A solução para a crise hídrica mais perto do que se imagina

VÍDEO EXPLICATIVO

Contaminantes químicos e suas medidas de controle – Disponível pela Internet

Avaliar criticamente, compreender e controlar contaminantes químicos em alimentos.

Sergio Werneck Filho

A crise hídrica que afeta quase 1.000 municípios brasileiros das regiões Nordeste e Sudeste é algo histórico que, certamente, deixará grandes lições. O tema tem sido o principal foco de discussões, tanto na esfera pública como privada.

Um ponto, porém, merece atenção. Até o momento, o grande enfoque está em como suprir a demanda diante dos baixíssimos índices dos reservatórios. Alternativas para trazer água de regiões cada vez mais distantes e, claro, a discussão em torno da recuperação dos mananciais norteia grande parte das preocupações.

Porém, a solução, não apenas para esta crise, mas para todo o sistema de abastecimento de grandes centros, não está somente nas alternativas para se obter novas fontes de água. Pelo contrário. O que precisamos é nos atentar à forma com que a água retorna ao sistema. Precisamos enxergar as regiões metropolitanas como grandes sistemas de reuso.

Para abastecer a Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, são necessários 80 metros cúbicos de água bruta por segundo. Sabe-se que grande parte deste volume (cerca de 20%) se perde no caminho. Ou seja, 1 em cada 5 litros de água captada não chega às residências, indústrias, escritórios ou comércios. Esta questão já é amplamente discutida e, para ser solucionada, requer investimentos na rede atual. Assim, precisamos focar na água que chega ao consumidor.

Quando entregue, a água é utilizada para diferentes fins, desde limpeza, higiene pessoal, consumo ou processos industriais. Mesmo utilizada em todos estes processos, ela não desaparece. Estima-se que, do total de água entregue, são consumidos ou evaporados apenas 11,2 metros cúbicos por segundo (20% da água entregue). E o restante? Qual é a destinação desta água? O que fazemos com ela?

O fato é que, se não se perde, não é consumida ou evaporada, esta água retorna ao sistema, seja como efluente ou como esgoto. Este volume representa quase 65% de toda água bruta que chega ao sistema de abastecimento.

O problema é que, apesar de ser um volume significativo, a capacidade de tratamento atual não é suficiente. A estrutura hoje consegue tratar apenas 18 metros cúbicos por segundo. Pelos nossos cálculos, o total de efluentes e esgoto que chega ao sistema é de 51 metros cúbicos por segundo.

Ou seja, 33 metros cúbicos por segundo de esgoto liberados na Região Metropolitana de São Paulo não são tratados. Se considerarmos os dados mensais, os números são ainda mais expressivos. Em 30 dias, estamos falando em 85,5 bilhões de litros que poderiam retornar ao sistema tratados.

Se, ao invés de buscarmos outras alternativas para abastecer o sistema, buscássemos formas eficazes de melhorar a qualidade da água que retorna aos rios e de reduzir as perdas iniciais das águas captadas, o cenário seria bem diferente. Ao reduzir as perdas de 20% para 10%, teríamos uma economia de 7 metros cúbicos por segundo.

Se além disso fossem feitos os investimentos necessários para dobrar a capacidade de tratamento de esgoto da região e ampliação da rede coletora, teríamos mais 18 metros cúbicos por segundo de insumo para reuso. Com estas três iniciativas (menos perdas, mais coleta e mais tratamento), mesmo ainda não conseguindo tratar 100% do esgoto que retorna aos rios, conseguiríamos um volume de 44 metros cúbicos por segundo, ou 114,0 bilhões de litros por mês, equivalente aos sistemas Cantareira e Alto Tiete somados.

A resposta para a crise hídrica atual e todos os possíveis desdobramentos futuros deve privilegiar o tratamento adequado do esgoto. A água precisa retornar com qualidade semelhante a que foi retirada.

Assim, muito mais do que buscar novas fontes, o que a Região Metropolitana de São Paulo –  e tantas outras – precisam é o controle da qualidade do descarte. Se cuidarmos de como devolvemos a água para os rios, vamos sofrer bem menos com a falta de chuvas e/ou problemas nos mananciais. A solução existe e é mais viável do que muitos podem imaginar.

Sérgio Werneck Filho é CEO da Nova Opersan.

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Qualidade da água em 111 rios do país

poluicaoUm levantamento com a medição da qualidade da água em 111 rios, córregos e lagos de cinco estados brasileiros e o Distrito Federal – o mais amplo até hoje coordenado pela Fundação SOS Mata Atlântica – revelou que 23,3% apresentam qualidade ruim ou péssima. Os dados foram coletados entre março de 2014 e fevereiro de 2015, em 301 pontos de coleta distribuídos em 45 municípios.

A análise inclui o monitoramento realizado em 25 rios da cidade de São Paulo e 12 da cidade do Rio de Janeiro. A situação é preocupante, visto que a poluição diminui ainda mais a oferta de água para consumo da população.

A lista completa de rios e pontos avaliados está disponível no link http://bit.ly/Agua2015. Dos resultados medidos, 186 pontos (61,8%) apresentaram qualidade da água considerada regular, 65 (21,6%) foram classificados como ruins e 5 (1,7%) apresentaram situação péssima.

Apenas 45 (15%) dos rios e mananciais mostraram boa qualidade – aqueles localizados em áreas protegidas e que contam com matas ciliares preservadas. Nenhum dos pontos analisados foi avaliado como ótimo.

No Estado de São Paulo, dos 117 pontos monitorados, 5 (4,3%) registraram qualidade de água boa; 61 (52,1%) foram avaliados com qualidade regular, enquanto que 46 (39,3%) estão em situação ruim e 5 (4,3%) péssima. Já entre os 175 pontos analisados nos municípios do Rio de Janeiro, 39 apresentaram água boa (22,3%), a maioria (120 pontos) está em situação regular (68,6%), e 16 tiveram índice ruim (9,1%).

Na cidade do Rio de Janeiro, os indicadores aferidos revelam uma piora na qualidade da água. Dos 15 pontos em que a coleta foi realizada na área urbana, somente 5 (33,3%) apresentaram qualidade regular e os outros 10 pontos (66,7%) registraram qualidade ruim. Em 2014, 9 pontos tinham qualidade regular (60%) e 6 ruim (40%). Nenhum dos pontos analisados apresentou qualidade boa ou ótima.

“Esses indicadores revelam a precária condição ambiental dos rios urbanos monitorados e, somados aos impactos da seca, reforçam a necessidade urgente de investimentos em saneamento básico. A falta da água na região sudeste é agravada pela indisponibilidade decorrente da poluição e não apenas da falta de chuvas. Rios enquadrados nos índices ruim e péssimo não podem ser utilizados para abastecimento humano e produção de alimentos, diminuindo bastante a oferta de água”, alerta Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da Fundação SOS Mata Atlântica.

