, tremia. Com o pé, escavava o chão, buscando disfarçadamente uma pedra.

Foi de manhãzinha, depois de uma nova investida da polícia, que o coureiro, já ferido no braço, resolveu sair, empurrando à sua frente o refém. Coxé tinha esse apelido porque mancava de uma perna, resultado de infeliz marrada duma vaca, anos antes. Vinha andando com dificuldades, tendo o coureiro agarrado à sua cintura, com a arma lhe apontando o queixo. Os policiais não ousavam fazer nada, e aguardavam um momento de descuido para tentar o resgate. Erasmo suava. Odiava esse homem mais do que nunca. Ele acabara com a sua vida uma vez. E agora, não fosse o coureiro da tocaia ter pegado no sono, podiam ter conseguido. Além disso esse mardelazento ameaçava a vida de um pobre homem que não tinha nada que sofrer com a desgraça que era sua. De olhos fixos na dupla, que se arrastava para fora da casa, Erasmo espe­rava. Tinha ímpetos de se lançar sobre o coureiro e matá-lo a socos. Foi quando aconteceu.

Coxé tropeçou. Ao se inclinar para a frente, tentando recuperar o equilíbrio, fez o coureiro pensar que ia fugir. O bandido apertou o gatilho. A cabeça de Coxé, com o impacto da bala, foi para trás, num coice, acertando o rosto do outro. Foi um segundo, nem isso, mas Erasmo, que era quem estava mais perto, já estava em cima do coureiro. Por falta de arma, agarrara a pedra em que estivera mexendo. E foi com ela que bateu, cego pelas lágrimas e pelo ódio. Bateu muito, até sen­tir a mão aquecida do sangue e esfolada dos cacos de ossos. A polícia chegou e não deixou Erasmo continuar. Ele estava enlouquecido, e foi um custo segurá-lo.

***

O sol brilhava, agora, quente e forte. Um dia novo estava nas­cendo e uma nova existência, talvez, pudesse começar a partir daquele momento. O corpo de João Coxé tinha sido levado para a cidade e, na fazenda, apenas as manchas de sangue no chão evidenciavam o que acon­tecera ali. Erasmo soluçava, ajoelhado. Soluçava de alívio, de medo, de dor e ódio. Sua mão, sangrando, ainda segurava a enorme pepita de ouro que ele apanhara, para bater no coureiro.

joaquiimJoaquim Maria Botelho é jornalista e professor, mestre em literatura e crítica literária pela PUC/SP e especialista em jornalismo internacional pela Universidade de Wisconsin, EUA. Foi presidente da União Brasileira de Escritores (UBE) por três mandatos; atualmente preside o conselho da entidade. Seu livro mais recente é o romance “Costelas de Heitor Batalha”. (Fonte do texto: http://www.incomunidade.com/v35/art_bl.php?art=10)

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