Outros quatros estados tiveram rios e córregos analisados neste levantamento. Em Minas Gerais, o rio Jequitinhonha, na altura do município de Almenara, apresentou situação regular. Já o rio Mutum, na cidade de Mutum, e o córrego São José, em Bicas, estão em situação ruim.

No Rio Grande do Sul, foram analisados a Lagoa do Peixe (qualidade boa), Rio Tramandaí (regular) e Lago Guaíba, na altura da Barra do Ribeiro (ruim). Em Brasília, a análise de dois pontos do Córrego do Urubu apresentou qualidade regular. Já em Santa Catarina, o Rio Mãe Luiza, na cidade de Forquilhinha, está em situação regular.

Na comparação com os pontos coletados no levantamento anterior, realizado pela SOS Mata Atlântica no período de março de 2013 a fevereiro de 2014, a cidade do Rio de Janeiro, que teve 15 pontos analisados no último levantamento, apresentou aumento de amostras com qualidade ruim, de 40% para 66,7%. São Paulo, por outro lado, reduziu de 74,9% para 44,3% o número de pontos de coleta com qualidade ruim ou péssima, apresentando alta de 25% para 55,4% as amostras com qualidade regular ou boa.

 

Resultados – Cidade do RJ

IQA 2014

IQA 2015

ÓTIMA

0

0,0%

0

0,0%

BOA

0

0,0%

0

0,0%

REGULAR

9

60,0%

5

33,3%

RUIM

6

40,0%

10

66,7%

PÉSSIMA

0

0,0%

0

0,0%

TOTAL

15

100%

15

100%

 

Resultados – Cidade de SP

IQA 2014

IQA 2015

ÓTIMA

0

0,0%

0

0,0%

BOA

0

0,0%

1

2,7%

REGULAR

9

25,0%

19

52,7%

RUIM

23

63,8%

15

41,6%

PÉSSIMA

4

11,1%

1

2,7%

TOTAL

36

100%

36

100%

 

Segundo Malu Ribeiro, a seca em São Paulo diminui o escoamento de poluentes para os rios, refletindo na redução de pontos de coleta com qualidade ruim ou péssima: “A falta de chuvas na capital paulista teve um impacto positivo na qualidade da água dos córregos e rios urbanos que não receberam a chamada poluição difusa, responsável por cerca de 40% dos poluentes que contaminam os corpos hídricos após as chuvas que lavam as cidades. Com a seca, os pontos monitorados deixaram de receber resíduos sólidos ou lixo, sedimentos com solos contaminados, foligem de veículos e materiais particulados. Embora o volume de água tenha diminuído nesses rios durante os meses prolongados de seca, a coleta e o tratamento de esgotos nessas microbacias de São Paulo contribuíram para que a condição de qualidade da água passasse a ser melhor”, explicou.

Nos rios da capital carioca ocorreu o processo inverso, “devido à falta de investimentos em saneamento básico e ao aumento de resíduos sólidos descartados nas margens de rios e de esgotos, que se concentraram nos pontos de coleta dos rios com baixa vazão”, assinalou Malu. Segundo a coordenadora, as altas temperaturas na região também favoreceram a formação de algas que consomem o oxigênio da água, provocando aumento no odor e a rápida perda da qualidade, com agravamento da poluição.

Os municípios do Estado de São Paulo também tiveram melhora na qualidade dos rios analisados. Entre os 53 pontos de coleta em rios paulistas que foram analisados nos dois estudos, o percentual de amostras com qualidade regular subiu de 30,2% para 50,9%.

Malu Ribeiro esclareceu que, dependendo da qualidade da água, os rios podem ser melhor aproveitados pela população. “Os rios em São Paulo que registraram indicadores na faixa regular poderão ter o seu enquadramento, com base na legislação que trata da qualidade da água, fixado em rios de classe 3 e 2, cujas águas podem ser utilizadas para usos múltiplos. É isso que a sociedade espera conseguir conquistar para os rios urbanos: águas saudáveis. Isso ocorreu onde as populações se engajaram na conservação de pequenas faixas ciliares ou áreas verdes, no cuidado com a destinação correta de resíduos sólidos e na cobrança sistemática da coleta e tratamento de esgotos”.

A Fundação SOS Mata Atlântica acredita que, para enfrentar a crise da água e melhorar a qualidade de vida nas cidades, é essencial recuperar os rios urbanos com investimentos e avanços nos índices de tratamento de esgoto, gestão dos resíduos sólidos e recuperação das áreas de preservação permanente. “Um exemplo foi encontrado no monitoramento realizado: o indicador mais surpreendente foi registrado junto a uma nascente no bairro da Pompéia, em São Paulo, que melhorou a qualidade da água para boa após a comunidade ter promovido a recuperação do seu entorno”, finalizou Malu.

A coleta para o levantamento, que têm como base a legislação do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), é realizada por meio de um kit desenvolvido pelo programa Rede das Águas, da SOS Mata Atlântica, que possibilita uma metodologia para avaliação dos rios a partir de um total de 16 parâmetros, que incluem níveis de oxigênio, fósforo, o PH e aspecto visual. O kit classifica a qualidade das águas em cinco níveis de pontuação: péssimo (de 14 a 20 pontos), ruim (de 21 a 26 pontos), regular (de 27 a 35 pontos), bom (de 36 a 40 pontos) e ótimo (acima de 40 pontos).

A água nossa de cada dia

VÍDEO EXPLICATIVO

A Manutenção Autônoma – Disponível pela Internet

Como conscientizar e habilitar o operador a cuidar adequadamente do equipamento.

rio-tieteNo Brasil, as zonas rurais estão esvaziando enquanto que as cidades estão se tornando quase proibitivas para viver, pois, atualmente, 82% da população estão jogadas nas zonas urbanas. Com isto a poluição toma outro rumo: dos agrotóxicos à poluição por merda, lixo e urina, etc. nos rios urbanos. Para o poder político nada muda, pois saneamento básico não dá voto.

O brasileiro, em sua caminhada pelo país usando os rios como meio de locomoção, está transformando os rios em cloacas à céu aberto. Poluição, mudanças de rumo de alguns rios e o denominado progresso, aquele que é visto como forma única de enriquecimento monetário, são alguns dos itens que mais prejudicam o meio ambiente.

A cidade de São Paulo consome diariamente 250 milhões de litros de água por hora e, ao mesmo tempo, despeja, no poluído Tietê, quase 2 mil toneladas/dia de dejetos. Atualmente, São Paulo não possui recursos hídricos suficientes para suprir a população e o abastecimento é feito por recursos que vêm de fora do estado.

Minas Gerais sofre enchentes que são causadas pelo assoreamento dos rios. No Rio de Janeiro, apenas 40% dos esgotos recebem tratamento antes de serem jogados nos rios e na Baia da Guanabara.

A qualidade da água dos rios e represas brasileiros está longe do ideal. Dados do Indicadores de Desenvolvimento Sustentável (IDS), do IBGE, revelam quais bacias de água doce estão em situação mais crítica. Os Índice de Qualidade da Água (IQA) mais baixos são os dos altos cursos dos rios Tietê e Iguaçu, que atravessam, respectivamente, as regiões metropolitanas de São Paulo e Curitiba.

Rio Doce, Minas Gerais (10º lugar) – Com um percurso total de 853 km, drena os estados do Espírito Santo e Minas Gerais, sendo a mais importante bacia hidrográfica totalmente incluída na Região Sudeste. Sem controle ambiental, a contaminação química e urbana ameaça a saúde dos moradores das cidades às suas margens e a escassez de água nos afluentes agrava a cadeia de problemas.

Rio Paraiba do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro (9º lugar) – Formado pela confluência dos rios Paraitinga e Paraibuna, o rio nasce na Serra da Bocaina, no Estado de São Paulo, fazendo um percurso total de 1.120Km, até a foz em Atafona, no Rio. Pode-se citar como fontes poluidoras mais significativas as de origem industrial, doméstica e da agropecuária, além daquela decorrente de acidentes em sua bacia.

Rio Caí, Rio Grande do Sul (8º lugar) – A bacia hidrográfica do rio Caí equivale a 1,79% da área do estado do Rio Grande do Sul e possui municípios com atividade industrial bastante desenvolvida. Destacam-se os municípios de Caxias do Sul e Farroupilha, localizados na Serra, com indústrias de alto potencial poluidor, principalmente do ramo de metalurgia e metal – mecânica.

Rio Capibaribe, Pernambuco (7º lugar) – Nasce na serra de Jacarará, no município de Poção, em Pernambuco, e banha 42 cidades pernambucanas. O rio recebe carga de resíduos de uma população estimada em 430 mil habitantes em seu entorno. O crescimento urbano desordenado foi responsável pela deterioração dos recursos ambientais que circundavam o rio, comprometendo a qualidade de vida das populações ribeirinhas.

Rio das Velhas, Minas Gerais (6º lugar) – Com nascentes na cachoeira das Andorinhas, município de Ouro Preto (MG), é o maior afluente em extensão do rio São Francisco. A presença de arsênio, cianeto e chumbo reflete a interferência do diversificado parque industrial da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Rio Gravataí, Rio Grande do Sul (5º lugar)- Separa as cidades de Canoas e Porto Alegre. São apontados como motivos para a poluição o esgoto que é jogado no rio sem tratamento, os resíduos sólidos largados por comunidades que trabalham com reciclagem e criam porcos e a poluição gerada por empresas, notadamente de adubo e areia.

Rio dos Sinos, Rio Grande do Sul (4º lugar) – Repleto de curvas, o rio nasce nos morros do município de Caraá e percorre um percurso de cerca de 190 km, desembocando no delta do Jacuí. A alta carga poluente é proveniente de esgotos e indústrias, o que, além de provocar a mortandade de milhares de peixes, causa a proliferação de mosquitos.

Rio Ipojuca, Pernambuco (3º lugar) – Corta vários municípios de Pernambuco, inclusive nomeando um. O Ipojuca nasce em Arcoverde, no Sertão, e deságua em Suape, ao Sul do Grande Recife. O lixo e o esgoto, que são despejados no rio acabam aumentando os riscos de contaminação de doenças como leptospirose, casos de hepatite A e diarreia.

Rio Iguaçu, Paraná (2º lugar) – Segundo rio mais poluído do país, ele é o maior do estado do Paraná e faz divisa natural com Santa Catarina. Segundo biólogos, dois fatores podem explicar o elevado nível de poluição: passivo ambiental, presente há algumas décadas, com falta de investimento no saneamento ambiental, e o alto número de habitantes em volta do rio.

Rio Tietê, São Paulo (1º lugar) – Com 1.010 km², nasce em Salesópolis, na serra do Mar, e atravessa o estado de São Paulo, banhando 62 municípios. Ocupa o topo do ranking por receber o esgoto doméstico e industrial no trecho da capital – menos da metade dos moradores da bacia do Alto Tietê têm esgoto tratado. A mancha de poluição do rio que, na década de 1990, chegou a cem quilômetros, tem se reduzido gradualmente no decorrer das obras do projeto Tietê.

E o saneamento básico, como fica? Um estudo do Instituto Trata Brasil e do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável revelou que a parcela da população brasileira com acesso à coleta de esgoto passou de 40,6% para 48,7% entre 2009 e 2013. Nesse período, a população com acesso ao saneamento cresceu de 78,6 milhões de pessoas para 97,9 milhões de pessoas (aumento de 24,6%). A despeito dos avanços, o número de moradias sem acesso ainda é enorme e o desafio da universalização é cada vez maior.

Os resultados apontam para números alarmantes. No Brasil, ainda ocorrem cerca de 340 mil internações por doenças infecciosas associadas à falta de saneamento, com mais de 2 mil mortes (dados de 2013). O desdobramento econômico é imediato: além do gasto com a saúde, o trabalhador que adoece se afasta do trabalho, comprometendo sua produtividade.

As análises estatísticas realizadas evidenciaram que o acesso à rede geral de coleta de esgoto e à água tratada pode elevar a renda de um trabalhador em mais de 14%. No caso de crianças e adolescentes, a doença causa o afastamento da escola, com efeito expressivo sobre seu desempenho escolar.

Além desses fatos, o estudo identificou um efeito expressivo da falta de saneamento sobre as atividades econômicas que dependem de boas condições ambientais para seu exercício pleno. Do ponto de vista do mercado imobiliário, foi identificado que o acesso à rede geral de coleta de esgoto e à água tratada pode elevar o valor de um imóvel em até 16,7%.

No caso do turismo, uma das atividades para as quais a degradação ambiental é mais prejudicial, o estudo mostrou que o acesso ao saneamento tem impactos elevados, com ampliação das oportunidades de trabalho e da renda de empregados e empresários de hotéis, restaurantes, bares, etc. Em termos internacionais, o Brasil está muito atrasado na área de saneamento. Tanto a água tratada quanto a coleta e tratamento de esgoto estão muito distantes do acesso universal.

Isso implica prejuízos à qualidade de vida e à economia. E como a situação brasileira é particularmente mais grave no que diz respeito ao acesso à rede geral de coleta de esgoto, o impacto ambiental também é excessivamente elevado, o que deprime o valor dos ativos imobiliários e o potencial econômico de atividades que dependem de boas condições ambientais para o seu exercício pleno.

Os dados comparativos internacionais mais recentes colocam o Brasil na 112º posição num ranking dos 200 países. Essa colocação é, sem sombra de dúvidas, vergonhosa para a nação que é a 7ª maior economia do mundo.

O atraso relativo do Brasil na área de saneamento tem uma origem histórica distante. Há 50 anos apenas uma em cada três moradias estava ligada à rede geral de coleta de esgoto ou à rede fluvial.

Isso significa dizer que apenas 1/3 da população tinha o esgoto afastado de seu local de residência. No que respeita ao tratamento a situação era muito pior: do esgoto coletado, sequer 5% recebia algum tratamento antes do despejo no meio ambiente.

Enfim, em 2013, segundo informações do DataSus, foram notificadas mais de 340 mil internações por infecções gastrintestinais em todo o país. Cerca de 173 mil foram classificados pelos médicos como “diarreia e gastrenterite origem infecciosa presumível”, pouco mais de 4,6 mil casos como “amebíase, shiguelose ou cólera” e 162,7 mil, como “outras doenças infecciosas intestinais”. Metade desse total, ou seja, 170,7 mil internações, envolveu crianças e jovens até 14 anos, um grupo etário em que esse tipo de doença é particularmente perigoso.

O número de notificações é o menor dos últimos anos, indicando avanços no combate às doenças intestinais infecciosas. Foram quase 125 mil casos a menos do que o verificado em 2009, ano de referência da publicação anterior do Instituto Trata Brasil sobre o tema. Entre 2009 e 2013, o saneamento brasileiro apresentou avanços: estima-se que 19,3 milhões de pessoas passaram a ter acesso à rede geral de coleta de esgoto, elevando de 40,6% para 48,7% a parcela da população coberta pelo sistema.

Contudo, o volume de internações ainda é grande, assim como é pequena a parcela da população com acesso ao sistema de coleta. O que chama mais a atenção é o fato de que a maior parte dessas internações ocorreu justamente nas áreas com menor acesso ao esgotamento sanitário: Norte e Nordeste. No Norte do país, foram registradas 16,8% das internações, uma participação extremamente elevada considerando que apenas 8,5% dos brasileiros habita na região.

A taxa de incidência é de 3,37 casos por mil habitantes no ano, um valor duas vezes o da média nacional e seis vezes a incidência na região Sudeste. Vale destacar que no Norte está o déficit relativo de saneamento mais intenso do país: 93,2% das pessoas não tinham esgoto coletado em 2011 segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Saneamento(SNIS).

A represa Billings e a sua água problemática

Vídeo explicativo

Formação de Auditores Internos de Sistemas Integrados de Gestão (Qualidade, Meio Ambiente, Saúde, Segurança do Trabalho e Responsabilidade Social) – Disponível pela Internet

Capacitar os participantes a realizar auditorias compartilhadas do Sistema Integrado.

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Mapa Billings

Segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), a represa Billings deverá ser usada para abastecer parte da população que enfrenta a crise hídrica em São Paulo. O espelho d’água da Billings tem aproximadamente 100 km² e sua bacia hidrográfica estende-se por mais de 582 km², nos municípios de Ribeirão Pires, Diadema, Rio Grande da Serra, São Bernardo do Campo, Santo André e São Paulo. A represa surgiu em 1925 para gerar energia elétrica e movimentar as principais indústrias de São Paulo.

Atualmente, é responsável pelo abastecimento de 1,6 milhão de pessoas em Diadema, São Bernardo do Campo e parte de Santo André. A captação da água para tratamento é feita no braço Rio Grande e são produzidos 4,8 mil litros de água potável por segundo. Das seis cidades banhadas pelas águas da Billings, quatro são atendidas diretamente pela Sabesp com os serviços de distribuição de água e coleta de esgotos: São Paulo, São Bernardo do Campo, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.

Nos últimos anos, a empresa realizou ações para elevar os índices de coleta, afastamento e tratamento de esgoto no entorno da Billings, região em que moram atualmente cerca de 1 milhão de habitantes, melhorando as condições ambientais da represa e a qualidade de vida a população. O primeiro uso da Billings, na primeira metade do século 20, foi para armazenamento de água para geração de energia elétrica na Usina de Henry Borden, em Cubatão, na Baixada Santista. Mas, ao longo do tempo e com o crescimento de São Paulo, o uso prioritário passou a ser para o abastecimento da população nos moldes de hoje.

Ao todo, a Billings colabora com 7,7 metros cúbicos por segundo de água para atender 2,3 milhões de pessoas pelos sistemas Rio Grande e Guarapiranga. Isso corresponde a um terço do Cantareira ou metade do Alto Tietê. Na Baixada Santista, o rio Cubatão também usa água da represa para abastecer 250 mil pessoas, segundo a Sabesp.

A represa Billings tem capacidade para armazenar 1,2 trilhão de litros e é considerada o maior reservatório da região metropolitana de São Paulo, segundo a Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Em janeiro, o volume armazenado era cerca de 500 bilhões de litros. Para efeito de comparação, o terceiro volume morto do Cantareira tem 41 bilhões de litros. Apesar disso, ela não é considerada como um dos sistemas de abastecimento da Grande São Paulo e fornece água para complementar os sistemas.

Estima-se que a Billings teria capacidade para fornecer água a cerca de 4,5 milhões de pessoas, o que não ocorre devido à poluição e intensa ocupação irregular nas margens, segundo especialistas. A presença de contaminantes industriais é outra preocupação.

Esse reservatório foi usado por muito tempo para receber afluente industrial e o lodo no fundo da represa ainda tem uma concentração grande desses resíduos. A água da represa tem níveis diferentes de poluição.

Desde 1958, a Sabesp usa água de dois braços da represa: do Rio Grande retira 5,5 m³/segundo para atender Diadema, São Bernardo e parte de Santo André. Essa parte do manancial é considerada mais limpa e é isolada da parte mais poluída da Billings.

Do Rio Taquacetuba retira 2,19 m³/segundo. Esse trecho é mais contaminado porque está próximo à área de descarga da água dos rios Tietê e Pinheiros sem tratamento, e enviados para o Guarapiranga. Entretanto, nem toda a represa tem a mesma qualidade.

Alguns especialistas acreditam que as técnicas convencionais de limpeza da água usadas hoje em São Paulo não são suficientes para tratar esse tipo de contaminação. Mas, existem sistemas mais sofisticados, como o de membranas ultrafiltrantes com mais capacidade para reter impurezas, como alternativa.

A tecnologia denominada membranas ultrafiltrantes nos processos de tratamento faz parte de uma família mais ampla de membranas, entre as quais se pode destacar as de microfiltração, nanofiltração e osmose reversa. Essas membranas se diferem entre si pela porosidade. Ou seja, a capacidade de deter sólidos é a principal forma de classificar o tipo da membrana. As de ultrafiltração, por exemplo, são microporosas e capazes de separar sólidos de diâmetro entre 2 e 50nm. Já as de microfiltração retêm sólidos superiores a 50nm.

Existem diversos tipos de membranas de ultrafiltração, mas as mais usadas são as de fibra oca que, quando projetadas para fluxo de fora para dentro, deixam o iodo ativado do lado de fora, enquanto o permeado limpo passa através da membrana. A água limpa, então, sai pelas paredes da membrana.

A eficiência das membranas é amplamente comprovada, sendo que a qualidade da água ou do efluente tratado é altíssima. Por isso, as membranas também ajudam as empresas a cumprirem as exigências para os lançamentos de efluentes em corpos receptores e sistemas de coleta de esgotos sanitários.

Muito usada para o fracionamento de leite e proteínas, purificação de solvente e água, e tratamento de esgotos, a técnica é considerada uma das melhores do mercado para a remoção de sólidos em suspensão, bactérias, vírus e outros agentes. O problema é o seu custo, o que faz muitas empresas desistirem de implantá-la.

membrana

Além disso, os sistemas de ultrafiltração precisam ser associados a outros processos de tratamento, como a aeração. Ou seja, existem também os sistemas compostos por membranas biorreatoras (MBR), nos quais todo o tratamento de água e efluentes ocorre dentro do equipamento, diferente dos sistemas de ultrafiltração, que precisam ser completados por outros processos. Apesar de ambas as técnicas serem usadas para a mesma função – tratamento de líquidos – a aplicação, porém, é diferente.

A MBR tem sido usada para o pré-tratamento de água do mar. O permeado, por sua vez, é encaminhado para o processo de osmose inversa, ocasião em que a água adquire condições para consumo. Os técnicos dizem que esse processo é recomendado para as companhias que fazem muito reuso de água. Para quem quer um efluente de qualidade superior ou possui pequeno espaço para implantar um sistema, é a melhor alternativa.

Enfim, as membranas acabam substituindo ou eliminando uma etapa de filtros para polimento e, apesar de exigir um investimento financeiro maior, os benefícios em longo prazo compensam. Ao se analisar o investimento e a operação, a vantagem é maior. Muita gente não leva em consideração a área ocupada pelos sistemas convencionais e o pequeno espaço exigido pelo de membranas ultrafiltrantes. A manutenção dos sistemas de membranas de ultrafiltração também é simples, porque tem uma limpeza química.

A Sabesp ainda não definiu como será ampliado o tratamento com o aumento da vazão da Billings, mas o sistema de membranas já é usado pela empresa e deve ser implantado nas estações de reuso de esgoto, as EPARs. O resultado, segundo o superintendente de tratamento de esgotos da RMSP Roberval Tavares de Souza, é uma água absolutamente limpa e sem nenhuma impureza.

Apesar da indicação do uso de membranas ultrafiltrantes, a Sabesp não deixa claro como o tratamento da água será adaptado para o aumento da vazão nos sistemas Guarapiranga e Alto Tietê. O governador disse que serão instalados contêineres para a filtragem com membranas, mas o material precisa ser importado porque não há fabricação no Brasil.

A Sabesp diz que essa tecnologia produz água com muito mais rapidez e que precisa de um espaço físico menor. O tratamento, que levaria pelo menos duas horas, ocorre em 20 a 30 minutos, funcionamento automatizado e com menos produtos químicos.

A obra de interligação do Rio Pequeno ao Sistema Rio Grande, ambos braços da Billings, permitiria a entrada de 2,2 m³/s, atendendo a áreas que dependiam do Cantareira. Para alguns técnicos, avançar no uso da Billings como um manancial de abastecimento seria uma solução mais sustentável de cuidado com a água. Ou seja, recuperar uma represa que já existe, usar uma fonte de água ao lado da cidade e não gastar bilhões para construir novas represas em locais distantes e que, não necessariamente, trarão os mesmos resultados no tempo que se precisa.

Os técnicos sugerem, como primeira mudança para permitir o uso da Billings para abastecimento, que a água do Rio Pinheiro deixe de ser bombeada para a represa. Porém, isso não é coisa simples, porque precisaria estar integrado com a questão da drenagem e das enchentes, mas não é impossível, já que a represa tem características que facilitam sua recuperação, como a grande extensão (106,6 km²).

Dicas práticas para economizar água

Vídeo explicativo

Apresentando os novos requisitos e as alterações para a ISO 9001:2015 – Disponível pela Internet

Tem sido verificado em todo o mundo, nos últimos anos, um significativo aumento no interesse pelo desenvolvimento de Sistemas de Gestão “integrados”

No Brasil, o consumo de água pelas pessoas pode chegar a mais de 220 litros por dia. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), para preservação do recurso natural, o comportamento adequado seria utilizar 110 litros a cada 24 horas. A GfK Brasil, empresa especializada em pesquisa, em conjunto com o Instituto Akatu, organização não governamental que trabalha a conscientização para o consumo consciente, divulgou pesquisa mostrando que, em 2006, 75% das pessoas costumavam desligar a torneira para escovar os dentes. Em 2012, este dado caiu para 67%.

De acordo com Roberta Baptista Rodrigues, docente do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária da Anhembi Morumbi, integrante da rede internacional de universidades Laureate, a população tem a falsa sensação de que a água é um recurso infinito. “Tanto nos grandes centros como nas regiões mais remotas é fácil encontrar pessoas lavando calçadas, ao invés de utilizar a vassoura, assim como lavando carros com mangueira ao invés de utilizar o balde. É importante conscientizar a população de que água é um recursos natural escasso e que se não utilizar com consciência irá faltar”, alerta.

Confira as dicas práticas para o consumo racional da água, listadas pela especialista:

Na cozinha

Use máquina de lavar louça ou ensaboe a louça com a torneira fechada.

Área de serviço

Reaproveite a água de enxague da máquina de lavar para lavagem de pisos, quintal e demais ambientes.

Jardim e piscina

Regue as plantas após as 18 horas, isso ajuda a diminuir a taxa de evaporação e as plantas assimilam melhor a água.

Calçada e carro

Usar água de chuva ou reuso para lavagem da calçada, dos veículos e da garagem.

O desmatamento na Amazônia influencia o nível de chuvas no Brasil

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A falta de água no Sudeste pode estar relacionada com o desmatamento na Amazônia. Assinado por Antonio Donato Nobre, o relatório O Futuro Climático da Amazônia fez uma revisão e síntese da literatura científica, articulada com análises interpretativas das questões mais importantes relacionadas ao assunto. Sem perder o foco na ciência, trata dos temas com linguagem acessível e aspiração holística, isto é, busca ligar fontes e muitas análises de especialistas em uma imagem coerente do ecossistema amazônico.

Suas linhas mestras são o potencial climático da grande floresta – fator critico para todas sociedades humanas –, sua destruição com o desmatamento e o fogo e o que precisa ser feito para frear o trem desgovernado em que se transformaram os efeitos da ocupação humana sobre o clima em áreas de floresta. Deve-se saber a potência climática da floresta. Quanta energia do Sol é consumida para evaporar 20 trilhões de litros de água ao dia? Para dar uma noção da grandeza de energia envolvida na transpiração amazônica, basta fazer uma comparação com as hidrelétricas.

Evaporar um grama de água líquida consome 2,3 quilojoules de energia solar. Para converter isso em energia hidráulica/elétrica, imagine uma chaleira gigante que comporte esse volume d’água, daquelas que se liga na tomada elétrica. Quanta eletricidade seria necessária para ferver e evaporar toda essa água?

A usina de Itaipu, com 14 mil MW de potência, precisaria gerar eletricidade em sua capacidade máxima por 145 anos para que a chaleira evaporasse a água equivalente àquela transpirada em apenas um dia amazônico. Ou, para rivalizar com as árvores amazônicas e fazer o trabalho em um dia, seria preciso somar a eletricidade de 50 mil usinas hidrelétricas como Itaipu (ou 200 mil como Belo Monte).

Esta comparação deixa claro que, diante da potência climática da floresta, as maiores estruturas humanas se mostram microscópicas. Como se pode entender a circulação da água pela paisagem? A água irriga e drena os solos de forma análoga ao sangue, que irriga e drena os tecidos do corpo. Se os familiares rios são análogos às veias, que drenam a água usada e a retornam para a origem no oceano, onde ficam as artérias do sistema natural?

São os rios aéreos, que trazem a água fresca, renovada na evaporação do oceano. Para completar o sistema circulatório faltava somente o coração, a bomba que impulsiona os fluxos nas artérias aéreas. A teoria da bomba biótica veio explicar que a potência que propele os ventos canalizados nos rios aéreos deve ser atribuída à grande floresta, que funciona, então, como coração do ciclo hidrológico.

clima1O estudo revela alguns segredos. O primeiro é que a floresta mantém úmido o ar em movimento, o que leva chuvas para áreas continente adentro, distantes dos oceanos. Isso se dá pela capacidade inata das árvores de transferir grandes volumes de água do solo para a atmosfera através da transpiração.

O segundo segredo é a formação de chuvas abundantes em ar limpo. As árvores emitem substâncias voláteis precursoras de sementes de condensação do vapor d’água, cuja eficiência na nucleação de nuvens resulta em chuvas fartas e benignas.

O terceiro segredo é a sobrevivência da floresta Amazônica a cataclismos climáticos e sua formidável competência em sustentar um ciclo hidrológico benéfico, mesmo em condições externas desfavoráveis. Segundo a nova teoria da bomba biótica, a transpiração abundante das árvores, junto com uma condensação fortíssima na formação das nuvens e chuvas – condensação essa maior que aquela nos oceanos contíguos –, leva a um rebaixamento da pressão atmosférica sobre a floresta, que suga o ar úmido sobre o oceano para dentro do continente, mantendo as chuvas em quaisquer circunstâncias.

O quarto segredo indica a razão de a porção meridional da América do Sul, a leste dos Andes, não ser desértica, como áreas na mesma latitude, a oeste dos Andes e em outros continentes. A floresta amazônica não somente mantém o ar úmido para si mesma, mas exporta rios aéreos de vapor que, transportam a água para as chuvas fartas que irrigam regiões distantes no verão hemisférico.

O quinto segredo desvendado é o motivo pelo qual a região amazônica e oceanos próximos não fomentam a ocorrência de fenômenos atmosféricos como furacões e outros eventos climáticos extremos. A atenuação da violência atmosférica tem explicação no efeito dosador, distribuidor e dissipador da energia nos ventos, exercido pelo rugoso dossel florestal, e da aceleração lateral de larga escala dos ventos na baixa atmosfera, promovida pela bomba biótica, o que impede a organização de furacões e similares. A condensação espacialmente uniforme sobre o dossel florestal impede concentração de energia dos ventos em vórtices destrutivos, enquanto o esgotamento de umidade atmosférica pela remoção lateral de cima do oceano, priva as tempestades do seu alimento energético (vapor de água) nas regiões oceânicas adjacentes a grandes florestas.

clima2Todos esses efeitos em conjunto fazem da majestosa floresta Amazônica a melhor e mais valiosa parceira de todas as atividades humanas que requerem chuva na medida certa, um clima ameno e proteção de eventos extremos. Houve um desmatamento acumulado de 762.979 km². Esse valor é maior que a soma das áreas de três estados de São Paulo, ou que as áreas somadas de duas Alemanhas ou de dois Japões. Uma unidade de área mais próxima do brasileiro, o campo de futebol (4.136 m²), dá uma noção da magnitude da devastação: 184 milhões de unidades – quase um campo de futebol desmatado na Amazônia para cada brasileiro.

Colocado na perspectiva temporal, teriam sido, em média, 12.635 campos desmatados por dia; 526 campos por hora; 8,8 campos – ou 36.291 m² por minuto; 605 m² por segundo, ininterruptamente, nos últimos 40 anos. Para caber na compreensão o gigantismo destes números é preciso estender a imaginação para além destas analogias. Um trator ficcional, operando uma lâmina frontal com 3 m de largura, precisaria acelerar quase à velocidade de um avião a jato (726 km/h) para desmatar a área raspada na Amazônia no ritmo registrado do espaço, em imagens.

Como um trator desmata muito mais lentamente (0,24 – 0,36 ha/h66, ou ~0,8 km/h se essa área estivesse contida em uma faixa com 3 m de largura), com a mesma lâmina de 3 m, seriam necessários mais de 900 tratores simultaneamente derrubando a floresta, lado a lado, formando uma frente destrutiva com quase 3 km de largura. Uma comparação ainda mais impressionante é uma “estrada de desmatamento,” com 2 km de largura, que daria para cobrir a distância da Terra até a Lua (380 mil km).

Além disso, a falta de chuva é uma ameaça mortal para a Amazônia. Em 2000, Peter Cox e colaboradores do Hadley Center publicaram um impactante artigo na revista Nature. Pela primeira vez haviam unido um modelo geral de circulação da atmosfera com um modelo interativo de vegetação em que o ciclo do carbono era bem detalhado. Entre os resultados, o modelo projetava uma redução acentuada, progressiva e permanente da chuva na Amazônia, o que levaria à sua morte gradual.

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Com a floresta seca, entraria o fogo e seriam liberadas vastas quantidades de carbono, o que resultaria em piora acentuada do aquecimento global. Ou seja, pela primeira vez um modelo climático gerava um vaticínio terrível para a grande floresta. Catorze anos depois, o novo modelo do Hadley Center está similar aos demais. Já não suprime a floresta por efeito externo como antes. Não obstante, os efeitos do modelo original do Hadley Center afetavam a floresta pela redução de chuvas, como decorrência do excesso de CO2 na atmosfera e seu resultante aquecimento.

Mas os erros na previsão de chuvas podem ocorrer nos modelos climáticos. E é justamente na redução de chuvas que está a maior ameaça à floresta. Se esses modelos não preveem corretamente a redução de chuvas, não colocarão a floresta em perigo. Como nenhum modelo climático atual incorpora os mecanismos e os efeitos previstos pela teoria da bomba biótica de umidade, principalmente nos potenciais efeitos das mudanças na circulação do vento (convergência de grande escala suprimida sobre a terra seca), suas projeções podem ser incertas.

Pode-se vir a descobrir no futuro que o modelo original do Hadley Center foi o único a prever – talvez não pelas razões certas– o futuro climático da Amazônia. Estima-se que o bioma amazônico tenha sustentado 400 ou mais bilhões de árvores com diâmetro à altura do peito, acima de 10 cm. Distribuindo essa população de árvores por área, infere-se que o desmatamento corte raso tenha destruído, somente no Brasil, mais de 42 bilhões de árvores nos últimos 40 anos.

Enfileirados e considerando uma altura média de 15 m, os troncos destas árvores cobririam 635 milhões de km, ou quase 1700 vezes a distância Terra Lua. Esse ritmo de destruição significa mais de 1 bilhão de árvores cortadas ao ano; quase 3 milhões ao dia; mais de 120 mil por hora; mais de 2000 por minuto; e 34 por segundo!

E isso sem contar um número talvez ainda maior das árvores decepadas nas chamadas florestas degradadas. Nestas quatro décadas foram destruídas quase 6 árvores por cada habitante da Terra, mais de 200 por cada brasileiro. São essas árvores ausentes que são percebidas pelo clima, já que cada árvore dizimada representa, entre muitos serviços ceifados, menor evaporação da superfície.

O relatório continua com a descrição dos efeitos do desmatamento e do fogo sobre o clima: a devastação da floresta oceano verde gera um clima dramaticamente inóspito. Os modelos climáticos anteciparam, há mais de 20 anos, variados efeitos danosos do desmatamento sobre o clima, já confirmados por observações. Entre eles estão a redução drástica da transpiração, a modificação na dinâmica de nuvens e chuvas e o prolongamento da estação seca. Outros efeitos não previstos, como o dano por fumaça e fuligem à dinâmica de chuvas, mesmo sobre áreas de floresta não perturbada, também estão sendo observados.

O dano do desmatamento, assim como os danos do fogo, da fumaça e da fuligem, ao clima, são candentemente evidentes nas observações cientificas de campo. As análises baseadas em modelos atualizados e em nova teoria física projetam um futuro ainda pior. Emerge como fator principal a afetar o clima a grave extensão acumulada do desmatamento amazônico, até 2013 no Brasil em quase 763.000 km² (área equivalente a 184 milhões de campos de futebol ou três estados de São Paulo).

Tal superfície precisa ainda ser somada à fração de impacto da extensão acumulada da menos falada e menos estudada degradação florestal (estimada em mais de 1,2 milhão de km²). O relatório prossegue relacionando os dois itens anteriores, floresta oceano verde e desmatamento, no contexto temporal mais estendido: o equilíbrio vegetação clima, que balança na beira do abismo.

Os modelos climáticos ligados interativamente a modelos de vegetação exploram quais são as extensões de tipos de vegetação e as condições climáticas capazes de gerar estáveis equilíbrios vegetação clima. Para a Amazônia, esses modelos projetam a possibilidade de dois pontos possíveis e alternativos de equilíbrio: um que favorece a floresta (úmido, atual para a bacia amazônica e histórico) e outro que favorece a savana (mais seco, atual para o Cerrado, futuro para a bacia amazônica).

O ponto preocupante desses exercícios de modelagem é a indicação de que aproximadamente 40% de remoção da floresta oceano verde poderá deflagrar a transição de larga escala para o equilíbrio da savana, liquidando, com o tempo, até as florestas que não tenham sido desmatadas. O desmatamento por corte raso atual beira os 20% da cobertura original na Amazônia brasileira, e a degradação florestal, estima-se, já teria perturbado a floresta remanescente em variados graus, afetando adicionalmente mais de 20% da cobertura original.

A seção final do relatório recomenda um plano de mitigação baseado na reversão radical tanto dos danos passados quanto a das expectativas de danos futuros: um esforço de guerra. As florestas da Amazônia são essenciais para a manutenção do clima, e com ele a segurança das gerações futuras. Felizmente, os avanços nas ciências fazem desta guerra um desafio que pode ser bem sucedido.

Apesar da dificuldade em separar precisamente os efeitos de fundo das mudanças climáticas globais daquelas locais e regionais, não resta a menor dúvida de que os impactos do desmatamento, da degradação florestal e dos efeitos associados já afetam o clima próximo e distante da Amazônia. Já afetam em alto grau hoje em dia e prometem afetar ainda mais seriamente no futuro, a ponto de que a única opção responsável que se coloca é agir vigorosamente no combate às causas.

Como primeira ação, impõe-se a universalização e facilitação de acesso às descobertas científicas, que podem reduzir a pressão da principal causa do desmatamento: a ignorância. Em segundo lugar, é preciso estancar a sangria da floresta, ou seja, zerar o desmatamento, a degradação florestal e o fogo já, com todos e quaisquer recursos e meios éticos possíveis, no interesse da vida. Ao mesmo tempo, em vista do diagnóstico de que desmatamento e degradação acumulados constituem-se no mais grave fator de dano ao clima, torna-se necessário e inevitável desenvolver um amplo esforço para replantar e restaurar a floresta destruída. Tal esforço precisa ter perspectiva de médio e longo prazos para culminar com a regeneração da floresta oceano verde original.

Diante disso, as elites governantes podem, devem e precisam tomar a dianteira na orquestração da grande mobilização de pessoas, recursos e estratégias que possibilitem recuperar o tempo perdido. Na conclusão, ao apontar para a urgência de ações de proteção e restauro da grande floresta, acena com oportunidades reais na viabilidade de se trilhar um novo caminho, onde a floresta protegida e recomposta seja a principal aliada das atividades humanas, dentro e fora da Amazônia.

O autor conclui escrevendo que, na grande floresta da Amazônia, a Terra guarda um de seus mais espetaculares tesouros: a profusão de vida que inala gás carbônico e exala oxigênio, transpira água, emite odores mágicos, remove gases tóxicos, pulsa e regula, umedece e faz chover, propele ventos e alimenta rios aéreos, acalmando a fúria dos elementos, tornando amigo o clima próximo e também o mais distante. As sociedades abrigadas sob seu hálito doador de vida têm nela um cordão umbilical que sustém suas economias e lhes dá bem estar.

Por tudo isso, é necessário, desejável, viável e até lucrativo alterar o modus operandi da ocupação humana na Amazônia. Há muitas alternativas para reviver a competência de convívio respeitoso com a floresta das civilizações ancestrais. Embora as ações de salvação propostas sejam todas requeridas para lograr o restabelecimento funcional da regulação climática pela floresta, a novidade está em enfrentar o passivo de desmatamento com reflorestamento e restauração ecológica.

“Há muitas e excelentes alternativas para reviver a competência de convívio respeitoso (e tecnológico) com a floresta das civilizações ancestrais. O esforço de guerra contra a ignorância e pela consciência da necessidade vital das florestas é a melhor estratégia para harmonizar a sociedade – começando pelos governantes – em torno do objetivo comum de recuperar o tempo perdido, criando chances reais de evitarmos o pior dos desastres climáticos. Entretanto, se a despeito da montanha de evidências científicas ainda não formos capazes de agir, ou se formos lentos demais, então é provável que tenhamos de lidar com prejuízos incompreensíveis para quem sempre teve sombra e água fresca providos graciosamente pela grande floresta”.

Impactos sociais e ambientais das olarias

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olariaNo Brasil, é muito comum quando há um crescimento demográfico muito grande em uma região existir em paralelo a necessidade de ampliação do sistema de produção que fornece os mais diversos itens que são utilizados nas construções civis e urbanização. Assim, surge a demanda de telhas e tijolos para suprir a necessidade do mercado. Uma vez identificada a demanda se torna necessária a maior oferta de produtos deste gênero, a fabricação destes materiais se dá em um local chamado olaria.

Os especialistas definem as olarias como empreendimentos que se baseiam na argila como matéria-prima e elas podem causar diversos tipos de danos ao meio ambiente, pois no processo de extração da argila, beneficiamento e produção dos tijolos, cerâmicas e afins, são realizadas diversas ações que podem causar impactos ambientais ao meio e a sociedade.

A argila pode ser definida como um material terroso, de granulação muito fina, que adquire plasticidade, quando umedecida com água. Mineralogicamente é composta por caulinita/haloisita, illita e montmorilonita, enquanto as impurezas presentes, às vezes úteis,são quartzo, mica, feldspato, óxido de ferro, carbonatos e matéria orgânica.

É proveniente da decomposição de rochas ígneas primárias, tais como granitos, feldspatos e pegmatitos, que se formam através da ação química da água, do óxido de carbono, dos ácidos húmicos e raramente dos gases de enxofre, flúor, auxiliados por temperaturas elevadas. Apresentam cores e tonalidades variadas, predominando do cinza-médio a escuro, além das tonalidades esverdeadas, amareladas, avermelhadas e amarronzadas. As argilas podem ocorrer em quase todo o mundo.

Podem ser encontradas argilas residuais na Grã-Bretanha, nos EUA, na China e no Brasil, enquanto que as argilas sedimentares podem ser encontradas nos EUA; já as argilas do tipo ball clay são mais encontradas nos EUA, Inglaterra, Alemanha e Brasil. Podem ser distribuídas em plásticas (queima branca ou clara) e fundentes (queima vermelha). As argilas plásticas são compostas de caulinita e outros argilo-minerais subordinados (illita e esmectita), com variável conteúdo de quartzo, feldspato, micas e matéria orgânica; na composição da massa, fornecem plasticidade, trabalhabilidade, resistência mecânica e refratariedade.

Deve-se dizer que se considera impacto ambiental qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que direta ou indiretamente, afetam: a saúde, a segurança e o bem estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; e a qualidade dos recursos ambientais. Em consequência, entre os diversos impactos acarretados devido às atividades das olarias está a extração indiscriminada de argila.

Essa atividade de extração desenvolvida no Brasil está voltada principalmente para a produção de matérias primas para a construção civil. Geralmente no processo de extração da argila, a cobertura vegetal é totalmente retirada e usada como lenha na queima dos produtos. Na medida em que o solo vai sendo retirado, o lençol freático torna- se mais vulnerável, facilitando assim, a contaminação das águas subterrâneas, caso ocorram derramamentos de óleo ou derivados provenientes das máquinas que atuam no local.

Os principais impactos ambientais encontrados foram o desmatamento das áreas de extração, as cavas no solo, e a poluição do ar decorrente da queima dos tijolos e de segurança dos trabalhadores. Um outro impacto ambiental bem relevante, é relacionada a vida útil da reserva de argila explorada e sua durabilidade, pois se sabe que sua exploração é feita sem qualquer estudo prévio, afetando sua vida útil, e todo ecossistema envolvido.

Já no beneficiamento da argila há o processo de queima dos tijolos, que é realizado em fornos construídos de maneira artesanal, utilizando-se sobras de madeiras advindas de áreas rurais provenientes de derrubadas para posterior formação de pastagens. Visto que, essa madeira é legalmente proibida, pois não possui autorização de nenhum órgão ambiental do município para sua utilização.

Além do impacto de desmatamentos encontrado, em relação à queima, é relevante relatar sobre a poluição do ar proveniente da fumaça que é liberada livremente na atmosfera, devido ao processo de queima dos tijolos, logo, o empreendimento localiza-se em uma área praticamente urbanizada, comprometendo assim a qualidade do ar dos moradores ao entorno. Ou seja, além dos desequilíbrios sociais e econômicos na região onde se localiza a olaria estudada, ocorre um desequilíbrio ecológico.

Para a fabricação dos tijolos, os oleiros desmatam, consomem lenha como fonte de energia, contribuem para a poluição da atmosfera, da água e do lençol freático, prejudicando o ciclo natural do escoamento dos sedimentos (areia, argila, silte) para os rios, acúmulo de lixo , além da possibilidade de esgotamento da jazida. Caracterizada pela falta de equipamentos de alto porte tecnológico, más condições de segurança do trabalho, a mineração artesanal está presente no cotidiano da sociedade brasileira, constituíndo-se em uma atividade com vulnerabilidade ambiental, social e econômica.

Soma-se a tudo isso o problema social. Por exemplo, uma operação feita pela polícia ambiental em olarias da região de José Bonifácio (SP), dois adolescentes de 16 anos faziam parte do quadro de operários – um deles, registrado – o que é proibido para esse tipo de profissão. Quatro olarias foram interditadas. Suspeitas de irregularidades foram confirmadas no local, como o uso de materiais tóxicos e a falta de equipamentos de segurança. Cerca de 30 pessoas sobrevivem do trabalho sem nenhum tipo de equipamento de segurança, como luvas, botas ou máscaras e também sem registro em carteira.

Além dos problemas com os operários, as equipes também constataram crimes ao meio ambiente. Fiscais da Cetesb encontraram óleo lubrificante usado em vários tambores. O produto estava sendo aproveitado na etapa em que os tijolos são  desenformados. O óleo pode causar danos a saúde dos funcionários.

Outra irregularidade é o uso da raspa de couro na fabricação dos tijolos. Ela foi vendida de forma clandestina por curtumes. A sobra deveria ter sido entregue a um aterro industrial, por conter cromo, um metal pesado que polui  o solo, mananciais e causa câncer. Apenas em uma das olarias, estavam depositadas mais de cinco toneladas do produto.